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REGULAÇÃO: o contramovimento da sociedade

6. As PRÁTICAS AMBIENTAIS NO SETOR BANCÁRIO INTERNACIONAL

6.1. As políticas e práticas ambientais nas instituições financeiras

6.1.1 Política de gerenciamento de risco ambiental

Todas as instituições financeiras analisadas divulgam em seus websites e relatórios anuais ou de responsabilidade social/sustentabilidade, a existência de gerenciamento de risco ambiental, com equipes especializadas para o exercício da função. O RBC do Canadá, por exemplo, declara possuir gestão de risco ambiental desde 1991.

Quanto às políticas setoriais, existem diferenças em relação ao tipo de setor e à quantidade de políticas. Notou-se claramente que os bancos europeus desenvolveram muito mais políticas que os bancos americanos, além de dar mais detalhes sobre suas políticas, concentrando- se mais nos setores de maior atuação. O Rabobank, por exemplo, que atua predominantemente no setor de agronegócios, tem políticas, além da agricultura em geral, para diversos itens cuja produção financia: cacau, soja, café, cana-de-açúcar, óleo de palma entre outros.

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Entendido como adicionalidade ambiental, qualquer produto ou serviço financeiro que gere algum benefício ambiental, por exemplo, financiamento para energia renovável, financiamento de tratamento de resíduos, financiamentos para eficiência energética etc.

De maneira geral, todos os bancos adotam a gestão de risco ambiental em grandes projetos, especialmente para project finance, uma vez que todos são signatários dos Princípios do Equador (PE). Alguns aplicam os PEs para outros projetos e operações em que os aspectos ambientais são críticos, a exemplo do Barclays, que os adota para alguns projetos e financiamentos considerados ambientalmente críticos, mesmo para aqueles que estão fora do conceito de project finance.

Ainda dentro da gestão de risco ambiental, algumas instituições adotam como política não financiar atividades consideradas nocivas ao meio ambiente ou à sociedade, tais como indústria de armas, energia nuclear etc. Contudo, outras instituições preferem não excluir nenhuma atividade econômica de seus negócios, mas estabelecem critérios mais restritivos para as atividades “ambientalmente polêmicas”, como é o caso da geração de energia, petróleo e gás, atividades essas muito criticadas pelos danos causados ao meio ambiente, em especial em relação à emissão de gases de efeito estufa.

Além das políticas setoriais, a maior parte das instituições tem políticas para tratar de temas que são considerados transsetoriais, ou seja, permeiam todos os setores e são relevantes sob o ponto de vista de risco e oportunidades de negócios. Os mais relevantes são: mudanças climáticas, biodiversidade e água. Desses três temas, o que mais tem avançado no setor financeiro é o das mudanças climáticas, tanto sob o ponto de vista de risco como de oportunidade de negócios. Desse modo, basicamente todas as instituições financeiras pesquisadas, exceto o Rabobank e a Vancity, têm as mudanças climáticas como sua política estratégica ambiental.

Apesar de as instituições divulgarem suas políticas de gestão do risco ambiental, não foi possível identificar a abrangência da avaliação do risco, ou seja, em que setores fazem obrigatoriamente a avaliação do risco, quais os valores, região etc. Por exemplo, no caso do Barclays, o banco cita apenas que, além dos projects finance, faz avaliação de risco ambiental para setores e operações ambientalmente críticos, sem divulgar quais os setores e se há corte de valores etc. O banco divulgou que foram analisadas 109 operações dentro dos critérios ambientais, mas sem detalhar o valor e, portanto, não se sabe o quanto isso representa na carteira do banco.

Partindo do pressuposto de que as instituições financeiras têm preocupação em mitigar o risco reputacional, um dos principais indutores para a inserção dos critérios ambientais

na avaliação do crédito, elas certamente divulgariam os valores se fossem relevantes. A não divulgação de dados leva a pressupor que são poucos representativos na carteira. Assim, a falta de dados quantitativos leva a crer que a reputação é o maior risco a ser mitigado, além do risco legal, quando há legislação ambiental que coloca o financiador como responsável pelo dano ambiental causado pelos tomadores de crédito.

A grande preocupação com o risco reputacional ficou evidente no caso do Deutsche Bank ao declarar que a instância maior do banco em termos de risco ambiental é o Comitê de

Reputação do grupo. Questões ambientais polêmicas de alto impacto de risco reputacional que

não obtêm consenso entre as áreas de negócios são levadas a um dos Comitês de Risco

Reputacional Regional. Se, ainda assim não houver acordo, o Comitê de Risco Reputacional do Grupo deve resolver a questão. O último recurso é um subcomitê do Comitê de Risco

Executivo. Em 2010, noventa e oito transações foram reportadas nesse contexto, sendo que 13% envolviam questões ecológicas, sociais ou de governança.

A falta de dados quantitativos também ocorre com os projects finance, embora exista entre os Princípios do Equador, um que estabelece a obrigatoriedade de divulgação da quantidade e da categorização de risco dos projetos financiados no ano. Nenhum dos bancos pesquisados, signatários do PE, faz qualquer referência a valores em relação aos projetos analisados sob os critérios dos PEs, ou seja, não se sabe qual a representatividade desses projetos no total da carteira dos bancos. Enfim, o fato de o banco dizer que tem política de risco ambiental não tem grande significado se ela é aplicada a meia dúzia de operações, isso não significa inserção dos aspectos ambientais nos negócios, pelo menos sob o ponto de vista do risco.

Quanto ao cálculo de capital regulamentar e provisão, que seria uma forma de materializar a inserção dos aspectos ambientais nos negócios do banco, nenhuma instituição declarou fazer cálculo de capital para os riscos ambientais nem mesmo cálculo de provisão. Exceto o Rabobank Brasil.

Práticas ambientais de alguns bancos se destacam, a saber:

O Banco Abn Amro adota os critérios sociais e ambientais para avaliar o risco país. Os países são classificados em três categorias de risco: alto, médio e baixo. Os aspectos sujeitos à avaliação são: direitos humanos, segurança, governança, transparência, prosperidade, proteção ambiental, conformidade com tratados internacionais sobre padrões sociais e ambientais. Outro

aspecto diferenciador é que seus stakeholders são convidados a participar da formulação das políticas de gestão dos riscos ambientais.

O Rabobank possui políticas específicas para quase todos os produtos do setor de agronegócios. Desenvolveu um Manual de boas práticas socioambientais para o setor de

agronegócios que tem sido aplicado em diversos países, inclusive na China. No Brasil, é a única

instituição105 que faz avaliação de risco ambiental para todos os clientes da carteira de crédito e tem modelo de avaliação de risco de crédito que incorpora o risco ambiental e pondera para

efeito de precificação da operação. Esse é um avanço considerável em relação aos demais

bancos, uma vez que, se o risco ambiental faz parte do rating do cliente e da operação, significa que ele está sendo provisionado e, portanto, com impacto sobre seu resultado e seu capital. As ações e práticas socioambientais são auditadas pela auditoria interna e externa desde 2004. As políticas são aplicadas, além do crédito e dos projects finance, nos serviços de consultoria e trade finance. Em relação às políticas setoriais, o banco recebeu a melhor classificação pela avaliação da Banktrack106, em uma classificação de zero a cinco, em várias políticas recebeu pontuação “Três”.

O HSBC, entre os bancos pesquisados, é o mais proativo em relação às mudanças

climáticas. Ele conta com um Centro de Excelência em Mudanças Climáticas (Climate Change Centre of Excellence), dentro de sua divisão de Pesquisa Global (The Research Global). Além disso, teve por muito tempo o economista Nicholas Stern, autor do relatório Stern sobre mudanças climáticas, como membro do Conselho de Administração. As pesquisas realizadas no Centro abrangem tópicos tais como implicações de mudanças climáticas para a agricultura, vulnerabilidade para os países do G-20, tendências de energia global para 2050 e projeções para o mercado de tecnologia limpa, bem como análises aprofundadas de riscos e oportunidade na China e na Índia. Na área de negócios, a instituição possui uma equipe especializada em energia renovável e tecnologia limpa, que trabalha para apoiar os clientes que operam nesses setores, em todo o mundo. Além de financiamento para energia renovável, o banco divulga que vem

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Após a pesquisa, o Banco Santander passou a fazer avaliação de risco socioambiental de 100% do segmento atacado. 106

A nota zero significa que o banco não tem polítca para o tema ou setor. Pontuação máxima das políticas socioambientais segundo a avaliação da BankTrack: Agricultura – 3 (Rabobank); Pesca – 3 (Rabobank); Floresta – 4 (HSBC); Comércio e indústria de armas – 3 (ING, Rabobank e Unicredit); Mineração – 2 (Rabobank); Petróleo e gás – 2 (Rabobank); Geração de energia – 2 (HSBC, WestLB e Standard Chartered Bank); Biodiversidade – 1 (a maior parte dos bancos pesquisados); Mudanças climáticas – 1 (a maior parte dos bancos pesquisados); Corrupção – 2 (Santander, RBC e Standard Chartered Bank); Direitos Humanos – 2 (HSBC, Rabobank, ABN Amro); Povos indígenas – 2 (Rabobank, JPMorgan); Trabalho – 2 (Rabobank, ING, Barclay, Grupo Intesa); Operações em zona de conflito – 1(apenas o HSBC tem política); Impostos – 1 (Itaú-Unibanco; KBC, Société Générale); e Tóxicos – 1 (a maior parte dos bancos pesquisados).

estruturando emissões de títulos de empresas de geração de energia solar e eólica na China e na Índia.

O Bank of America também tem uma política específica para financiamento em países em desenvolvimento, em que considera não somente a capacidade de pagamento do tomador, mas também: a política social; o propósito da transação; e o impacto na população local.

6.1.2 Produtos

Em relação aos produtos, os bancos têm focado principalmente o financiamento de tecnologias limpas e energias renováveis, com exceção do Rabobank e da Vancity, que além desse tipo de financiamento, têm procurado melhorar a performance ambiental dos clientes. O Rabobank tem incentivado as boas práticas ambientais nos agronegócios em diversos países onde atua. No caso da Vancity, por se tratar de uma cooperativa urbana, tem foco em eficiência energética nas residências e nos veículos, além de incentivar a criatividade “verde” e a educação ambiental dos membros e da comunidade.

Na área de tecnologia limpa, para aproveitar as oportunidades de negócios, os bancos criaram grupos especializados no tema para atender à demanda dos clientes e estão também trabalhando como advisors. Contudo, vale ressaltar que esse interesse dos bancos advém da existência de um mercado e que este não surgiu do “nada” ou da consciência dos bancos e dos clientes de que o meio ambiente precisa ser melhorado. Na verdade, o mercado é decorrente das políticas públicas de comando e controle e de incentivos econômicos, especialmente as políticas de eficiência energética e de redução de emissões na Europa. Sobre isso, o Deutsche Bank explica, em seu website107, por que sua estratégia ambiental está focada em mudanças climáticas, ofertando financiamento de energia renovável e eficiência energética tanto para residências como para empresas. Mas a explicação se aplica a todos os bancos, especialmente os europeus:

The market for energy efficiency and renewable energy is the most promising, because there are direct financial incentives for consumers, combined with the attraction of reducing carbon emissions. Individuals and businesses are installing equipment, supported by government initiatives across Europe. Subsidies and grants have accelerated uptake.

Robust carbon markets could be the most effective way to kick-start private investment in clean energy projects. They set a price for carbon and stimulate non-fossil fuel investment and take-up. But even in Europe, where there has been substantial policy support, these markets remain small. Major expansion is only likely when more

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countries adopt carbon constraints. We strongly support short- and long-term regulatory steps to assist the EU European Trading Scheme (ETS) in achieving its goals.

The carbon markets had a difficult year in 2011. Trends include companies leaving the market, mergers and acquisitions, and cost-cutting. Much lower prices for emissions permits followed the 2010 US decision not to go ahead with federal cap and trade legislation, the slowdown of progress towards trading in Japan, and the twin problems in Europe of a substantial reduction in demand for new CDM projects and low levels of economic activity.

However, there was also some good news in 2011: Legislation for cap and trade in Australia, firm progress in China, and the continuation of moves to a 2012 start in California. There was also activity in Canada, India, Brazil, Turkey, and many other non-OECD countries. Korea, New Zealand, Japan, Taiwan, the RGGI states in the US, and Canada, all continue to move forward.

Outro exemplo de banco que tem aproveitado esse mercado, criado pela regulação do Estado, é o Crédit Agricole. Em relação aos produtos sustentáveis, divulga seu apoio ao projeto zero-rate eco-loan (Eco-PTZ)108. Desde o lançamento deste em 2009, já realizou 59 mil financiamentos no total de EUR 900 milhões e, entre 2011 e 2012, ofereceu 115 mil empréstimos para eficiência energética, em um total de EUR 1,4 bilhão, e se tornou líder desse projeto. Além disso, o banco financiou, em 2011, 15 fazendas eólicas e 21 plantas de painel solar.

O Barclays é um dos poucos bancos que anuncia produtos voltados ao meio ambiente ao lado dos demais produtos, e não separadamente como mais um item dentro da política de sustentabilidade ou de Responsabilidade Social Corporativa. Dentro do item de negócios, no subitem das commodities, o banco oferece os serviços de gestão de risco de preço para o carbono, que denomina de “mercado ambiental”, com outras commodities, tais como: agrícolas, petróleo, carvão, metais etc. No mercado ambiental, para clientes que queiram comprar ou vender licença de poluição, o banco oferece acesso aos mercados: EU Emissions Trading Scheme (ETS) – Mercado de Emissões Europeu; Clean Development Mechanism (CDM) - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL); Sistema de Comércio de Emissões da Califórnia (AB-32).

Na gestão de risco do preço do carbono, o Barclays oferece produtos tais como: Swaps financeiros contra índices de mercado que permitem acesso à exposição ao preço sem entrega, opções e swaps para os Certificados de Redução de Emissões (CERs) negociados nos mercados de carbono. Conforme dados de outubro de 2012, o banco já havia negociado mais de 6,5 bilhões de toneladas de carbono equivalente (Cteq) em crédito de carbono, com um valor

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Programa do governo para redução de emissões de gases efeito estufa e redução de consumo de energia, são empréstimos para melhorar a eficiência energética nas residências com taxa de juros zero.

nocional de aproximadamente EUR 80 bilhões; lançou o primeiro contrato futuro padrão de CER, transacionou o primeiro comércio de permissão de emissão da Califórnia (CCA – California Carbon Allowances), entre outras inovações dentro do mercado de carbono.

Outros bancos que divulgam a oferta desse tipo de produto em seus websites são o Deutsche Bank, que financia projetos de MDL e trabalha com a intermediação e compra de CERs; e o Société Générale que declara atuar mais no mercado secundário dos títulos de carbono.

Em relação aos produtos oferecidos, ao contrário do que ocorre com a gestão de risco em que há poucos dados quantitativos, de maneira geral os bancos divulgam o volume de recursos que foram destinados à energia renovável ou tecnologia limpa, mas ainda sem indicar a representatividade na carteira, com exceção do Crédit Agricole, que no relatório anual de 2011 declarou que os projetos de energia renovável já representam 56% do total da carteira de geração de energia.

Em relação aos investimentos, na administração de ativos de terceiros, todos os bancos ofertam fundos de investimento socialmente responsável, todos são signatários dos Princípios para Investimento Responsável (PRI – Principles for Responsible Investment), e alguns fornecem dados sobre o percentual dos investimentos avaliados segundo os critérios do PRI. O Rabobank, por exemplo, declara que 56% do total de ativos sob sua gestão são avaliados pelos critérios socioambientais; e o Crédit Agricole possui EUR 55 bilhões de ativos avaliados sob os critérios do PRI.