TÍTULO III Do Município
4.3 O liberalismo e o Estado moderno
A introdução de concepções liberais no século XVIII deu início ao debate sobre a distinção entre a esfera social e a esfera política. A partir das proposições do liberalismo econômico, defendidas principalmente por Adam Smith, os defensores do livre comércio passaram a transpor os princípios da economia de mercado para a esfera política. A mercantilização da esfera pública é uma das consequências do liberalismo que pressupõe uma forma de organização baseada na liberdade dos sujeitos sociais agirem segundo seus próprios interesses. Em contraposição, a adoção da forma republicana democrática implica na soberania popular com vistas ao bem comum, poder supremo que dá a forma e a unidade ao Estado. A distinção entre liberalismo e república democrática é essencial quando se trata da compreensão das relações de poder estatais.
A definição de Estado de Jean Bodin parte do princípio que há alguma coisa em comum e pública: como o domínio público, o erário público, as ruas, as leis, os costumes, a justiça, porque não existe República se não há nada público (LEBRUN, 1981).
Como já havia observado Cicero (2011), o espaço público é habitado por indivíduos ou grupos que, em sua dispersão, não constituem uma comunidade política, pois não há nada em comum que faça deles um corpo único. Um conjunto de indivíduos enquanto tais constituem apenas um conjunto de homens se não estiverem unidos por uma finalidade em comum e leis por todos partilhadas. Como observa Lebrun (1981), uma comunidade de homens, por si mesmo não é um corpo político. Falta a ele a potência coletiva, o poder soberano, baseado em leis que coordenam e unificam a vida em comum. Esta República, ou seja, o Estado, é a pessoa pública por excelência, como observou Hobbes, em seu livro O Leviatã, o corpo político por meio do qual todas as vontades são dispostas como uma única vontade. E o depositário dessas vontades, tornadas uma, é soberano, a pessoa pública, impessoal, porque constitui uma abstração das vontades individuais em uma única vontade. Por esse motivo, o Estado moderno é definido como um ordenamento jurídico, porque é a autoridade soberana, que institui as leis, a responsável pela constituição do Estado.
182 O liberalismo, por sua vez, não reconhece a esfera pública como domínio do Estado e estabelece a esfera social como a principal arena da ação política, despolitizando, assim, o Estado e criando a concepção de sociedade civil, definida por meio da associação de indivíduos com direitos privados.
Locke foi quem melhor representou a concepção do liberalismo político, separando o Estado da sociedade, apresentando o Estado como protetor de uma sociedade civil apolítica, formada por indivíduos em concorrência entre si.
Locke, em seu famoso livro Segundo Tratado Sobre o Governo Civil, de 1690, apresentou as bases do que viria a ser denominado liberalismo político. Locke defendia que o papel do Estado seria reduzido à defesa dos direitos individuais à vida, liberdade e propriedade, condições presentes no Estado de Natureza e, portanto, anterior à constituição do Estado Civil. O Estado Civil seria, para Locke, o resultado do contrato social instituído entre os indivíduos para assegurar seus direitos naturais individuais. A associação entre indivíduos por meio do contrato social é definida por Locke como a sociedade civil e a instituição criada para estabelecer as leis que garantem os direitos estabelecidos pelo contrato social é o Estado Civil, que tem no governo civil a instancia responsável pela execução dessas leis.
Como observa Lebrun (1981), acreditar que o poder político seja apenas o protetor dos interesses dos indivíduos é subestimar seu poder, porque não somente garante o controle sobre a sociedade civil, como ainda tem a capacidade de modelá-la e organizá-la.
A concepção liberal, em sua necessidade de estabelecer que a função do Estado é defender a propriedade individual e o livre mercado pretendeu separar a política da sociedade eliminando cada vez mais o caráter político do indivíduo enquanto cidadão participante do poder.
O liberal, segundo Lebrun( 1981),
não pensa que os particulares, enquanto tais, tenham forçosamente interesses distintos do interesse público – e rejeita a tese hobbesiana segundo a qual, na falta do Soberano, não existiria um povo propriamente dito, mas apenas uma multidão atomizada (LEBRUN, 1981, p.29).
Assim, a preocupação liberal volta-se para a sociabilidade, fora da esfera política e afirma que a liberdade individual consiste em defender-se dos abusos do Estado. Nega, portanto, o fundamento básico da res pública, que não é a multidão de indivíduos em livre concorrência, mas o corpo de cidadãos em busca do bem comum.
183 Lebrun recorre, para melhor estabelecer a compreensão do liberalismo a Adam Smith, fundador da economia política:
O sistema simples da liberdade natural apresenta-se por si próprio e encontra-se plenamente estabelecido. Todo homem, enquanto não infringe as leis da justiça, conserva-se inteiramente livre para seguir o caminho que lhe aponta o seu interesse, e para levar onde quiser a sua indústria e o seu capital, conjuntamente com os de qualquer outro homem, ou de qualquer outra classe de homens” (LEBRUN , 1981, p.29).
Assim, para Lebrun (1981), com Adam Smith o liberalismo assume a forma mais explícita de sua condição tipicamente burguesa, porque, segundo ele, o cidadão só pode ser o proprietário, uma vez que só a propriedade torna os homens capazes do exercício dos direitos políticos.
O problema, observa Lebrun (1981), é que mesmo a economia de mercado precisa de um poder capaz de manter as condições do seu funcionamento natural, uma vez que os interesses privados, em livre concorrência, podem levar à autodestruição.
O liberal, segundo Lebrun, encontra-se “assim às voltas com um problema insolúvel: determinar até que ponto pode serrar o galho no qual está sentado, sem correr o risco de quebrá-lo” (LEBRUN, 1981, p.32).
A cisão imposta pelo liberalismo entre Estado e sociedade civil levou à constituição de uma forma de ação estatal que, carente de sua fundamentação ética de realização do bem comum, passou gradualmente a constituir um poder estatal controlador da ordem social. Lebrun sustenta que o Estado moderno é menos abertamente dominador, e mais manipulador e preocupa-se menos em reprimir a desobediência do que em preveni-la. Assim, a maior característica do poder estatal nos dias de hoje, seria, para Lebrun (1981), uma rede de regras uniformes por meio das quais as vontades mais vigorosas não conseguiriam aparecer para sobressair na massa. O Estado, segundo Lebrun
não dobra as vontades, amolece-as, inclina-as e as dirige; raramente força a agir, mas opõe-se frequentemente à ação; não destrói, impede o nascimento; não tiraniza, atrapalha, comprime, enerva, arrefece, embota, reduz, enfim, cada nação a nada mais ser que uma manada de animais tímidos e industriosos, cujo pastor é o governo (LEBRUN, 1981, p.39).
Lebrun descreve o resultado da crescente burocratização imposta pelo Estado impessoal que leva a um crescente “despotismo administrativo”. A questão da dominação burocrática e seu caráter de clausura é também apresentado por Max Weber em seu livro
184
Ética Protestante e o espírito do capitalismo, quando recorre à imagem da gaiola de aço, reportando à rigidez racionalizada e burocratizada do sistema capitalista (WEBER,
1985).
Weber (1985) identifica a propagação das formas de administração burocráticas a partir do crescente processo de racionalização técnica que impõe o cálculo e a eficiência como as formas predominantes de ação na esfera administrativa e que gradualmente tendem a dominar toda a esfera social. Weber (1985) distingue a dominação burocrática, baseada em processos de racionalização técnica e formal, em oposição a uma racionalidade substantiva, baseada em valores e imperativos éticos.
Aqui encontramos a oposição fundamental, descrita por Lebrun (1981), entre uma República constituída como uma totalidade, onde são os fins éticos que determinam a própria condição de vida comum, com base na racionalidade substantiva, de um lado e a esfera governamental e administrativa, que se apropriando do Estado, isto é da esfera pública, se apresenta como agente disciplinador da esfera social, caracterizada pela racionalidade técnica, por outro lado. Assim, o cidadão, da forma política republicana, se opõe ao homem de sociedade, na mesma medida em que a República se opõe à sociedade civil que seria, em última instância, um agregado de indivíduos controlado por técnicas disciplinares, sem um fundamento em comum.
A oposição entre Estado e sociedade, introduzida pelo liberalismo, transformou a racionalidade substantiva, atributo essencial da política republicana, em pragmatismo instrumental.
O Estado moderno é instituição burocrática e a burocracia estatal é não somente poder administrativo, mas também político. Tragtenberg (1992), em seu estudo sobre a burocracia, observa que Hegel foi um dos primeiros estudiosos que compreendeu a natureza ambígua do Estado moderno ao considerar o Estado como organização que realiza a união entre universal e individual.
Para Tragtenberg (1992), Hegel, percebendo a contradição histórica que opunha o poder estatal, como realidade moral e a sociedade civil onde se encontram os interesses particulares, vê na forma final do Estado moderno a síntese que realiza a integração dos interesses particulares e individuais no seio de sua unidade. Segundo o autor, a tensão entre o interesse particular e o universal realiza-se por meio da burocracia do Estado. Oriunda da sociedade civil, a burocracia realiza, no Estado, a vontade geral, sendo, portanto, o elemento de mediação com a sociedade global, exercendo o poder político (TRAGTENBERG, 1992)
185 Para Tragtenberg (1992), a burocracia constitui, assim, o poder disciplinador que, por meio da conformação social, realiza a integração entre os interesses particulares e os interesses estatais. Como decorrência, a atual concepção gerencial da administração pública, coerentemente com a sua origem na esfera dos interesses individuais, assume o caráter disciplinador que por meio da racionalização técnica impõe o cálculo e a eficiência como as formas predominantes da interação social, afastando-se da interação republicana baseada em fundamentos éticos e na busca do bem comum.
Pode-se, neste sentido, compreender que o que importa na concepção gerencial é a maximização dos resultados, concebidos como interesses individualizados. O corpo político é descaracterizado no corpo social, que é atomizado em um conjunto de clientes. A noção de bem comum é substituída pela satisfação dos interesses individuais e a democracia torna-se a satisfação da maior quantidade de indivíduos/clientes possíveis.