CAPÍTULO II – POSSIBILIDADE DE LIBERDADE
2.3 Democracia, liberdade e o direito ao levante
Pelo percurso até aqui, aufere-se que não basta apenas resistir eternamente, surgindo o direito ao levante extraído das lucubrações de Negri (2016), que entende nascer o processo institucional dentro da luta, mas além, e propõe-se nesta tese a educação como política, libertária e, por consequência, revolucionária. “Por exemplo, é do desenvolvimento da indignação que a sedição é proposta: mas é a partir do desenvolvimento da sedição que se abre a expansão revolucionária da liberdade” (NEGRI, 2016, p. 144). Só assim nasce como base em oposição ao imperium de Negri
ou à hegemonia de Gramsci “[...] a potência de desenvolver uma verdadeira democracia revolucionária, multitudinária das lutas” (NEGRI, 2016, p. 144).
Se o ser político de Freire (2018, p. 146) está arraigado no despertamento da consciência para quebrar a hegemonia ao “fazer” – agir transformador – “[...] a consistência do conceito de multidão encontra-se assim na tensão de um desejo comum. E é nesse desejo comum que a instituição se funda”.
Sem a consciência esse jogo de palavras, acima, se torna impossível, pois qual vontade irá prevalecer senão a democracia de grupelhos cínicos? O levante emana do coletivo quando “[...] o conhecimento é confiado à resistência, e a felicidade, à paixão racional da multidão” (FREIRE, 2018, p. 151). Multidão, no contexto da realidade brasileira escapa da classe média “hype” carnavalesca que manterá a esquerda do status quo, se assemelha como sinônimo dos oprimidos periféricos, viajando entre zonas para chegar ao centro do poder espacial que ainda se coloca longe do poder capitalizado pelas ações.
Mesmo com a manipulação do controle do poder, como citado acima, “[...] o direito civil e a República são a potência da multitudo – e o direito é democrático porque os próprios homens o constituíram” (FREIRE, 2018, p. 194). Não se transfere a outrem o poder e nem o direito. Ou seja, não pode o homem renunciar sua condição, nem existir um soberano que exerça apenas a sua vontade. Neste sentido caminha a educação para libertação.
O contrário desta máxima tão importante ocorre na falta de conscientização e na exploração vil e maquinada com estratégia e requintes de crueldade exercida pela elite dominante da realidade brasileira. A apologia da liberdade, eivada de tolerância e realização só pode ser feito se a massa ascender ao poder ou na ideia de Paulo Freire, através da conscientização do oprimido, que se conscientizando, também liberta o opressor.
Esta construção se exerce apenas junto ao oprimido em processo constante de esclarecimento, estudo e ação “[...] porque é da práxis que a democracia precisa”, avisa Negri (2016, p. 199). A noção rompe os séculos desde a origem do fascismo italiano, sendo “[...] preciso elaborar uma doutrina em que todas estas relações sejam activas e em movimento, fixando claramente que a sede desta actividade é a consciência do homem particular”, intui Gramsci (1974, p. 74), ainda determinando a necessidade desta mente progressista poder conhecer, querer, admirar e criar livremente “[...] enquanto já conhece, quer, admira, cria, etc., e em que se concebe o
homem não isolado, mas rico de possibilidades e que lhe são oferecidas pelos outros homens e pela sociedade das coisas”, sendo nada além do homem da liberdade atrelada à possibilidade.
A democracia que gera a independência total ou a omnino absolutum para Negri (2016, p. 225-226) tem alguns sentidos, aqui adaptados para a prática da educação:
a) não é forma de governo, porém atividade social para a transformação, alcançando o eterno;
b) no sentido quantitativo, demonstra a totalidade dos cidadãos em assembleia; c) no processo qualitativo, inspirado no primeiro item, torna-se a própria práxis,
ou seja, processo de socialização – para Freire conscientização –, geradora da metamorfose de seres e comunidade, não como forma de governo, mas de legitimação e ao adentrar no poder soberano só pode ser entendida como democracia da multidão, “[...] absoluto autogoverno do conjunto das individualidades, que são conduzidas, no proceder de seu desejo, à constituição do comum” (NEGRI, 2016, p. 228).
Quando a democracia não apresenta os sentidos descritos nos itens relacionados, diversos momentos na história demonstram a liberdade do mais forte preponderando como a verdade. A cor do império global futurístico pode ser verde, na visão de Harari (2015, p. 215), porque nenhum estado nação tem condições de vencer sozinho o aquecimento global. Zizek (2003, p. 171) entende que os antigos romanos chamavam Homo sacer os excluídos da comunidade humana, apesar de homo sapiens, “[...] razão pela qual eles podem ser mortos impunemente, e, por essa mesma razão, não se pode sacrificá-los (porque não são uma oferenda sacrificial digna)”, situação similar aos periféricos mortos na violência indicados fartamente nos índices de dados oficiais do Estado.
Somente ao admitir a ignorância (HARARI, 2015) o homem se descola por um momento da soberania teísta e deságua à ciência tornando o planeta um palco único em termos de historicidade, a partir de 500 anos atrás. As luzes fazem o homem o centro do universo e a exacerbação do eu ganhar nuances de liberdade.
Sem a ciência não seria possível avançar à Revolução Industrial, progredindo simultaneamente para a revolução da informação e à internet das coisas, quando pequeninos robôs podem vasculhar suas veias com um mecanismo para romper a gordura impregnada pelo acumulo do colesterol advindo dos produtos
industrializados, da falta de atividade física, do pouco contato com a natureza e no “frenesi” imposto pela cidade grande aos encarcerados em algum pedaço de terra figurada, seja na favela ou mesmo nos minúsculos kitnets dos centros das grandes capitais – moradias de até 25 metros quadrados cada vez mais valorizadas em megalópoles como NY, Tóquio, São Paulo, Roma, etc.
A dinâmica das cidades dormitórios e na consciência perdida nas cidades se encontra também nos escritores, a exemplo de Haruki Murakami e a trilogia 1Q84 (2013), uma fantasia mental num mundo não só regido pela matéria como também por uma realidade paralela e alternativa.
Observando o sistema social implantado no mundo historicamente pelas elites que se mantiveram material e simbolicamente no poder, seja por questões mitológicas, políticas e ou financeiras, entre outras, nasce a sociedade do caos, num sistema supostamente organizado, mas que mantém suas bases em torno de poucos e à custa da exclusão.
Harari (2015, p. 251) enxerga nesta decorrência dois sistemas caóticos de primeiro e segundo grau. Enquanto o primeiro pode ser previsível, ligado à natureza – previsão do tempo –, o segundo, beirando ao imprevisível, se liga às esferas da política bem como a micro e macroeconomia, que sofrem alterações a cada tentativa de controle para beneficiar alguém.
O sistema dito caótico pode até gerar uma errônea sensação de liberdade para aqueles que confiam na meritocracia e por outro lado propiciar o descontentamento, a desesperança e a aceitação daqueles que se enxergam sem saída, sendo a parte dominada pelo sistema. Pior, sem dúvida, aquele que adere ao sistema para ser explorado e garantir a própria sobrevivência do ciclo vicioso de dominação. A educação, por exemplo, segue esta mesma lógica exploratória, reproduzindo o status quo. Os consumidores não vislumbram o outro lado, tudo passa pelo “[...] interior bonito e exuberante de seus carros”, quando vão ao Terceiro Mundo, se dignam aos safaris e à natureza, mas esquecem das “[...] condições desumanas de trabalho” (BAUMAN, 2014, p. 133).
A exploração do homem pelo trabalho, religião ou sistemas de governo irrompe através da cultura espalhada mitologicamente de geração em geração. A cultura atua como uma hospedeira dentro dos seres que passa suas características para o outro formando uma grande rede de costumes, tão eficiente quando a internet e as redes sociais da atualidade.
Porém, o estágio de neoliberalismo dominante no qual o Planeta se encontra é fruto de um processo lento, que passa pelas fases de cognição, de agricultura, científica, industriais e tecnológicas retratadas acima. Esta crença no individualismo pode ser vista como a teoria da necrofilia proposta por Freire (2018) em seu trabalho seminal, indicando que o homem precisa vencer o homem, precisa dividir e conquistar, acumular ao invés de experimentar a liberdade de uma vida comunal, destinada ao fim das desigualdades.
Um exemplo está na corrida armamentista. Se um país investe em seu poderio bélico, o vizinho concorrente tende a fazer o mesmo espalhando a ideia errada em todo o Globo. O sistema armamentista não tem consciência, apenas busca sobreviver e reproduzir simultaneamente. Esta espiral de desenvolvimento não se preocupa com a qualidade de vida do ser humano e nem com a diminuição da desigualdade, mas por razões misteriosas – e por que não egoísticas? –, acaba prevalecendo entre a maioria. A história progrediu sem considerar a felicidade dos indivíduos. Acredita-se que apenas a organização coletiva dos oprimidos seria capaz de romper com a bifurcação histórica que pende sempre pelo mais forte e pelos sistemas desiguais que se apresentam até agora.
Já a evolução cultural se basearia “[...] na replicação de unidades de informação culturais chamadas ‘memes’" (HARARI, 2015, p. 253). Neste processo, as culturas de maior sucesso tendem a se sobressair, independentemente da falta de justiça social que possa existir do decorrer da dinâmica existencial. A cultura do opressor e da dominação se espalha como organismo vivo pela força, mantendo a opressão aos mais fracos que sem perceber são cooptados culturalmente e passam a defender o modo de vida do outro.
Na sociedade da desinformação, na qual a quantidade de material informativo amplamente acessível – na maioria das vezes raso em sua qualidade – não pode ser checada no todo, gera distorções na própria realidade e corrobora para a manutenção do status quo. Apenas o processo de conscientização popular ergue-se como instrumento para desvendar o que se esconde por traz da produção de conteúdo, bem como seus interesses. A própria estrutura de formação escolar no Brasil e a falta de oportunidades neste sentido, contribuem para a constante retroalimentação da desinformação17. A linguagem simples dos memes internéticos o torna uma
17 Dados estatísticos indicam que as classes mais oprimidas financeiramente possuem reduzidas chances de figurarem entre as melhores notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ou
ferramenta de slogan fácil/fatal para incutir ideias e conceitos nas classes oprimidas, incapazes de pensarem por si próprias.
Freire (1979) indica que a ação cultural para a liberdade se impõe contra a elite dominadora do poder, mas a revolução cultural desenvolve-se em harmonia com o regime revolucionário, sem que isto signifique uma subordinação. “Toda revolução cultural apresenta a liberdade como finalidade. Ao contrário, a ação cultural, se for conduzida por um regime opressor, pode ser uma estratégia de dominação: nesse caso jamais chegará a ser revolução cultural” (FREIRE, 1979, p. 48).
Toda revolução cultural proposta pela educação parte do subjetivo para o coletivo. Entretanto, o mundo em seu atual sistema, inclusive educativo, desenvolve- se para o individualismo, o Deus do liberalismo que promete riquezas. Capital- individualismo é o único sistema em que a massa acredita, ou é moldada para acreditar, esperando um golpe de sorte a fim de ascender à esfera mais exitosa desse sistema de classes pós-moderna, que por causa da multi-informação esbarra em questões culturais. Não se pode expressar uma crença individual.
É obrigatório cultuar o Deus Mercado, atrelado ao Deus único do criacionismo, além das promessas que nunca chegam, nem ao menos é “legal” abraçar uma fé alternativa, seja o psicodelismo, xamanismo ou astrologia. Tudo isso deveria ser extrato inferior e direito garantido à espécie, perdendo relevância aos valores humanísticos que ainda se mantêm vivos a duras penas.
Não resta nenhuma alternativa e nenhuma liberdade possível ao se aderir ao status quo. Negri (2016, p. 267) faz a pergunta fundadora: “Sempre foi o que é uma democracia não achatada pelos modelos da ‘representação’ e não esmagada pela gestão burguesa da sociedade. [...] democracia da multiplicidade, dos contra poderes, da igualdade atravessada pela liberdade”.
Este cenário, que se demonstra caótico, é analisado na obra de Freire, datada de 1959, que sintetiza os problemas modernos a partir da percepção do Brasil – com o processo de globalização cultural, nomeado de colonialismo. Com o constante avanço da ciência, as diferenças culturais entre os países tendem a ficar imperceptíveis e a valoração das “liberdades” a serem adquiridas sofrem discussões para ao final se alinharem a um punhado de temáticas que voltam sua carga ao
seja, apenas 0,16%. https://www.estadao.com.br/noticias/geral,aluno-pobre-tem-so-0-16-de-
sistema de trabalho-sobrevivência humana, entranhado primeiro na questão ecológica e depois na produção humana e da gestão do tempo livre.
Abre-se, de acordo com Negri (2016, p. 32), a dialética positiva dirigida ao mundo, rumo à superfície e à possibilidade, “[...] de tal forma que o determinismo, e a física, fundada sobre a pulsão de produção do mundo, passa a ser concebida como base e fonte do alargamento do horizonte material e humano”. A liberdade do indivíduo passa a ser definida como uma “potência constitutiva”.
Não se produz para gozar o tempo, somente para sobreviver através do tempo em uma luta que se trava sozinho, pois em comunhão se poderia romper o próprio sistema. As armas não são disponibilizadas a todos de forma igualitária. Como animais, a influência genética das transformações de milhares de anos moldou a disputa de hierarquias que, de acordo ao seu grau de classe, melhora suas condições de administração do tempo.
O processo impacta em toda a distribuição sociológica das comunidades. É salutar romper com ilusões geradoras de despotismo e, em alusão aos estados de consciência propostos por Paulo Freire (1959), indicar que não se deve pecar pela simplificação da percepção dos problemas e acreditar que o tempo passado foi melhor do que o presente, o que se percebe durante a história da democracia recente brasileira, na qual, a salvação da nação estará nas mãos de apenas um suposto comandante, passando pelos presidentes eleitos Collor, FHC, Lula, Dilma e Bolsonaro.
Negri (2016, p. 129) revela “[...] a hipocrisia da democracia capitalista, que combina a produção de desigualdade com a proclamação dos direitos iguais, que submete a liberdade de todos à violência do modo capitalista de produção e à chantagem de um comando de poucos”. O cenário indica uma ameaça mesmo de destruição, “[...] desvelado e denunciado, assim como qualquer outra forma de organização do poder que torne escravo, preso entre rigidezes burocráticas e jaulas ideológicas, ou dentro da hipóstase de uma totalidade, o incomprimível de desejo de liberdade” (NEGRI, 2016, p. 129). Sobra, a partir desta análise, a potência da democracia fundadora com possibilidade de liberdade igualitária, verdade, otimismo e razão. Enxerga-se a partir daí as particularidades da realidade brasileira influenciam na construção da liberdade.