TÍTULO III Do Município
4.4 Democracia e democracia social
Para a continuidade deste estudo, é importante o estabelecimento de uma nova distinção entre a democracia republicana e a democracia social. Essa distinção é fundamental para a compreensão dos processos gerenciais e de muitas formas de defesa de participação democrática que não concebem a democracia do ponto de vista republicano, mas do ponto de vista social. Segundo Miguel Reale (1996), a democracia social seria a expressão contemporânea atualizada da democracia liberal (POLETTIE,1999). O que diferencia a democracia social da democracia republicana é o próprio exercício democrático que no primeiro caso é atomizado e no segundo é exercido pelo povo constituído como corpo político.
Na atualidade, a principal contraposição à democracia social é o modelo da social democracia, forma de governo que atribui ao Estado um papel central para o alcance do bem estar social (Wellfare State) e na defesa do desenvolvimento social e econômico. A social democracia é uma forma republicana que exige um Estado forte, que permanece como regulador das atividades econômicas, com frequentes intervenções na economia de mercado. Na concepção de democrata social o Estado mantém-se fora das esferas sociais e econômicas, intervindo apenas quando os agentes privados demonstram ser incapazes de garantir a liberdade social e a propriedade. Polettie (1999), a partir da concepção de Reale
186 (1996), observa que o conceito de democracia social procura conciliar três fatores: a iniciativa privada, a fiscalização e programação do Estado e, finalmente, a participação direta do próprio Estado.
Segundo Polettie (1999), os adeptos da democracia social vêm a liberdade social como forma concreta de participação, tanto no plano político como no plano econômico e social. Nesta perspectiva, o que se pode perceber é a transformação da ação política em ação social, porque se considera a condição de liberdade individual como base das interações políticas. O princípio da liberdade como participação é um dos fundamentos da democracia social. De fato, na democracia social, a liberdade antecede à participação, na democracia republicana a participação antecede à liberdade. Isto significa que, tomada no sentido social, a democracia seria o direito que cada indivíduo tem de expressar e defender seus interesses e concorrer com os demais para atingi-los, já no caso da democracia republicana, a liberdade se expressa na possibilidade que cada um tem de expressar e defender seus interesses, no âmbito da coletividade, que delibera não segundo os interesses individuais, mas segundo o bem comum.
No discurso da democracia social, é necessário garantir-se o equilíbrio mundial e a superação das desigualdades econômicas no plano do concerto das nações, para que o indivíduo possa ter um ambiente propício para o trabalho, para a livre concorrência e, portanto, para a prosperidade pessoal.
No Estado da Democracia Social confere-se uma importância muito grande ao trabalho e, portanto, ao trabalhador, cuja circunstância não se restringe a seu ambiente de trabalho ou na sua associação de classe, mas se estende à sua projeção civil e social, a seu lazer e à sua participação cultural. [...] O que se preconiza, portanto, não é o regime do trabalhador, no sentido marxista, mas um regime de ampla e diversificada participação de todos nos benefícios do progresso material, cultural e social (POLETTIE, 1999, p.125).
A democracia social é também denominada de democracia participativa, porque pressupõe a participação dos indivíduos nas ações sociais. Este é um aspecto importante, porque na democracia republicana não é a simples participação que importa, mas a participação qualificada como cidadão, no corpo político, o que constitui a esfera pública. Assim, é necessário que se diferencie a esfera social, onde todos participam como átomos, concorrendo uns com os outros, da esfera pública, ou esfera política, onde cada indivíduo torna-se cidadão na medida em que partilha da condição de agente do bem comum.
187 Polettie (1999) enumera da seguinte forma os princípios subjacentes à democracia social:
a) o reconhecimento da pluralidade de meios ou de vias aptas à realização do bem comum e da justiça social, sem se ficar condicionado por ideias preconcebidas; b) o critério da eficácia na escolha da via mais adequada à consecução dos bens culturais em geral, em função da diversidade às vezes imprevisível das conjunturas e circunstâncias; c) a consideração de cada indivíduo, não apenas como cidadão, ou titular de direitos políticos, mas também em sua situação concreta, capaz de assegurar-lhe liberdade como poder de decidir e de participar, tanto dos serviços do Estado como da fruição dos benefícios sociais resultantes do progresso científico e tecnológico; d) democratização da propriedade, de modo a assegurar, a quem já a possui, condições de seu desenvolvimento, com medidas adequadas para o acesso à propriedade àqueles que dela se acham privados; e) balizamento da ação política e econômica pelo respeito ao valor da liberdade de opção e de iniciativa considerado como valor preferencial, por ser da essência mesma do homem (POLITTIE, 1999, p.131).
Assim, verifica-se que a ideia de democracia social tem como um de seus fundamentos a defesa de todas as formas de liberdades individuais, e manifesta-se por meio de um pragmatismo cujo principal critério é a eficácia em meio à diversidade de conjunturas e circunstancias.
Outro aspecto importante é a concepção de cidadania como a possibilidade individual que cada pessoa teria de decidir e participar dos serviços e benefícios do Estado. Assim o Estado é definido como prestador de serviços sociais e provedor de benefícios.
É interessante observar que um dos aspectos fundamentais da democracia social refere-se ao direito à propriedade, tal como no liberalismo clássico, que aqui é acrescido da ideia de democratização da propriedade, defendendo o acesso à propriedade àqueles que não a possuem. Assim, a democratização é diretamente relacionada com a condição de proprietário que passa, assim, a constituir o motor da ideia de equidade: todos devem ter garantido o direito de acesso à propriedade, daí a necessidade de ações governamentais que possibilitem, pela via do desenvolvimento econômico, esse direito. Finalmente, na democracia social, ação política e ação econômica são colocadas no mesmo plano e, ambas, devem ser orientadas por aqueles que são os valores mais elevados do liberalismo: a liberdade de iniciativa e de opção, que são apresentadas de forma naturalizada, uma vez que são concebidas como próprias à essência humana.
A concepção de democracia social, que tem balizado as políticas sociais nas últimas décadas, exige uma análise mais detalhada, no que se refere à concepção de ação política e ação social.
188 Hannah Arendt (1995) e Habermas (1987) estudaram o processo que levou à substituição da concepção de política, aos moldes da filosófica política clássica, pela concepção moderna de sociedade. Arendt (1995) observou que a tradução medieval do termo
polis por societas do livro A Política de Aristóteles, já denunciava a transição da noção de
política para a de ação social. A transição teria decorrido, para Arendt (1995), por meio do gradual deslocamento da atividade econômica da oikia, isto é do domínio privado, para a esfera pública, tornando-se o centro das preocupações dos Estados Modernos. Teria ocorrido, assim, uma substituição na concepção de política clássica, representada pelas concepções de Aristóteles e Cícero, que viam no Estado a realização do bem comum em uma comunidade política.
Habermas (1987), acompanhando o raciocínio de Arendt, observa que entre os antigos gregos, a atividade política era concebida como filosofia prática, compreendida por meio de uma racionalidade substantiva, como a doutrina da vida boa e justa entre os homens. Na modernidade a filosofia política clássica teria sido substituída pela filosofia social, concebida como produção de técnicas sociais por meio de uma racionalidade técnica.
Segundo Habermas:
Na obra aristotélica a “política” é parte da filosofia prática. [...] Desde o final do século XVIII, as novas ciências sociais que se formam, de uma parte, e as disciplinas do direito público, de outro, desviam suas águas para além das margens da política clássica. Este processo de separação do corpus da filosofia prática finaliza-se com o estabelecimento da política segundo o modelo da moderna ciência experimental, que nada tem em comum com aquela antiga “política” além do nome (HABERMAS, 1987, p.49).
A filosofia política clássica, segundo Habermas (1987), tinha caráter eminentemente ético e a lei (nomoi) era concebida como a própria ação política entre os homens, cuja interação, na polis , visava a vida coletiva boa e justa. Habermas apresenta a concepção da doutrina política clássica a partir da concepção de política aristotélica.
A política era entendida como a doutrina da vida boa e justa; era a continuação da ética, pois Aristóteles não via nenhuma oposição entre a constituição vigente, nomoi e o Ethos da vida cidadã; tampouco cabia separar a eticidade da ação do costume e da lei. Somente a Politeia habilitava o cidadão para a vida boa: o homem é, em general, zoonpolitikon no sentido de que para a realização sua natureza, depende da cidade ( HABERMAS, 1987, p.50).
Assim, a doutrina clássica concebia o homem como animal político, porque a sua condição humana, que o elevava para além da sua natureza animal, só se manifestaria na
189 interação política entre os homens. Essa interação era obtida por meio da práxis, a ação humana que não tem um fim fora de si que não seja a própria práxis. Não há, portanto, na
práxis a pretensão de fabricação de uma ordem estatal, mas, pedagogicamente, a práxis
constituiria o movimento do homem sobre si mesmo, por meio da interação com os outros homens, no espaço público, em direção a excelência humana (RISCAL, 2013). Como observou Arendt (1995), a práxis é prerrogativa exclusiva do homem, porque nem o animal nem os deuses são capazes de práxis, porque comportaria em si prudência e deliberação, que só podem resultar da experiência da vida pública. Por esse motivo, como anota Habermas, a práxis está voltada para a formação do caráter.
A antiga doutrina da política se referia exclusivamente à práxis em sentido estrito, no sentido grego. Não tem nada a ver com a techné, que consiste na fabricação habilidosa de obras e no domínio firme das tarefas objetivadas. Em última instância, a política sempre se orienta à formação do carácter e procede pedagógica e não tecnicamente (HABERMAS, 1987, p.50).
Habermas observa que, para Aristóteles, a política, na condição de filosofia prática, não poderia ser comparada com o conhecimento cientifico, porque seu objeto “o justo e o excelente” carece, no contexto da práxis mutável e fortuita, tanto de permanência ontológica como de necessidade lógica. A práxis identifica-se, assim, com a prudência, a phoronesis, a virtude prática de encontrar o justo nas condições sempre em mudança da vida humana. Segundo Habermas (1987, p.51) “a capacidade da filosofia prática é phoronesis, uma sabia compreensão da situação,phoronesis sobre a que se apoia a tradição política clássica desde a prudência de Cicero até a prudência de Burke”.
Já Hobbes, observa Habermas, recria a política como conhecimento decorrente das leis e pactos, partindo do princípio que só conhecemos um objeto na medida em que o podemos produzir. Habermas (1987) aponta que a diferença entre as concepções políticas clássicas e modernas estaria, em primeiro lugar, na pretensão de uma filosofia social cientificamente fundamentada que pretenderia especificar, de uma vez por todas, as condições de uma ordem estatal e social corretas. A filosofia social pretenderia que suas afirmações valeriam independente do lugar, tempo e circunstancias, permitindo, à margem da situação histórica, uma fundamentação duradoura do Estado.
Nesta transposição, da filosofia política para a filosofia social, segundo Habermas, o conhecimento assume a forma de uma técnica. Nesta perspectiva técnica, o estabelecimento das condições gerais para o estabelecimento de uma ordem estatal e social correta já não requer mais a ação prática e sabia dos homens entre si, senão
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a elaboração corretamente calculada de regras, relações e disposições (HABERMAS, 1987, p.51).
A conduta ética e justa dos homens deixa de constituir a matéria da ação política que se converte em engenharia social e “Os engenheiros da ordem correta podem prescindir das categorias do trato moral e limitarem-se à construção das circunstancias sob as quais os homens, enquanto objetos naturais, estão forçados a uma conduta calculável” (HABERMAS, 1987, p.51).
Assim, para Habermas (1987), a separação da política, como ação moral, voltada para a vida boa e justa é substituída pela possibilidade de uma vida desenvolvida em uma ordem corretamente elaborada e passível de planejamento social. Habermas(1987) vê, neste processo, a substituição da racionalidade substantiva, voltada para o estabelecimento de condutas justas orientadas pelos fins éticos da vida coletiva, pela racionalidade técnica e formal, onde a eficiência e a eficácia dirigida para os fins a serem alcançados substituem a eticidade da ação.
Habermas busca em Weber a definição de racionalidade técnica e do papel do processo de racionalização das atividades humanas, característicos da dominação burocrática e sua propagação nas estruturas sociais capitalistas:
Max Weber introduziu o conceito de «racionalidade» para definir a forma da atividade econômica capitalista, do trafego social regido pelo direito privado burguês e da dominação burocrática. Racionalização significa, em primeiro lugar, a ampliação das esferas sociais, que ficam submetidas aos critérios da decisão racional. A isto 'corresponde a industrialização do trabalho social com a consequência de que os critérios da ação instrumental penetram também noutros âmbitos da vida (urbanização das formas de existência, tecnicização do trafego e da comunicação). Em ambos os casos, trata-se da implantação do tipo de ação racional relativamente a fins: aqui, trata-se da organização dos meios e, além, da escolha entre alternativas. Por fim, a planificação pode conceber-se como uma ação racional dirigida a fins de segundo grau: visa a instauração, melhoria ou ampliação dos próprios sistemas de ação racional e dirigida a fins (HABERMAS, 1968, p.45).
Habermas, seguindo o pensamento de Weber, descreve a transição da racionalidade substantiva, que caracterizava as antigas concepções morais do mundo pelo processo de racionalização, que por meio da técnica e da ciência institucionalizam forma cada vez mais secularizadas e racionalizadas de ação.
A «racionalização» progressiva da sociedade depende da institucionalização do progresso cientifico e técnico. Na medida em que a técnica e a ciência invadem as esferas institucionais da sociedade e transformam assim as próprias instituições,
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desmoronam-se as antigas legitimações. A secularização e o «desencantamento» das cosmovisões orientadoras da ação, da tradição cultural no seu conjunto, e o reverso de uma «racionalidade» crescente da ação social (HABERMAS, 1968, p.52).
Nesta perspectiva, a concepção de democracia social seria antes uma técnica de organização social do que uma práxis política, no sentido compreendido pela filosofia política clássica. Concebida como a base da ação governamental mais recente, a democracia social, voltada para o benefício de indivíduos e para o disciplinamento social, estaria no campo oposto à ação política republicana.
Nas últimas décadas a democracia social tem se apresentado por meio de concepções como governança e accountability, estratégias tipicamente liberais de disciplinamento e controle social.