1 AS TRANSFORMAÇÕES DA DEMOCRACIA
1.3 DEMOCRACIA ANTIGA E MODERNA
1.3.1 Democracia antiga
Na Grécia clássica, mais precisamente em Atenas, vigorou a democracia direta, na qual os cidadãos participavam diretamente das decisões políticas.
Segundo Finley (1988) foram os gregos que criaram a palavra democracia; a primeira parte “demos” possuía muitos significados entre o povo grego, dentre eles o de povo como um todo e às vezes significava gente comum ou pobre. A segunda parte “cracia”
3 Há quem entenda (VELLOSO, 2008; SANTOS, 2007) que é possível atingir-se algo
semelhante com o advento das novas tecnologias de informação e comunicação, sendo que a Internet é denominada a nova Ágora Virtual, na qual as pessoas participariam diretamente das decisões políticas, no entanto, isso será visto nos próximos capítulos.
significava poder ou governo. Diante disso, surge a denominação atribuída ao termo democracia, como sendo o poder ou governo do povo.
Para Jaguaribe (1981) a democracia grega, na sua plenitude, foi uma experiência essencialmente ateniense. Em seu sentido mais amplo, vinculado a noção de cidadania, a democracia permeava todas as cidades gregas. Em sentido menos genérico, implicando formas institucionalizadas de alguma participação popular, a democracia se manifestava de modo bastante generalizado, na Grécia clássica. Em casos como os da diarquia de Esparta ou da oligarquia de Corinto, porque havia canais de comunicação participativa entre os cidadãos e as instâncias decisórias. Em outros casos, porque formas efetivamente populares de governo foram intentadas, em determinados períodos, em geral sob a direta influência de Atenas, como ocorreu em Tebas ou em Thourioi.
É em Atenas, entretanto, que se desenvolveu, de forma estável e institucionalizada, um governo do povo pelo povo, exercido diretamente pelos cidadãos reunidos na Assembleia. Segundo Aristóteles (2006), em Atenas o povo se reunia em assembleia em praça pública, ou como era mais conhecida na Ágora, para exercer o seu poder e direito político de forma direta, ou seja, decidia-se pessoalmente sobre todas as questões públicas importantes para a nação.
Para que na polis grega os seus cidadãos pudessem dedicar-se ativamente às questões públicas fazia-se necessário uma organização social voltada para o funcionamento da democracia direta. Assim, Pinto (2003) afirma que fatores como a extensão territorial da polis, as constantes guerras e a presença de escravos favoreciam o funcionamento da democracia. Estes fatores se entrelaçam de forma tal que acabam sendo consequência uns dos outros.
Segundo Pinto (2003), as cidades-estados gregas eram muito pequenas em relação aos Estados modernos; a população de Atenas vivia em um território de cerca de mil milhas quadradas. Em decorrência da pequena extensão territorial, todos os cidadãos se conheciam e a importância política que cada um possuía era incomensurável.
Por possuírem um pequeno território, os gregos precisavam expandir suas fronteiras para obterem riquezas que garantissem as despesas da polis, assim, a constância das guerras, era a única maneira encontrada pelos gregos de proteger e preservar suas fronteiras dos ataques inimigos, que podiam ser dos bárbaros (povos não helênicos) e/ou de seus vizinhos (povos helênicos), e por meio da pilhagem, uma
forma de adquirirem riquezas que podiam ser públicas ou privadas, como terras, tributos e, principalmente, escravos. Destaca Finley (1988, p. 117) que, com a obtenção de escravos, que eram usados na agricultura e nas demais tarefas, o homem grego possuía bastante tempo livre para dedicar-se a sua paixão, os negócios públicos.
Esta organização social permitia aos atenienses manter o seu interesse pela democracia e valorizar a participação de cada um deles para moldar a vida pública. Era na cidade que girava toda a vida dos cidadãos, o que favorecia a vinculação do indivíduo na comunidade.
No mundo antigo, afirma Pinto (2003), o exercício da liberdade confundia-se com a participação ativa e direta como guia para os assuntos públicos. A liberdade para os gregos residia na participação do poder social, ou seja, a participação nas deliberações públicas; como membro da comunidade, um indivíduo exercia sua liberdade através dos direitos políticos, constituindo a vontade coletiva, e sendo por ela tolhido.
Nas pólis, afirma Jaguaribe (1981), se constituíam, formal ou informalmente, processos pelos quais os cidadãos comuns podiam fazer sentir sua opinião sobre as decisões públicas, por exemplo, as mulheres, naquela cultura patriarcal que reservava a vida pública exclusivamente aos homens, eram, como cidadãs, partícipes da discussão política. Não tinham voz nem voto na Assembleia, mas era relevante sua contribuição para a formação da opinião pública.
Já sobre os estrangeiros e os escravos, escreve Jaguaribe (1981) que os estrangeiros, cidadãos de outra cidade, não possuíam cidadania. Tinham direitos privados, devidamente assegurados, embora sujeitos a certas restrições quanto à propriedade fundiária, mas eram destituídos de direitos cívicos. Já os escravos eram privados de qualquer cidadania, considerados externos a comunidade e, portanto, nem formal nem informalmente capacitado a opinar sobre os negócios públicos. No entanto, o sentido profundamente humanista da cultura grega, particularmente em Atenas, conferia ao escravo, uma dignidade humana básica, socialmente protegida.
Conforme Pinto (2003), na Ágora os gregos deliberavam sobre a guerra e a paz; a conclusão ou não de tratados de aliança; a acusação, o julgamento, a condenação que variava entre a pena de morte ou o ostracismo, bem como a absolvição de qualquer cidadão; elegiam alguns funcionários essenciais como os generais; votavam as leis; examinavam as contas públicas etc. Podendo-se concluir que os gregos exerciam pessoalmente e plenamente as funções: legislativa, executiva e judicial.
Para os antigos, afirma Bobbio (2000), quando se falava em democracia eles pensavam em uma praça ou então em uma assembleia na qual os cidadãos eram chamados a tomar, eles mesmos, as decisões que lhes diziam respeito. Democracia significava o que a palavra designa literalmente: poder do povo.
Portanto, a democracia antiga se revela exclusivamente direta, na qual os cidadãos se reuniam em assembleia para tomar as decisões de interesse comum. A própria organização da cidade era voltada para que os cidadãos tivessem tempo disponível para dedicar-se a atividade política. Isso demonstra a importância que a participação política possuía nas cidades gregas.