Capítulo 4 Brasília: a preocupação com o abastecimento alimentar da criação até os dias de
4.3 Demanda de alimentos para consumo interno
Atualmente, o DF importa de outras regiões aproximadamente 70% dos alimentos que consome107.
Garcia e Recine (2014) chamam a atenção de que a produção de alimentos básicos no DF difere do padrão apresentado no país. Enquanto no Brasil temos a maior parte dos alimentos básicos sendo produzidos pela agricultura familiar, para o DF essa realidade se altera. Abaixo segue uma tabela sistematizando os dados que as autoras trazem do Brasil e do DF, de acordo como Censo Agropecuário (IBGE, 2010), em que consta as porcentagens da produção da agricultura familiar em relação à produção total de alguns alimentos.
106 Informação disponível em
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/correiodebate/agonegocio-df/2017/05/16/noticias- agronegocio-df,595265/brasilia-tem-producao-de-sobra-para-abastecimento-e-exportacao.shtml, acessada em 03/12/2018.
107 Essa informação foi divulgada por um profissional da CEASA-DF, responsável pelo setor de
estatística, em um seminário realizado no final do ano de 2018 pela EMATER-DF. Tal informação também é mencionada em CODEPLAN (2015).
Tabela 11: Porcentagem de produtos básicos produzidos pela agricultura familiar no Brasil e no DF – IBGE (2010) Produtos Brasil DF Feijão preto 76,8% 1,2% Feijão fradinho 83,8% 8,1% Mandioca 86,7% 43% Café 55% 11% Leite de vaca 58% 17,4% Leite de cabra 67% 6,1% Aves 50% 5% Suínos 59% 7,6%
Fonte: Garcia e Recine (2014).
De fato, a produção de alimentos básicos pela agricultura familiar do DF destoa daquela observada em âmbito nacional. Isso faz com que a agricultura familiar do DF seja responsável por apenas 11% do valor bruto da produção agropecuária (IBGE, 2010), enquanto a agricultura não familiar é responsável pela maior parte.
Em publicação elaborada no ano de 2017 para subsidiar o Zoneamento Ecológico Econômico do DF, afirma-se que “à exceção das hortaliças, dos grãos (feijão, milho e soja) e das carnes, (porco e galinha), o DF encontra-se descoberto em relação ao atendimento da demanda por alimentos, nos demais itens alimentares, considerando a pauta de consumo da população” (BRASÍLIA, 2017b, p.25).
Abaixo temos a tabela fornecida na publicação, que apresenta a produção alimentar no DF para o ano de 2012. A demanda alimentar foi calculada com bases nos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar para o DF de 2009. Na tentativa de atualizar essa tabela, acrescentamos uma coluna referente à produção de alimentos em 2017 (EMATER, 2017a). Considerando que não há uma publicação mais recente da pesquisa que gerou as informações sobre a demanda alimentar, a comparação para cálculo do superávit/déficit alimentar para o ano de 2017 foi feita com os dados da POF 2009.
Tabela 12: Produção e Demanda de Produtos Agropecuários no DF - 2012/2017 POF (IBGE, 2009) 2012 2017* Produto (ton.)** Demanda (ton) Produção (ton) Superávit/ Déficit (ton) Produção (ton) Superávit/ Déficit (ton) Hortaliças 69.592,22 233.578,68 163.986,46 233.186,26 163.594,04 Frutas 98.845,78 38.479,32 -60.366,46 37.174,08 -61.671,70 Feijão 22.141,93 49.382,00 27.240,07 42.313, 54 20.171,61 Milho*** 1.318,49 403.111,00 401.792,51 495.693,97 494.375,48 Soja*** 108.235,86 176.160,00 67.924,14 203.567,53 95.331,67 Carne 35.822,89 4.618,92 -31.203,97 3.424,594 -32.398,30 Suíno 8.779,67 15.301,50 6.521,83 19.087,603 10.307,93 Aves 26.518,91 84.349,85 57.830,94 112.502,940 85.984,03 Leite 113.315,78 24.570,10 -88.745,68 27.541,988 -85.773,79
*Para o ano de 2017, a maior parte da produção agropecuária do DF esteve concentrada nas RAs de Planaltina, Brazlândia, Paranoá, São Sebastião, Gama, Sobradinho e Núcleo Bandeirante. **todas as quantidades apresentadas estão em toneladas, à exceção do leite, que apresenta a produção e demanda em litros.
*** Contabilizado somente o consumo humano, de grãos.
Fonte: elaboração própria com dados da EMATER (2017a); BRASÍLIA (2017b); estimativa de demanda calculada pela POF/IBGE - 2009, dados organizados pela CODEPLAN.
Mesmo na ausência de dados mais atuais sobre a demanda alimentar no DF, é possível inferir que ela tenha aumentado de 2009 até os dias atuais, considerando o aumento demográfico ocorrido nesse período. De acordo com o IBGE108, a população estimada para o
DF no ano de 2018 era de 2.974.703 habitantes enquanto no censo referente ao ano de 2006, a população era de 2.570.160 pessoas.
Os documentos consultados apontam que
Analisando a tabela acima é possível notar que os alimentos que apresentavam um déficit de produção no ano de 2012, permaneceram na mesma situação no ano de 2017, alguns, inclusive, tendo essa situação agravada. A produção de frutas em 2017, por exemplo, foi menor que em 2012, o mesmo ocorrendo com a produção de carne bovina. O leite foi o único dos produtos, dentre os deficitários, que apresentou um aumento na produção no ano de 2017, ainda assim, insuficiente para atender a demanda.
Itens como as hortaliças e o feijão, apesar de se apresentarem superavitários, merecem atenção uma vez que tiveram suas produções diminuídas no período analisado. A soja e o milho, por sua vez, tiveram um incremento produtivo mais significativo, juntamente com a produção de suínos e de aves.
Para a CODEPLAN (2015, p.65),
108 Informação disponível em https://cidades.ibge.gov.br/brasil/df/brasilia/panorama, acessada em
[…] o problema do autoabastecimento do DF com alimentos saudáveis para suprir as necessidades de sua população não reside na suposta falta de titularidade ou dominialidade da terra, equacionável mediante a concessão de direto real de uso, nem na falta de investimentos etc., mas sim no modelo produtivo adotado que tem como elementos basilares a concentração excessiva da terra e a produção voltada para exportação que se fazem acompanhar da elevada incorporação de credito, tecnologia e insumos modernos.
A disponibilização de terras para a produção de alimentos, sobretudo daqueles que se encontram em déficit, é uma medida que, de fato, teria um impacto na segurança alimentar e nutricional da população. Contudo, se a proposta é a mudança do modelo produtivo, tal ação isolada não surtiria muito efeito, havendo a necessidade do acompanhamento dos agricultores pelos órgãos técnicos responsáveis pela assistência técnica com o objetivo de orientar novas práticas. De acordo com CODEPLAN, tal disponibilização teria que ser feita de maneira a evitar a concentração de terras, que já é grande no DF, e ser seguida por investimento em tecnologias voltadas para a agricultura familiar
A falta de investimento acarreta, por exemplo, na baixa produtividade observada de produtos que não são alvo central do agronegócio. Enquanto as olerícolas não apresentaram uma evolução significativa na produtividade no período analisado acima, o milho e a soja se destacaram. Uma das razões para isso é o investimento financeiro e tecnológico que existe para o desenvolvimento dessas culturas.
Dessa forma, o cenário de déficit de alguns produtos centrais na alimentação da população do DF que obriga a importação de alimentos, somado a baixa participação da agricultura familiar na produção agropecuária do DF, apontam para a necessidade de reestruturação de novos modelos produtivos descentralizados para o DF e entorno (GARCIA; RECINE, 2014).