CAPÍTULO 3 – PRODUÇÃO CIENTÍFICA SOBRE GUIAS DE VIAGEM: ARTIGOS EM
3.4 Interfaces com a hospitalidade
3.4.2 Demanda turística
A categoria “demanda turística” reuniu 15 artigos, desenvolvidos no período de 1998 a 2015. O único guia citado explicitamente nos extratos dos artigos foi o Baedeker. Quanto aos locais enfocados, aparecem três continentes – África, Ásia e Europa; um subcontinente - América do Norte; países – Grécia, Índia e Austrália; regiões - Meio Oeste (E.U.A.) e Tana Toraja (Indonésia); e cidades – Atenas, Nova Iorque, Londres e Paris. Alguns extratos dos artigos ainda mencionaram o país ou região de origem dos turistas/viajantes como: Japão, Coréia, China, América do Norte, Inglaterra, França, Hong Kong e Grã-Bretanha. O quadro 2 relaciona os artigos dessa categoria, distribuídos em três temáticas: a) o olhar do turista (6); b) perfil do turista (5); c) comportamento do turista (4).
Sobre o olhar do turista, McGregor (2000) abordou a influência dos guias baseando-se na relação entre guias e turistas na região de Tana Toraja, na Indonésia, notando que devido à confiança em um número limitado de guias internacionais, os turistas foram levados a uma experiência e olhar mercantilizados.
De outra forma, Mukhopadhyay (2014) abordou a influência de autores indianos na imaginação da sociedade indiana colonial, ao analisar relatos de viajantes ferroviários escritos em bengali e hindu no final do século XIX e início do século XX. Observou-se que apesar da influência de guias europeus do período, os autores indianos não adotaram um discurso colonizado mas criaram uma narrativa distinta, atendendo sua visão específica da Índia.
Autor/(ano) Título Palavras-chave Temática Carter (1998) A construção de turistas e viajantes da África e Ásia como
locais de risco
Não há
O olhar do turista McGregor (2000) Textos dinâmicos e olhar do turista: Morte, ossos e búfalos Experiência. Guias de viagem. Percepção. Tana Toraja.
Texto. Andsager & Drzewiecka
(2002) Desejo de diferenças em destinos
Desejo. Imagem do destino. Familiaridade. Estereótipos
Gilbert & Hancock (2006).
A cidade de Nova Iorque e a imaginação transatlântica: o turismo Francês e Inglês e o espetáculo da metrópole moderna, 1893-1939
Guias de viagem. Cidade de Nova Iorque. Ocidentalismo. Turismo. Escrita de viagem.
Mahn (2014) O olhar virtual do turista na Grécia, 1897-1905 Grécia. Guia de viagem. Interdisciplinar. Estereoscópio. Visual.
Mukhopadhyay (2014) Olhar colonizado? Guias e viagens na Índia colonial Discurso colonial. Cultura impressa. Ferrovias. Guias de viagem. Guias vernaculares.
Nishimura, King & Waryszak (2007)
O uso de guias de viagem por viajantes japoneses de pacote ou não: Um estudo comparativo
Guias de viagem. Japonês. Turistas sem pacote. Turistas com pacote. Marketing de turismo.
Perfil do turista Nishimura, Waryszak &
King (2007)
O uso de guias por turistas internacionais japoneses: Uma abordagem quantitativa.
Uso de informação estendida. Guia de viagem. Turistas japoneses.
Osti, Turner & King (2009)
Diferenças culturais em busca de informações em guias de viagem
Viajantes asiáticos. Comparação transcultural. Necessidades de informação. Guias de viagem.
Wong & Liu (2011) Um estudo sobre o uso pré-viagem de guias de viagem por viajantes de lazer
Busca de informação. Viajantes de lazer. Guias de viagem.
Roberson (2015) O guia de viagem: Catalizador para viagens autodirigidas Viagem educacional. Aprendizagem de lazer. Aprendizagem autodirigida. Auto-modelagem. Guia de viagem.
Brown (2007) Trabalhando os problemas do turismo Etnografia. Etnometodologia. Práticas do turista.
Comporta mento do turista Young, T. (2009). Emoldurando experiências da Austrália aborígene: Guias de
viagem como mediadores em viagens de mochileiros
Austrália aborígine. Mochileiros. Guias de viagem. Mediação.
Tsang, Chan & Ho (2011) Uma abordagem holística para entender o uso de guias de viagem: comportamento pré, durante e pós-viagem
Viajantes de Hong Kong. Busca de informação. Necessidades de itinerário. Necessidades de segurança. Guias de viagem.
Morosan (2015)
A influência da publicidade DMO (Organizações de marketing do destino) em comportamentos de visitação a destinos específicos
Marketing de destino. Propaganda online. Propaganda impressa. Comportamento do viajante.
Quadro 2 – Artigos científicos sobre guias de viagem na base Scopus da categoria “demanda turística” – 1998-2015 Fonte: Elaboração própria (2016).
Carter (1998) investigou como crenças e ideias sobre regiões constroem a percepção de lugares a serem visitados como seguros ou arriscados. Após entrevista com viajantes internacionais e leitura de conselhos de viagem em guias populares, a pesquisa resultou em três grandes construções, onde Europa e América do Norte foram percebidas como seguras, África como perigosa e Ásia, simultaneamente arriscada e exótica.
Similarmente, Andsager e Drzewiecka (2012) abordaram a influência de estereótipos na familiaridade percebida por turistas. Para isto, a partir de imagens de guias de dois locais escolhidos, os autores listaram os pensamentos de universitários do segundo ano sobre “cenas em termos das pessoas que vivem lá e como seriam as férias ou viver lá”, os entrevistados preferiram imagens familiares para as férias. (ANDSAGER; DRZEWIECKA, 2012, p. 401).
Gilbert e Hancock (2006) exploraram as reações dos visitantes da Inglaterra e França à Nova Iorque no que diz respeito à arquitetura e diversidade étnica, entre o final do século XIX e a Segunda Guerra Mundial. Constataram que guias internacionais enfatizaram as características modernas e americanas da cidade, em vez das suas diferenças em relação a Londres ou Paris.
Mahn (2014) examinou imagens turísticas de 1892 da Grécia e suas característic as tecnológicas, ideológicas e discursivas que distinguiam o olhar do turista, procurando trazer uma pesquisa das ciências humanas sobre o turismo na Grécia e investigando multifl uxos produtivos.
Analisando esse grupo de artigos, é possível notar que os guias de viagem podem alterar a visão de um indivíduo sobre determinado local, assim como influenciar na escolha do destino por meio de texto ou imagens. Yasoshima (2004) chama atenção para a possibilidade de turistas negligenciarem alguns sítios ou atrações por omissão no guia de viagem ou a geração de fluxo contínuo de turistas para determinado destino devido destaque dado em guias. Apesar da influência dos guias sobre os viajantes, Gorp (2012) ressalta a importância dessas publicações como fonte de informação para os turistas, que normalmente as valorizam por serem acessíveis em qualquer hora e local, diferentemente de sites ou aplicativos, que dependem da conexão com a internet ou equipamento para acesso.
Roberson (2015) chamou atenção sobre a importância do uso do guia para as experiências de viagem. Baseou-se em entrevistas com 98 pessoas, enfocando como o viajante usava o guia. Demonstrou que “os guias são catalizadores para viagens, permitindo liberdade de movimento e maior conhecimento da visita”, e a maioria dos viajantes independentes usavam algum tipo de guia (ROBERSON, 2015, p. 123).
Khatchikian (2000) menciona a evolução dos guias de viagem de grandes volumes consultados nas bibliotecas de seus proprietários para o orientavam o planejamento de viagens, para que oferecia toda informação necessária à viagem, como primeiros guias de bolso no século XIX (REJOWSKI et al., 2002), dando maior liberdade ao turista, contendo todas as informações necessárias para o planejamento e para a viagem, com tamanho menor podiam ser levados para consulta.
A terceira temática desta categoria, compôs-se de 4 artigos sobre o comportamento do turista. Primeiramente, a fim de avaliar os problemas dos turistas e possíveis soluções, Brown (2007) descreveu como turistas trabalhavam em grupos, usavam mapas e guias, e pré e pós visitavam lugares. Então, por meio de uma abordagem etnometodológica os turistas, de forma colaborativa, encontravam soluções para seus problemas.
Young (2009) explorou a influência de guias nas experiências de mochileiros e o modo como esses turistas usavam essas publicações. Para tal, o autor entrevistou 28 mochileiros e analisou três guias populares para Austrália, revelando que os guias são sobrepostos pelas experiências vividas e imaginadas de seus leitores em vários momentos ao longo da experiênc ia de viagem, e esta interação acontece de maneira situacional.
Tsang, Chan e Ho (2011) analisaram o comportamento de turistas pré, durante e pós-viagemm bem como seis dimensões de necessidades subjacentes ao uso guias. Apontaram que os “guias superaram outras fontes de informação sobre viagens nas etapas de ‘durante’ e ‘pós-viagem’, mas perdeu a sua competitividade no planejamento pré-viagem para a internet, especialmente na busca de informações sobre destino e alojamento” (TSANG; CHAN; HO, 2011, p. 720).
Morosan (2015) analisou o comportamento de visitação a uma pequena cidade universitária do Meio Oeste dos Estados Unidos sob influência da mídia de propaganda impressa e online. A pesquisa forneceu uma base teórica sólida para o que acontecia além da decisão principal de visitação e ligou a publicidade pré-visita ao comportamento real de visitação.
Os guias de viagem são essenciais na organização da viagem e na conformação de estereótipos. Essas publicações constroem o mundo como desejam e impõem ao viajante o que deve ser visto e onde reside o autêntico, maximizando assim a rentabilidade da viagem, onde não deve ser deixado de lado nada considerado essencial pelo autor. (DE DIEGO, 2014).
Face ao exposto, a categoria “demanda” congregou pesquisas que ligam os guias de viagem aos turistas ou viajantes, colocando estes como o “outro”, o “convidado” (BELL, 2009).
Os artigos remetem ao uso dos guias pelos turistas reais ou potenciais ou, ainda, como essas publicações influenciam na escolha de destinos ou na experiência de viagem.
Nesse sentido, constroem relacionamentos entre hóspede e anfitrião baseados na confiança (LASHLEY,2004). Os turistas escolhem guias de viagem que acreditam ter as informações corretas e suficientes para atender suas necessidades, desde as de alimentação e acomodação até as mais complexas de cunho cultural ou social, variando de acordo com a dimensão da hospitalidade (O’GORMAN, 2007) diretamente relacionadas ao propósito da viagem.