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CAPÍTULO II – POSSIBILIDADE DE LIBERDADE

2.8 Desigualdade estruturada e a liberdade retida

Outro problema que corrói a liberdade do povo é evidente quando a crítica restrita a uma só classe perde a força – passa a ser cultuado o direito de propriedade e o direito simbólico de existir vinculado àqueles que têm dinheiro ou bens – e os oprimidos, considerados irracionais (SOUZA, 2017, p. 71), bem como quando o capital impõe através da grande mídia um processo de assimilação para a privatização total do Estado. Mas a lógica capitalista, e que visa o lucro, procurará sempre nichos de mercados mais lucrativos, concentrando seus recursos neste setor, abandonando os mais pobres que não podem pagar por serviços essenciais, consequência da própria deterioração do corpo estatal.

A ditadura que durou cerca de 20 anos colaborou com a estruturação da desigualdade brasileira. O acordo antipopular entre elite e classe média – bem como o acordo entre elite financeira e classe média no impeachment de 2016 – criou para

22 https://blogdoarcanjo.blogosfera.uol.com.br/2019/02/11/festa-acusada-de-racismo-na-bahia-vira- polemica-internacional-repugnante/.

23 https://jornalistaslivres.org/donata-meirelles-foi-obrigada-a-pedir-demissao-para-vogue-brasil-nao- demiti-la/.

Souza (2017, p. 82) um apartheid de classe. Há uma linha de consumo digno para os ricos enquanto aos pobres entrega-se tudo da pior qualidade. "Passam a subsistir dois países no mesmo espaço, que o economista Edmar Bacha chamou de ‘Belíndia’, uma pequena Bélgica para os 20% de privilegiados e uma grande Índia empobrecida e carente para os 80% restantes".

Com estas características, a classe média avança em complexidade e foi se transformando durante a ditadura militar, ocupando espaços técnicos durante a modernização do Estado, com o apoio das universidades em expansão durante o período.

Nas décadas de 60 e 70, os militares esboçaram um plano de desenvolvimento econômico capitaneado pelo Estado com investimentos estratégicos em mineração, centros de pesquisas e tecnologia, não agradando aos donos do dinheiro, que enfim se demonstraram contra a automação estatal. É fácil confirmar com dados do período posterior à última grande guerra mundial que os países europeus sofreram um processo de homogeneização social, o que mitigou a desigualdade – aqui não se discute o colonialismo exercido por estas potências de sempre que ainda brigam pela hegemonia em bloco contra o leste europeu, Ásia e Estados Unidos.

Não fosse esta estruturação social, o baque de países em crise – Itália, Grécia, Espanha entre outros menos relevantes – seria mais largo e profundo. A homogeneização europeia, em termos de índice de desenvolvimento humano, não foi decorrência de um processo de conscientização coletiva, mas "[...] uma universalização dos pressupostos psicossociais daquilo que chamamos de ‘dignidade do produtor útil’, que pressupõe internalização de disciplina, autocontrole e pensamento prospectivo" (SOUZA, 2017, p. 86).

Portanto, conclui o autor que não há "subgente" na Europa devido ao alcance de determinado nível escolar e da empregabilidade. Por isso, a liberdade de um povo não prospera minimamente sem questionamento, pela distribuição de renda e igualdade de oportunidades em termos de saúde, educação, saneamento básico e acesso ao mercado de trabalho. Não basta garantir o acesso, mas a qualidade, em um processo longo e estruturado de conscientização partindo da periferia – base social oprimida.

Por outro lado, o exemplo europeu do arranjo da socialdemocracia como pacto pós-guerra, de 45 a 75, – surgiria como alento – acabou impedido no Brasil. A proteção do chamado capitalismo com proteção social se corrói com o neoliberalismo que volta

a se articular com ainda mais força para garantir o aumento dos lucros dos super- ricos. Com o toyotismo japonês, a flexibilidade do capitalismo induz o trabalhador a se enxergar como responsável pela alma e lucros da empresa, lutando até por esse ideal. Nas fábricas do Japão, o modelo flexível separava os homens na linha de produção sem a necessidade de hierarquia para manter a ordem. O estratagema reponde como responsável da batalha dos próprios empregados por lucros, não igualmente divididos, e a consequente aceitação do capital.

Foi a ascensão do capitalismo financeiro que, investido de mais poder, se transformou num potencial aniquilador de mercados, facilitando a sonegação de imposto de uma pequena elite não sem deixar ainda de criar uma semântica libertária usada contra o capitalismo, desta vez em favor do próprio no sentido de romper com movimentos de classe nas fábricas, indústrias, etc.

No caso brasileiro a taxa de juros, a maior do mundo, serve para remunerar "[...] precisamente o 1% mais rico que, no nosso caso, deixa de pagar imposto" (SOUZA, 2017, p. 93). O capitalismo financeiro une ainda outras frações do capital (agronegócio, comércio e indústria) que passam também a ter vantagens na bolsa com as ações do mercado de capitais. "Quem paga o pato são os pobres, responsáveis por 53% do orçamento brasileiro".

O caso da mineradora Vale, exploradora e responsável pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de minério da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, o que ocasionou a morte de mais de 200 pessoas, além da contaminação de um dos afluentes do Rio São Francisco, é um exemplo da sanha do mercado financeiro24.

O rompimento da barragem ocorreu na sexta-feira, dia 25/01, aniversário de São Paulo, como resultado, as bolsas de valores no Brasil fechadas. Na segunda- feira, as ações da empresa apresentavam queda de 20% e acionistas estrangeiros já ameaçavam um processo bilionário no exterior para exigir perdas e danos.

24 Em mais de 2018 os mortos chegavam a 240 https://g1.globo.com/mg/minas-

gerais/noticia/2019/05/13/mortos-identificados-no-desastre-da-vale-em-brumadinho-sobem-para- 240.ghtml. Anteriormente, a empresa, inclusive realizou estudos sobre possíveis indenizações em caso de rompimento de barragens, que supostamente seriam mais “baratas” do que promover a reestruturação do local (https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/02/em-documento-vale- projetou-mortes-custos-e-ate-causas-possiveis-de-colapso.shtml). A empresa é reincidente, pois em 2015, se envolveu no desastre ambiental criminoso em Mariana, também em Minas Gerais

(https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/27/opinion/1548547908_087976.html). O risco de

rompimento em outras barragens geridas pela empresa é iminente (https://g1.globo.com/mg/minas- gerais/noticia/2019/05/16/por-risco-de-rompimento-em-barao-de-cocais-defesa-civil-de-mg-fara- novo-simulado-na-cidade.ghtml).

No Brasil, um site especializado em investimentos lamentava as mais de 130 mortes, amainava a culpa com doações, porém falava em dever cumprido, orientando aos clientes rumo à próxima estratégia para finalizar a posição nas ações da Vale, objetivando a manutenção dos fortes lucros, afinal "estamos aqui para isso", ou seja, ser frio e calculista em busca do lucro a qualquer preço. Esse pensamento individualista pode ter sido, desde sempre, a barreira criada pelo próprio homem que nos impede da liberdade total ou ao menos uma vida mais justa com possibilidades igualitárias. A própria empresa, em 2015, realizou um estudo prevendo quanto gastaria com indenizações por morte de acidentes fatais, como o ocorrido25.

Souza (2017, p. 96) vai além, apontando que a classe média se julga moralmente superior em relação a outros extratos sociais e pergunta como isso é possível quando essas mesmas pessoas exploram trabalhadores pagando um salário de fome para se pouparem dos serviços domésticos, defendem a matança de pobres e não acham importante o direito às minorias, principalmente quando se trata da comunidade LGBT. "A classe média brasileira possui um ódio e um desprezo cevados secularmente pelo povo. Essa é talvez a nossa maior herança intocada da escravidão nunca verdadeiramente compreendida e criticada por nós" (SOUZA, 2017, p. 96).

A exploração continua inutilizando a liberdade do povo com a justificativa que aplacaria a dor da alma sob o pretexto de que os oprimidos são culpados pela própria sorte e os índices de mortos e presos representantes das classes mais humildes em termos de condições de vida, estão entre os maiores do mundo, levando à conclusão de que a escravidão continua.

Desamparados do mundo antes e depois da escravidão, a desestruturação das famílias brasileiras causa espanto nas elites, que mesmo assim riem com piadas racistas, criticam cotas sociais com a construção de uma percepção negativa dos "[...] escravos e de seus descendentes como feios, fedorentos, incapazes, perigosos e preguiçosos, isso tudo sob forma irônica" (SOUZA, 2017, p. 96).

Souza (2017, p. 98-99), ex-presidente do IPEA, através de pesquisas do próprio instituto, classificou a classe média em frações, pois neste extrato social existem diferentes interesses, todos são formados pelo capital social que mistura a

25 Vale produziu em 2015 o documento que leva o título de Estabelecimento do contexto e identificação dos eventos de risco em barramentos. No item 7.1 o tema tratado é a indenização por perdas de

vidas humanas. http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-02/estudo-da-vale-cita-

socialização, família e cultura, além do capital econômico de partida que permite aos burgueses, por exemplo, comprarem o tempo livre dos filhos para só estudarem:

a) fração protofascista, 30%; b) fração liberal, 35%;

c) fração expressivista (classe média de Oslo) e

d) fração crítica – as duas últimas constituindo os 35% restantes, com maior capital cultural.

O mesmo autor afirma que "cerca de 60% dessa classe média mais instruída, ou cerca de 20% do total de toda a classe média forma aquilo que podemos chamar de fração expressivista da classe média" (SOUZA, 2017, p. 99). Porém, o expressivismo que deveria ser ligado à solução da desigualdade, pode ser considerado hoje como força para defender a sustentabilidade, soluções de gestão de pessoas nas empresas, luta pelas minorias ou mesmo a emancipação pela preservação da natureza.

Claro que os temas são relevantes e fundamentais, mas escondem a raiz da verdadeira falta de liberdade que oprime o povo pobre. "O engano reside na reversão das hierarquias. Num país onde tantos levam uma vida miserável, e indigna deste nome, a superação da miséria de tantos é a luta primeira é mais importante" (SOUZA, 2017, p. 99). As outras lutas devem ser acopladas a este fio condutor.

A partir desta forma de viver culturalmente incutido na sociedade, a própria classe média se defende para manter o que considera moralmente razoável, a opressão. A discussão sobre o tamanho do Estado e seu patrimonialismo deixa de lado o debate sobre a escravidão e a luta das classes sociais que deveriam ser discutidas como verdadeiras mazelas da sociedade brasileira. E, mesmo a corrupção – condenável em todos os sentidos – não pode ser considerada como problema primordial, pois mesmo os políticos são apenas aviões neste esquema se comparado ao narcotráfico.

Quando maior o poder de captação do homem, mais ampliado é sua capacidade de “dialogação” com si mesmo e com o mundo, em busca de alternativas coletivas para o melhor viver da espécie. “Esta transitividade da consciência permeabiliza o homem. Faz dele um ser mais vibrátil. [...] Implica numa dialogação eterna do homem com o homem, do homem com sua circunstância” (FREIRE, 1959, p. 31). Daí a questão da importância da condição histórica e biológica humana e dos passos que a humanidade espera dar para a verdadeira liberdade futura. “E não há

diálogo autêntico sem um mínimo de consciência transitiva. [Apesar disso], [...] o homem, qualquer que seja o seu estágio, é sempre um ser aberto” (FREIRE, 1959, p. 31). Há na consciência transitiva, segundo Freire, uma limitação de apreensão e, portanto, um rompimento com a própria liberdade. Quanto maior o grau de consciência, maior seria a libertação do ser.

O homem, por outro lado, se faz apenas mágico, quando a falta de discernimento, em diversos campos, obscurece sua consciência e seu poder de dialogação. Considera até a consciência intransitiva como um perigo à democracia.

A consciência libertária, fruto utópico da imaginação coletiva, caminha das infinitas subjetividades do ser para criar um novo ser em ações singulares tendo o amor como cimento do humano. “O desejo é assim o cimento do amor e do ser”, expõe Negri (2016, p. 23).

O viver, movimento considerado como determinado e não passível de alteração, contrasta com a ética, que consiste na defesa do ser e sua resistência. Percebe-se esse amor e liberdade em Espinosa, como força emanativa, em um ser completo em sua revolução. O amor proposto e instransponível só pode ocorrer com a construção da consciência, ou a percepção ativa do mundo ao seu redor. “É o heroísmo da descoberta intelectual e da sua irreversibilidade teórica, fundado não sobre a vontade, mas sobre a razão” (NEGRI, 2016, p. 23), que se adequa à constante maleabilidade entendida no processo de formação de uma consciência criticizada. Por isso, “[...] nunca a tranquila dignidade da razão, o seu mundo e maioria infinita do pensamento, do agir e do desejo foram tão necessários quanto o são hoje para desmascarar e neutralizar os venenos destruidores do ser” (NEGRI, 2016, p. 24). A consciência crítica se associa a um ser revolucionado e “[...] repetimos calmamente que nada nos fará voltar atrás. Não o podemos. E a nossa alegria e a nossa liberdade, não sabemos distingui-las dessa necessidade”, acrescenta Negri (2016, p. 25).

A liberdade é una, só conquistada a duras penas do esforço social do trabalho individual. Como é somente individual esta força material, a classe que ascende ao poder passa a exercer maior controle a esse extrato humano. Na construção de Negri (2016, p. 23), “[...] é o heroísmo da descoberta intelectual e de sua irreversibilidade teórica, fundado não sobre a vontade, mas sobre a razão” que forma os preceitos morais, que “[...] são antes um estado, um teorema ético”.