Classe II – são os problemas causados diretamente pelos projetos, sendo
4. O PROGRAMA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE E OS PADRÕES VOLUNTÁRIOS.
4.3 Demais padrões: Ceres, Global Compact e GRI.
4.3.1 Coalition for Environmentally Responsible Economies – Ceres
Fundada por um pequeno grupo de investidores em 1989, em resposta ao derramamento de óleo do Exxon Valdez, Ceres é uma iniciativa formada por bancos, investidores, empresas e organizações ambientais, com o objetivo de tratar dos principais desafios relacionados à sustentabilidade, em especial, as mudanças climáticas.
No final de 1989, a Ceres lançou um código de conduta com dez princípios que passou a se chamar os Princípios de Ceres. Tratam eles de: proteção da biosfera; uso sustentável dos recursos naturais; redução e disposição de resíduos; conservação de energia; redução de riscos sociais e ambientais; produtos e serviços ambientalmente seguros; recuperação ambiental; informação ao público; comprometimento da alta administração; e auditoria e relatórios. Até setembro de 2012, a Ceres tinha 63 empresas-membros, pertencentes a diversos setores econômicos.
O último princípio que trata de relatórios e de informações ao público foi o que mais avançou com o apoio da Ceres, uma vez que ela deu inicio às discussões sobre a necessidade de estabelecer um padrão internacional para relatório de sustentabilidade, que resultou no lançamento do Global Reporting Initiative (MAGALHÃES, 2010, 52).
O trabalho da Ceres vem contribuindo muito com as questões relacionadas às mudanças climáticas e à divulgação de informações. Além de seu papel na criação do GRI, a Ceres com alguns investidores e gestores de fundo pressionaram a Security and Exchange Commision (SEC) para exigir que as empresas com ações em bolsa divulgassem seus riscos e oportunidades em relação às mudanças climáticas.
O resultado desse trabalho da Ceres foi o lançamento, em fevereiro de 2010, por parte da SEC de um guia oficial para orientar e esclarecer o que as empresas de capital aberto devem divulgar sobre questões relacionadas ao clima. O propósito é que as empresas informem os investidores sobre a materialidade das questões climáticas nas operações de negócios, incluindo as novas políticas de gestão de emissões, os impactos físicos das mudanças climáticas ou oportunidades de negócio associadas à crescente economia de energia limpa (CERES, 2010).
4.3.2 Pacto Global da ONU (UN Global Compact)
Em 26 de julho de 2000, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou o Global Compact, conjunto de nove princípios com o objetivo de mobilizar a comunidade empresarial internacional para a promoção de valores fundamentais nas áreas de direitos humanos, trabalho e meio ambiente. Em 24 de junho de 2004, o secretário-geral da ONU adicionou um décimo princípio, referente ao combate da corrupção.
O Pacto Global da ONU é definido como um apelo para que as empresas de todos os países voluntariamente alinhem suas operações e estratégias aos dez princípios universalmente aceitos nas áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção e tomem medidas de apoio às metas e questões da ONU. É uma plataforma de liderança para o desenvolvimento, implantação e divulgação de políticas e práticas de responsabilidade corporativa (Global Compact, 2011).
Desde o lançamento do programa, mais de oito mil organizações se tornaram signatárias, provenientes de cento e quarenta países e com rede local em mais de cem países. São cinco mil seiscentos e trinta e oito empresas, das quais trezentas e vinte e uma pertencem ao setor de serviços financeiros.
Os princípios propostos referentes ao meio ambiente são:
Princípio sete: Apoiar o princípio da precaução em relação aos desafios ambientais. Princípio oito: Adotar iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental. Princípio nove: Incentivar o desenvolvimento e a difusão de tecnologias limpas.
Vale ressaltar que o trabalho do Global Compact é baseado no conceito de Responsabilidade Social Corporativa (CSR) e as ações, portanto, são voluntárias em uma estrutura de autorregulação. O documento - The Importance of Voluntarism, lançado em 2009, resume os objetivos e os fundamentos do trabalho do Pacto Global.
O documento procura deixar claro que as iniciativas voluntárias são complementares à regulação, e não substitutas. O terceiro parágrafo do documento faz referência à autorregulação na gestão da sustentabilidade:
O Pacto Global da ONU acredita que as iniciativas voluntárias desempenham um papel essencial no sentido de encorajar as empresas a abraçar a responsabilidade
corporativa e a ética nos negócios. Iniciativas voluntárias de responsabilidade corporativa são programas que promovem a autorregulação empresarial em relação à gestão da sustentabilidade. Ao participar de uma iniciativa voluntária, as empresas se comprometem entre si a compartilhar padrões e princípios de comportamento responsável. Empresas participam dessas iniciativas, não por estarem obrigadas a fazê- lo, mas como resultado de indutores, externos e internos, e preocupações que levaram a uma nova maneira de atuar.
O Pacto Global publica todos os anos um Relatório Anual divulgando os resultados de um estudo sobre o engajamento e a implantação dos dez princípios por parte das empresas signatárias. A pesquisa serve para avaliar os resultados de seu trabalho como disseminador e indutor da sustentabilidade corporativa. Em 2011, mais de vinte por cento das empresas participaram do estudo e a pesquisa identificou alguns pontos que merecem destaque (Global Compact, 2011):
Quase a metade das empresas – 44 %, diz ter uma política estratégica que é alinhada com os compromissos do Pacto global e dos 44%, apenas vinte por cento relatam que suas
atividades de lobby nos governos estão alinhadas com os princípios de sustentabilidade.
Trinta e oito por cento das empresas declaram que a participação no Pacto Global ou ajudou significativamente ou foi essencial para promover suas políticas e práticas de responsabilidade corporativa. Na pesquisa de 2009, o percentual foi de doze por cento. As empresas que aderiram ao Pacto há mais tempo tendem a ter melhor performance em
relação a áreas mais desafiantes, tais como responsabilidades trabalhistas, transparência das práticas e políticas e direitos humanos.
Muitas empresas dizem que têm políticas, mas não avançaram em relação às práticas,
mostrando que há uma defasagem entre política e ação efetiva.
Enquanto avaliações de risco ambiental estão se tornando uma característica padrão na gestão da sustentabilidade, menos de um quarto faz avaliação de risco em relação a
direitos humanos, trabalhistas e de anticorrupção.
As áreas educativa e ambiental são as que mais têm metas para as empresas.
Os resultados da pesquisa corroboram os resultados encontrados nas pesquisas realizadas no setor financeiro, descritas nos capítulos sete e nove. A pesquisa mostrou que a
autorregulação, por meio de iniciativas voluntárias, não conseguiu inserir efetivamente a sustentabilidade ambiental no core business das empresas nem dos bancos. Por outro lado, vale destacar que, se realmente as questões ambientais fossem relevantes para os negócios das empresas entrevistadas, elas estariam fazendo lobby nos governos para promover a sustentabilidade social e ambiental, mas nesse item menos de nove por cento declararam fazer lobby alinhado com os princípios da sustentabilidade.
4.3.3 Global Reporting Initiative (GRI).
O Global Reporting Initiative (GRI) é uma rede multistakeholder de empresas e organizações responsável pelo desenvolvimento de um padrão internacional para relatórios de sustentabilidade de empresas. O objetivo é fazer com que esses relatórios se orientem por padrões de qualidade técnica, credibilidade e relevância. Participam da rede, além de empresas globais, organizações da sociedade civil, de trabalhadores e instituições profissionais. A proposta de um padrão desse tipo começou a ser discutida entre 1997 e 1998, a partir da iniciativa da Ceres.
A iniciativa se fortaleceu em 1999 quandoa UNEP aderiu a ela e quando 20 empresas começaram a organizar seus relatórios de sustentabilidade baseados no rascunho do que viria a ser o GRI. No ano 2000, com um grande esforço de divulgação e a realização de reuniões na América do Sul e do Norte, Austrália, Europa, Sul da Ásia e Japão, 50 empresas passaram a seguir as diretrizes do GRI em seus relatórios.
O GRI foi constituído como organização independente, na forma de uma associação com sede em Amsterdã, Holanda, em 2001. Conta também com os representantes regionais, os Pontos Focais (Focal Points) nos seguintes países: Austrália, Brasil, China, Índia e Estados Unidos e com uma rede mundial de 30.000 pessoas.
O GRI desenvolveu um guia para orientar as empresas na elaboração dos relatórios. A primeira parte dele trata dos princípios, tais como materialidade, comparabilidade, exatidão dos dados, tempestividade etc. A segunda parte trata do conteúdo do relatório – estratégias, gestão e indicadores de desempenho.
Os indicadores de desempenho propostos pelo GRI são organizados em categorias: econômica, ambiental e social. A social é dividida em subcategorias – trabalho, direitos humanos, sociedade e responsabilidade do produto.
Além do guia geral, o GRI desenvolveu guias suplementares setoriais, entre eles o setor financeiro. O suplemento para o setor de serviços financeiros foi elaborado por uma equipe de multistakeholders de diferentes regiões, formada por voluntários de empresas do setor, investidores, trabalhadores, ONGs e instituições de pesquisas. Os membros da equipe fazem parte como indivíduos e não representam necessariamente a visão das organizações a que pertencem. O suplemento foi lançado em outubro de 2008 – o G3 guideline.
Apesar de os padrões GRI exercerem importante papel como disseminadores e orientadores de práticas e políticas socioambientais no setor financeiro, a pesquisa realizada pelo BCB sobre relatórios de sustentabilidade de bancos no Brasil e outros países, constatou diversas falhas, sendo a principal delas a dificuldade de dados quantitativos que possibilitem a comparabilidade entre os bancos e as ações dos bancos em um período de tempo. Mais uma vez o problema decorre da falta de sanções e controle externo por se tratar de uma autorregulação e, portanto, sem poder coercitivo para exigir o cumprimento dos padrões.
O GRI tem várias categorias em termos de qualidade de informações, até mesmo os relatórios de uma mesma categoria se apresentam em um formato e com dados e informações muito diferentes, o que inviabiliza a comparabilidade, dificultando as decisões dos agentes econômicos em relação aos aspectos ambientais. Esse é o motivo pelo qual alguns trabalhos de pesquisas vêm sugerindo a necessidade de regular os relatórios de sustentabilidade. Duarte (2012), por exemplo, argumenta que os instrumentos voluntários de relatório de sustentabilidade não têm sido eficazes porque não há nenhum controle sobre as atividades dos signatários para medir a extensão de seu compromisso e nenhuma responsabilidade legal por sua violação. Outros autores, tais como Richardson (2011) e Sjåfjell (2011) também defendem a necessidade de regular a divulgação de informações não financeiras das empresas para melhorar a adoção de critérios sociais e ambientais nos investimentos.