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3 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO NA ESFERA ESTATAL: CONTRASTES DO

3.5 Democracia e liberdade de expressão

Ao considerarmos a democracia como um sistema político por meio do qual a or- dem social é criada e aplicada por aqueles que estão sujeitos a ela, assegurando a liberdade política, afirma Kelsen (1993, p. 144) que ela estará a serviço desse ideal de liberdade política. Se acrescentarmos que certas liberdades intelectuais devem ser garantidas, como a liberdade de expressão, a liberdade de consciência e a liberdade de imprensa, então a democracia também estará a serviço desse ideal de liberdade intelectual.

Se, em um caso concreto, a ordem social não for criada de um modo que cor- responda a essa definição ou não contenha as garantias de liberdade, não é porque a democracia não está a serviços dos ideais. Os ideais não são atendi- dos porque a democracia foi abandonada. (KELSEN, 1993, p. 144).

A democracia, ao se consolidar, estabelece, conforme Linz e Stepan (1999, p. 25-26), cinco campos em interação. Primeiro, o desenvolvimento de uma sociedade civil

livre e ativa, compreendida aqui como o campo da comunidade política na qual grupos, movi- mentos e indivíduos, auto-organizados e relativamente independentes do Estado, tentam articu- lar valores, criar associações e entidades de auxílio mútuo e defender seus interesses. Em se- gundo lugar, deve existir uma sociedade política relativamente autônoma e valorizada. Ter- ceiro, o Estado deve ser de Direito para assegurar as garantias relativas às liberdades dos cida- dãos. O quarto aspecto é que haja uma burocracia estatal a ser usada pelo novo governo demo- crático e, por último, é preciso haver uma sociedade econômica institucionalizada.

Na lição de Habermas (1997, p. 310), o processo democrático carrega também o fardo da legitimação, pois precisa assegurar simultaneamente a autonomia privada e a autono- mia pública dos sujeitos de direito. Para que se formulem adequadamente os direitos privados subjetivos, ou para impô-los politicamente, são necessárias discussões públicas para o esclare- cimento dos pontos de vista. Isso se faz mobilizando o poder comunicativo. Consequentemente, os pressupostos comunicativos e as condições do processo de formação democrática da opinião e da vontade são a única fonte de legitimação.

Para que o processo democrático de estabelecimento do direito tenha êxito, é necessário que os cidadãos utilizem seus direitos de comunicação e de parti- cipação num sentido orientado também para o bem comum, o qual pode ser proposto politicamente, porém não imposto juridicamente. [...] Os direitos po- líticos das pessoas [...] só conseguem abrir as fontes de legitimação para a formação discursiva da opinião e da vontade, se os cidadãos utilizarem suas liberdades comunicativas. (HABERMAS, 1997, p. 323).

Pelo pensamento de Habermas é possível notar a relevância do procedimento co- municacional como fonte de legitimação e, por conseguinte, do processo democrático.

A liberdade de expressão e a presença de fontes de informação diversificadas tam- bém são consideradas por Dahl (2001, p. 98-100) como instituições necessárias para atingir os objetivos democráticos num grau razoável e em grande escala, ao lado da existência de funcio- nários eleitos, eleições livres, justas e frequentes, autonomia para as associações e cidadania inclusiva.

De acordo com o autor, com a liberdade de expressão os cidadãos têm o direito de se expressar sem o risco de sérias punições em questões políticas amplamente definidas, inclu- indo a crítica aos funcionários, ao governo, ao regime, à ordem socioeconômica e à ideologia prevalecente. “A liberdade de expressão é um requisito para que os cidadãos realmente partici- pem da vida política. [...] A livre expressão não significa apenas ter o direito de ser ouvido, mas ter também o direito de ouvir o que os outros têm para dizer.” (DAHL, 2001, p. 110).

Com a liberdade de expressão, prossegue o professor, adquire-se uma compreensão esclarecida de possíveis atos e políticas do governo. E para ter essa competência cívica, os cidadãos precisam de oportunidades para “expressar seus pontos de vista, aprender uns com os outros, discutir e deliberar, ler, escutar e questionar especialistas, candidatos políticos e pessoas em cujas opiniões confiem”.

Por fim, sem a liberdade de expressão, os cidadãos logo perderiam sua capa- cidade de influenciar o programa de planejamento das decisões do governo. Cidadãos silenciosos podem ser perfeitos para um governante autoritário, mas seriam desastrosos para uma democracia. (DAHL, 2001, p. 110).

Aliado a isso está a presença de fontes de informação diversificadas. Os cidadãos têm o direito de buscá-las, independentes de outros cidadãos, especialistas, jornais, revistas, livros, telecomunicações e afins.

Essa situação está diretamente ligada, cita Dahl (2001, p. 111), à necessidade de compreensão esclarecida.

De outro modo, como os cidadãos poderiam adquirir a informação de que precisam para entender as questões se o governo controlasse todas as fontes importantes de informação? Também estaria comprometida a sua participação efetiva e a influência no planejamento pú- blico caso toda a informação colocada à sua disposição fosse proporcionada por uma única fonte.

Nessa mesma linha, Touraine (1996, p. 206) analisa que a democracia ficaria pri- vada de voz caso a mídia, ao invés de fazer parte da multidão, ou seja, do espaço público, a abandonasse para se tornar, antes de tudo, empresa econômica cuja política é comandada pelo dinheiro ou pela defesa dos interesses do Estado. “A cultura democrática não pode existir sem uma reconstrução do espaço público e sem um retorno ao debate político.” (TOURAINE, 1996, p. 208).

Tais motivos enfocados tanto por Robert Dahl, como por Alain Touraine, fez com que Katz (2001, p. 325-6), inspirado nas leituras do jurista e psicossociólogo francês Gabriel de Tarde, avaliasse que os meios de comunicação de massa podem servir às instituições de uma democracia participativa, desempenhando um papel construtivo como sustentáculo da demo- cracia – o que é caracterizado como teoria “liberal” ou “funcional” –, mas podem também abalá- la, exercendo um poder destruidor, chamado de teoria “tecnológica”.

Pela teoria liberal ou funcional, os meios de comunicação, diz Katz (2001, p. 334), são ativos numa democracia participativa. Eles asseguram a troca entre os governantes e os governados, estabelecem a ordem do dia dos temas que alimentarão as conversas nas mesas de café, estimulam o debate político e assim geram a opinião pública.

Através desse mecanismo, os meios de informação influenciam e controlam as instituições em nome dos cidadãos. Este raciocínio implica que a democra- cia participativa requer uma implicação ativa desses cidadãos, e não apenas um povo informado, assim como meios de comunicação para difundir a opi- nião horizontalmente entre os cidadãos, e verticalmente, dos cidadãos até o Estado. (KATZ, 2001, p. 334).

A teoria tecnológica, por sua vez, mostra como a evolução tecnológica dos meios de comunicação clássicos – imprensa, rádio, televisão – fortaleceu o sentimento de consciência nacional, ao mesmo tempo em que podem desestabilizar as instituições da democracia partici- pativa a quem serviam. Como exemplo, citamos as fake news. Mas é pelo exercício pleno da liberdade de expressão que reforçamos e consolidamos a própria cidadania. E isso passa tam- bém pelo papel desempenhado pela imprensa.

De acordo com Cayrol (2001, p. 337-343), a evolução dos meios de comunicação mudou as regras do jogo democrático.

O professor destaca quatro modificações substanciais: a personalização do poder e da política, que cria “personagens carismáticos”; o deslocamento do lugar da política, que pas- sou a se desenrolar nos meios de comunicação; a colocação, na ordem do dia, dos problemas

do momento pelos meios de comunicação, os quais escolhem o que consideram mais importan- tes para retransmitir aos cidadãos e selecionam os temas que girarão o debate da sociedade política, e, por fim, a influência dos meios de comunicação no conteúdo e na forma do discurso político. Para que o desvio figurado no uso de todos esses meios não tenda a acarretar um desvio da política democrática, é necessário o estabelecimento, no próprio terreno dos meios de comu- nicação, de uma autêntica ética democrática.

Em sentido semelhante, Cruz (2000, p. 18) afirma que o poder da imprensa não é político, mas sim midiático, pois canaliza de maneira não neutra as mensagens entre candidatos e um eleitorado, condicionando as escolhas e o próprio processo político.

O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa (BRASIL, 2009a, p. 108-109), reconhece a importância da imprensa na evolução e consolidação de uma democracia, especialmente em democracias “ainda em flor”, como a brasileira, pois é por meio dela que o cidadão se conscientiza dos problemas da “polis”, recebe orientação e esclarecimen- tos para a tomada de posição para escolher os dirigentes da nação e forma seu juízo sobre as políticas públicas implementadas pelos representantes eleitos. Essa imprensa, porém, precisa ser não somente livre, mas também diversa e plural para oferecer “os mais variados canais de expressão de ideais e pensamentos aos mais diversos segmentos da sociedade”, sem que haja concentração.

De qualquer modo, aduz Ferrari (2000, p. 164-165) que, ao se entender a democra- cia como gozo dos direitos fundamentais e acesso efetivo às oportunidades da vida, a informa- ção livre constitui um fundamento essencial.

A “informação”, diz o autor, não é apenas o “ato de informar”, mas é parte indis- pensável do processo de formação de conhecimentos, de opiniões e da própria personalidade do indivíduo. A falta dela bloqueia o desenvolvimento da personalidade.

O mesmo ocorre com uma informação unilateral, advinda de uma única fonte, pois direciona a personalidade para canais preestabelecidos e limita a oportunidade de escolha e a capacidade crítica do indivíduo, prejudicando a sua participação nos processos democráticos.

Dessa forma, reforça Cruz (2000, p. 25) que na consolidação dos regimes democrá- ticos e para a afirmação dos valores que fundamentam a democracia, o papel dos órgãos de informação é primordial.

O primeiro retorno da intervenção social está nas notícias do jornal do dia; as desi- gualdades são atenuadas e o desenvolvimento é promovido. Assim, a circulação das notícias tem de vir em primeiro lugar.

A imprensa, assevera Cayrol (2001, p. 335-336), constitui evidentemente o meio mais eficaz de informação e de formação da opinião pública, caracterizando-se por ser o elo por excelência entre governantes e governados.

Como o governo do povo pressupõe o controle permanente do exercício do poder pela opinião pública, só há democracia viva se a informação é livre e pluralista e se a comuni- cação é eficiente nos dois sentidos, entre governantes e governados.

A imprensa, na concepção democrática, deve ser livre para defender os direitos dos jornalistas e para expressar os direitos, desejos e aspirações dos cidadãos, e particularmente os direitos fundamentais que vêm a ser o direito à informação e o direito de exprimir opiniões.

Para Cruz (2000, p. 36), a imprensa livre representa uma autodefesa dos cidadãos contra a violência das instituições “e é, por outro lado, o melhor barômetro do exercício das liberdades em qualquer contexto social”.

Os meios de comunicação livres e participativos, prossegue ele, alavancam o de- senvolvimento, asseguram a circulação de informação, promovem a participação dos cidadãos na vida pública e abrem espaços de debate e diálogo entre os diversos setores da sociedade, “exercendo a crítica das práticas políticas e econômicas, divulgando conhecimentos, favore- cendo novos comportamentos”. E é assim que se conseguem bons governos, com uma imprensa livre e participativa na sua realidade social, aberta ao confronto de opiniões, espaço este privi- legiado de crítica democrática.

Como afirma Cayrol (2001, p. 336-337), “não há conquistas ou progressos demo- cráticos que não sejam acompanhados, preparados, não raros suscitados pela imprensa. [...] Não há democracia sem meios de comunicação livres”.

A liberdade de expressão, desdobrada principalmente na liberdade de imprensa e dos meios de comunicação, ajuda a promover estes direitos fundamentais, fazendo parte da própria definição da democracia. Cabe ao Estado, em seu novo papel inserido pelo processo democrático, assegurar a proteção e exercício dessa liberdade a todos os indivíduos.

No caso do Brasil, a Constituição Federal de 1988, ao instituir em seu art. 1º que a República Federativa brasileira se constitui em Estado Democrático de Direito, institui um Es- tado que “tende a realizar a síntese do processo contraditório do mundo contemporâneo, supe- rando o Estado capitalista para configurar um Estado promotor de justiça social”, abrindo as perspectivas de realização social profunda pela prática dos direitos sociais e fundado na digni- dade da pessoa humana (SILVA, 2008, p. 120).

De acordo com Oliveira Junior (2010, p. 59), temos um Estado Constitucional So- lidarista, envolvido em práticas de cidadania multidimensional e pluralista para a concretização dos direitos fundamentais e humanos.

[...] o legítimo fundamento do Estado encontra-se na solidariedade, tendo a dignidade humana como valor fonte e finalidade última de sua atuação. En- contra-se também no caminhar constante e eficaz rumo ao cumprimento dos objetivos fundamentais (políticas públicas) de construção de uma sociedade livre, justa e solidária, garantia do desenvolvimento nacional, erradicação da pobreza e da marginalização, redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos sem quaisquer formas de discriminação. (OLI- VEIRA JUNIOR, 2010, p. 59).

Para cumprir seus objetivos constitucionais e democráticos, o Estado precisa de- senvolver políticas públicas voltadas ao bem comum, podendo a liberdade de expressão, como enfocado, ter grande peso nesse processo.