4 ROTEIRO, CAMINHOS E MAPAS
4.2 O programa sócio-hermenêutico
Na tradição sócio-hermenêutica, a sociologia é concebida, não como portadora de “um novo objeto substantivo”, mas como “um novo método de observação, um ponto de vista ou um olhar”, uma “perspectiva graças a qual podemos vislumbrar o significado entre as quase inumeráveis formas e conteúdos que configuram o denso mundo do social”. A realidade social tem “um caráter interativo, interpretativo e recíproco que se realiza no processo concreto de socialização” e o papel da sociologia compreensiva é investigar em cada contexto, temporal e geográfico, essas ações recíprocas entre o indivíduo e a sociedade (ALONSO, 2013, p. 2).
Vivemos num mundo em que “os componentes materiais da vida social estão indissoluvelmente mesclados com o significado que as coisas têm para nós”. A realidade social, em sua complexidade, não é apenas um mundo de coisas, mas também, um mundo de ideias. Da mesma forma que “somos, ao mesmo tempo, biologia e cultura”, a “sociedade é simultaneamente e inseparavelmente grupos, estruturas e processos a serem medidos, e significados e sentidos que devem ser interpretados” (VILLALVA, 2013, p. 1).
Desde Kuhn, vários desdobramentos epistemológicos têm convergido com a tradição hermenêutica em busca de uma concepção compreensiva da ciência e da atividade científica, uma vez que indissoluvelmente mesclados com seus dados objetivos, materiais e quantificáveis, encontram-se práticas linguísticas, através das quais se expressa toda ciência e seus resultados.
54 Estas práticas linguísticas, tais como os depoimentos de Cientistas do Brasil, aparecem na análise de Bourdieu (1989) como práticas sociais de poder, cujos significados e sentidos precisam ser interpretados e compreendidos, uma vez que refletem, no plano simbólico e de uma forma transfigurada, um campo correspondente de posições sociais. Tais produções discursivas seriam carregadas de um “poder simbólico”, que Bourdieu (1989, p. 11) define como “um poder de construção da realidade”. Em sua proposta, “os elementos materiais da realidade não podem sozinhos dar conta do sentido, nem este constitui um texto autônomo que possa ser entendido em si mesmo”. É através da noção de “campo” que ele propõe a superação das alternativas “entre uma concepção que ignora as condições econômicas, sociais e históricas e outra, que refira somente o sentido delas” (VILLALVA, 2013, p. 3).
O “campo” em Bourdieu, e neste caso o “campo científico”, pode ser definido como um microcosmo social dotado de certa autonomia, com leis e regras específicas, mas que é influenciado e se relaciona com um contexto social mais amplo. Pensar a partir do conceito de campo significa pensar de forma relacional, sem isolar o objeto do “conjunto de relações de que tira o essencial de suas propriedades” (BOURDIEU, 1989, p. 27). O conceito também supõe confronto e tomada de posição já que todo campo é um campo de forças e de lutas, enfim, um “campo de poder” (BOURDIEU, 1989, p. 28). A análise sócio-hermenêutica põe em evidência as relações que se mantém entre o sistema linguístico e a ordem social, “delimitando as relações de poder”. Para dar conta “do encaixe de sentidos e poderes”, é preciso considerar que estes não “derivam apenas do sistema de dominação, mas da capacidade dos sujeitos de ativarem-se e interpretarem-se” (ALONSO, 2013, p. 4).
“A comunicação e a linguagem são eventos sociais que adquirem forma, tipo e existência nos signos criados por um grupo organizado, no curso de suas relações sociais”. Todo discurso “nasce de uma situação pragmática, extraverbal, contextual, historial e continua a ligação com essa situação para poder manter sua significação” (MIOTELLO, 2006, p. 177). A questão importante assim, não é “a estrutura subjacente à língua, mas a significação social da fala” que operando “no aspecto simbólico e não apenas sobre o sistema de sinais”, constrói “o humano como social e, portanto, como uma conversação ou um diálogo de muitas vozes” (ALONSO, 2013, p. 9).
O foco da análise, assim, está naquilo que é intersubjetivo, o que não é de modo algum subjetivo, espontâneo, diferente ou autônomo para cada sujeito. O intersubjetivo compreende os significados e sentidos compartilhados pela comunidade de cientistas e é
55 tão objetivo quanto a taxa de natalidade ou a distribuição de renda, uma vez que tem resultados e consequências no curso de toda atividade concreta (VILLALVA, 2013).
O elemento central da análise trata de encontrar, então, o “repertório de motivos”, o “vocabulário de motivos”, o “repertório linguístico” que, enquadrado em marcos históricos e sociais, em última análise, justificam as ações dos cientistas perante aos demais e a si mesmos. Contudo, essa motivação não deve ser entendida como um elemento psicológico ou interno, mas como o sentido da ação, situada no campo relacional dos comportamentos humanos. Os motivos não são os elementos fixados individualmente, mas “os termos socialmente pré-estabelecidos” com que os cientistas procedem à interpretação de suas condutas” (ALONSO, 2013, p. 5).
Nas palavras de Villalva (2013, p. 4), “o significado que possuem as coisas da vida não sou eu que atribuo, eles me vêm dado, socialmente postos: não os decidi, não os inventei, mas os aprendi”. Embora, contudo, “o sentido esteja socialmente posto”, ou seja, “embora não seja algo subjetivo construído por cada ator, não é, porém, único para cada coisa social”. Em uma sociedade pode haver “distintas visões do mundo e a partir de cada uma delas cabe atribuir um sentido diferente ao mesmo fenômeno ou situação”, o que dependerá “da perspectiva de onde se contempla e do lugar social que corresponde à posição de que se olha”. É “o conflito que determina a variedade de sentidos, um conflito de posições sociais”. Isto significa que um investigador pode identificar um desses sentidos e “outro sentido pode ser descoberto por um investigador diferente, sendo ambos empiricamente verificáveis, são então, ambos verdadeiros para as ciências sociais” (VILLALVA, 2013, p. 4).
O que torna “a forma linguística um signo, não é sua identidade como sinal, mas sua mobilidade específica”, uma vez que “a compreensão da palavra no seu sentido particular, depende da compreensão e da orientação que é conferida a essa palavra por um contexto e uma situação precisos” (ELICHIRIGOITY, 2008, p. 185). Isso significa que toda “palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial” e que “as formas linguísticas vazias de ideologias são apenas sinais da linguagem” (ELICHIRIGOITY, 2008, p. 186).
O diálogo “entre os produtos textuais e o intérprete” é um intercâmbio de consciências discursivas e de práticas, que convergem no trabalho das ciências sociais. Como toda interação social tem um caráter comunicativo, cabe ao investigador, a partir de sua subjetividade, construir categorias concretas e estratégicas, com capacidade de captar a subjetividade dos produtos comunicativos dos atores. Subjetividade que se
56 constitui, finalmente, em intersubjetividade, pelo fato de que todo discurso se produz em sociedade e se volta a ela, numa relação dialógica e intertextual em que “os enunciados não são indiferentes uns aos outros, nem são autossuficientes, mas, sabem um dos outros e se refletem mutuamente” (BAJTIN, 1982, p. 264).
O propósito da sociologia compreensiva não é “inventar o mundo social, senão descobri-lo”, com a finalidade de “conseguir que as realidades sociais sejam também categorias sociológicas, já que descobrir algo é, sobretudo, conceituá-lo”. Essa construção conceitual da realidade corresponde a “elaborar um mapa da mesma, mapa que não é a realidade nem seu reflexo, mas que a representa, interpreta e a faz inteligível” (ALONSO, 2013, p. 3).
Toda realidade se constrói “de maneira subjetiva com materiais e limites que são objetivos”. Isto quer dizer que toda interpretação, não sendo reflexo, nem tradução da realidade, menos ainda a natureza objetiva do texto, trata de descobrir, da maneira mais completa possível, “a trama de significados que reconstrói uma realidade a que o investigador, de maneira coerente com seu projeto (objetivos particulares, contexto de ação e posição social), encontra sentido enquanto intérprete” (ALONSO, 2013, p. 13).
Isto nos leva ao tema do possível subjetivismo do trabalho sócio-hermenêutico que deverá “ser considerado como uma das suas condições prévias e necessárias”, porque “será sempre o sujeito a dar sentido aos fatos e aos textos”. Deve ser enfatizado, porém, “que a posição criativa do analista” sempre “tem um limite objetivado e objetivo em referência ao campo e aos contextos de ação”. O pesquisador social não é “um simples descritor de fenômenos sociais específicos associados às relações externas”, mas “um sujeito em processo, que busca no comportamento humano ações significativas; ações cujo significado, para o grupo de atores envolvidos neste campo, tenta extrair conceitualmente” (ALONSO, 2013, p. 13).
A busca pelo sentido sempre “escapa à tradição de uma única verdade” (ELICHIRIGOITY, 2008, p. 183). Ao concebermos com Bourdieu, Bakhtin, Villalva, Alonso e outros, a linguagem como prática tanto cognitiva quanto social, devemos compreender que esses aspectos tornam possível o diálogo que abrange, simultaneamente, as diferenças.