5. RELAÇÃO ENTRE AS LIBERDADES DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E
5.1 DEMOCRACIA PARTICIPATIVA E DESENVOLVIMENTO COMO
LIBERDADE DE PARTICIPAÇÃO POLÍTICA.
Diante do exposto no capítulo pretérito, a presente abordagem tem continuidade tomando por fundamento o ideário apresentado por Amartya Sen em desenvolvimento como liberdade.
Partindo da ideia de expansão de liberdades instrumentais como meio para a consecução do desenvolvimento, neste momento abordar-se-á a questão da liberdade de participação política, a importância da democracia e sua relevância para o desenvolvimento, conforme preconizado pelo economista indiano.
O papel que a ordem jurídica em sua dimensão macro é, sem dúvidas, de grande valia e relevância na busca pelo direito ao desenvolvimento. Sendo aqui defeso, que a ordem jurídica tem como objetivo principal a promoção do desenvolvimento na perspectiva da liberdade. Em outras palavras, como direito que será pretendido e buscado em decorrência da “[...] existência de liberdades reais e instrumentais que possibilitam se chegar ao patamar desenvolvimentista de uma sociedade, seja ela baseada em uma localidade, em um Estado, ou mesmo a sociedade internacional358”.
É necessário compreender a importância que a construção da ordem jurídica, através de um processo resultante do diálogo com os anseios da população, nos moldes democráticos, tem nesta perspectiva teórico-desenvolvimentista. A liberdade política constitui, assim, um dos núcleos do regime democrático, a base da legitimidade do poder conferido ao Estado359.
Em sua análise pontual e específica nessa seara, Sen parte de uma constatação importante para a defesa feita neste estudo. Afirma que “não é difícil pensar que concentrar-se na democracia e na liberdade política é um luxo que um país pobre ‘não
358 OLIVEIRA, Diogo. MENDONÇA, Fabiano. XAVIER, Yanko. A governança pública e o Estado
regulador brasileiro na efetivação do direito fundamental ao desenvolvimento. In MENDONÇA, Fabiano. FRANÇA, Vladimir. XAVIER, Yanko (Org.). Regulação econômica e proteção dos direitos humanos: Um enfoque sob a óptica do direito econômico. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2008. p. 77.
359 DUARTE JR, Ricardo. Agência Reguladora, Poder Normativo e Democracia Participativa: Uma
pode se dar’.360”. Em outras palavras, em países subdesenvolvidos, a democracia é algo facilmente relegado ao segundo plano de preocupações, afinal as privações relacionadas diretamente a questões econômicas se mostram aparentemente mais urgentes em ser lidadas361. Esta percepção foi defendida por vários países em desenvolvimento fundando-se na retórica de que é mais válido eliminar a pobreza e a miséria, do que garantir liberdades políticas e direitos civis aos cidadãos, afinal, estes são enxergados como de pouca utilidade à população mais pobre.
Ponderável, pois, ser temerária a posição defesa pelos países em desenvolvimento, conforme acima transcrito. A abordagem necessária para a compreensão de quais são as verdadeiras necessidades econômicas de uma população deve ser feita levando em consideração a liberdade política que a população venha a ter para expressar suas necessidades. Tal entendimento envolve a observação de “[...] amplas inter-relações entre as liberdades políticas e satisfação de necessidades econômicas362”.
Amartya Sen observa que a intensidade das necessidades econômicas, em verdade, majora a urgência da ampliação das liberdades políticas. Observando a questão da relevância da urgente expansão de liberdades políticas e direitos civis sobre três aspectos distintos. Sendo, a importância direta dos reflexos na vida humana (aqui se tem uma relação com a capacidade básica de participação política e social), o “[...] papel instrumental de aumentar o grau que as pessoas são ouvidas quando expressam e defendem suas reivindicações de atenção política363”. E, por fim, o papel construtivo ao conceituar as necessidades (a ideia, neste ponto, se vincula à compreensão de quais sejam as necessidades econômicas em questão)364.
360 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 174. 361 Nos interessa trazer a abordagem feita pelo Economista, afirmando que “concepções como essas são
apresentadas com muita frequência em debates internacionais. Por que se preocupar com a sutileza das liberdades políticas diante da esmagadora brutalidade das necessidades econômicas intensas? Essa questão, bem como outras afins que refletem dúvidas quanto à urgência da liberdade política e direitos civis, tomou vulto na conferência de Viena sobre direitos humanos, realizada em meados de 1993, e delegados de vários países argumentaram contra a aprovação geral de direitos políticos e civis básicos em todo planeta, particularmente no Terceiro Mundo. Em vez disso, afirmou-se, o enfoque teria de ser sobre ‘direitos econômicos’ relacionados a importantes necessidades materiais”. SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 174.
362 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 175. 363 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 175. 364 Conforme assevera Ricardo Duarte em seu estudo sobre a obra: “A democracia em seu sentido
formal/procedimental consistiria nas liberdades políticas (instrumentais), enquando a no sentido material, nas liberdades substantivas”. DUARTE JR, Ricardo. Agência Reguladora, Poder Normativo e Democracia Participativa: Uma questão de legitimidade. Curitiba: Juruá, 2014. p. 209.
Observe-se que, apesar da afirmação feita no início do parágrafo anterior, o regime democrático não pode ser encarado como um antídoto automático. As oportunidades conferidas pela liberdade política precisam ser devidamente aproveitadas e de maneira positiva para que o efeito almejado, qual seja, o desenvolvimento, seja efetivamente alcançado. Carolina Munhoz, ponderando, em Sen, a dependência em relação ao modo como tal liberdade é exercida, afirma que “seu uso é condicionado pelos valores e prioridades dos indivíduos, assim como pelo uso que é feito das oportunidades de articulação e participação disponíveis365”.
Nos países desenvolvidos, entre os argumentos contrários à proposta de um avanço desenvolvimentista em que se observe de imediato, também, as liberdades políticas e os direitos civis, são apontados por Sen em três direções distintas. Em um primeiro entendimento, a liberdade de participação política e a ampla garantia de direitos tolhem o crescimento e o desenvolvimento econômico. Um segundo entendimento tenta demonstrar que se fosse facultado às pessoas em condição de pobreza escolher entre a democracia e a satisfação de suas necessidades econômicas, escolheriam a segunda opção. “Assim, por esse raciocínio, existe uma contradição entre a prática da democracia e a sua justificação: a opinião da maioria tenderia a rejeitar a democracia – dada essa escolha366”. Por último, o terceiro pensamento consiste no fato de que o enfoque democrático, ou seja, a valorização excessiva das liberdades políticas e direitos civis seria uma prioridade particular do mundo ocidental, contrariando os valores e práticas asiáticos que, em tese, seriam voltados com maior enfoque para questões de ordem e disciplina, em detrimento de liberdades substantivas propriamente ditas.
Partindo dos argumentos apontados como sendo os comumente encontrados em sentido contrário à expansão das liberdades políticas, o economista indiano observa que, em se tratando do argumento da suposta incompatibilidade entre liberdade política e crescimento ou desenvolvimento econômico, há poucas evidências no sentido de que governos autoritários em que há supressão de direitos civis sejam verdadeiramente efetivos na promoção do maior crescimento econômico. Em verdade, inexistem maiores estudos empíricos que venham a se mostrar complementares no debate.
365 MUNHOZ, Carolina Pancotto Bohrer. Direito, Livre Concorrência e Desenvolvimento. São Paulo:
Lex Editora S.A., 2006. p. 89.
Entretanto, na visão aqui abordada, o processo se mostra complexo e conjugado, ou seja, levando em consideração o fato de que “[...] existe agora um razoável consenso quanto a uma lista geral de ‘políticas úteis’[...]367” no processo de crescimento econômico. Entre estas, memoramos a abertura à concorrência, a utilização dos mercados internacionais, o aumento do nível de alfabetização e educação formal escolar, entre outros. O que é interessante, pois, nestes dados, é que nenhum se mostra como de fundamental necessidade de manutenção por um regime autoritário, sendo todos perfeitamente compatíveis com o sistema democrático. Ainda nesta discussão, é fundamental lembrar-se do “[...] impacto da democracia e das liberdades políticas sobre a vida e as capacidades do cidadão368”.
Nesta seara, Mônica Costa em seus estudos sobre a teoria aqui analisada, complementa observando que “a centralização política é temerosa tanto porque nega aos interessados imediatos a possibilidade de discutir suas necessidades reais, e assim permitir que privações mais imediatas sejam superadas369”.
Ou seja, se o povo detém liberdade política de maneira à pressionar os governos visando reivindicar questões que julguem necessárias, a resposta será consideravelmente mais célere. Trata-se aqui do papel instrumental da liberdade política.
Conforme observou Ricardo Duarte em seus estudos, a grande novidade trazida por Amartya Sen em sua análise valorativa sobre as liberdades políticas se deu ao enxergar a democracia em um conceito micro, pautado na individualidade presente na liberdade necessária a qualquer pessoa para participar da vida política da sociedade em que se encontra. Esta proposta, se afasta, então, do ideário que tem a democracia em sua percepção macro, enxergando o povo como um ser uno e representado pelo conjunto da sociedade370.
No capítulo anterior já fora abordado o conceito de liberdade instrumental e fora feita uma rápida explicação sobre como se enquadravam as liberdades políticas dentro deste rol de liberdades instrumentais. Repisemos, pois, a questão em comento.
Neste norte, importa memorarmos o fato de que as liberdades políticas são valoradas com razão pela sociedade. Conforme afirma Sen, como criaturas sociais que
367 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 177. 368 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 178. 369 SOUSA, Mônica Teresa Costa. Direito e Desenvolvimento. Curitiba: Juruá Editora, 2011. p. 99. 370 DUARTE JR, Ricardo. Agência Reguladora, Poder Normativo e Democracia Participativa: Uma
somos, é perfeitamente aceitável que as pessoas “[...] valorizem a participação irrestrita em atividades políticas e sociais371”. Outrossim, a devida formação e construção dos valores individuais resulta de um processo comunicativo e de diálogo aberto e constante, tendo as liberdades políticas função central no desenvolvimento deste processo.
É, no ponto em questão, que Amartya Sen utiliza um de seus argumentos famosos na defesa da referida liberdade instrumental. Sapientemente assegura que “[...] nenhuma fome coletiva substancial jamais ocorreu em nenhum país independente com uma forma democrática de governo e uma impressa relativamente livre372”.
Passando à abordagem sobre o papel construtivo da liberdade política, ou seja, o papel finalista desta, retornamos ao argumento já trazido neste estudo, ou seja, tem-se que as pressões naturais do modelo democrático resultem em respostas à questões relativas à necessidades econômicas de maneira mais ágil, além da própria definição do que venham a ser tais necessidades373. Assim, “os direitos políticos incluindo a liberdade de expressão e discussão, são não apenas centrais na indução de respostas sociais a necessidades econômicas, mas também centrais para a conceituação das próprias [...]374”.
A presente exposição, tomando por base o ideário proposto na obra desenvolvimento como liberdade, traz a noção de expansão das liberdades políticas como instrumental do desenvolvimento. Entretanto, o conceito aqui abordado de liberdades políticas abarca, além da própria ideia de participação popular democrática, se relaciona, também, com direitos políticos e civis relativos à questão democrática.
Neste sentido, em direcionamento à delimitação temática proposta e devidamente embasada, encaremos, pois, a ideia de liberdades políticas sob o enfoque restrito na democracia participativa e sua expansão como instrumental do processo de desenvolvimento.
371 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 179. 372 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 180. 373 Mônica Costa afirma que “as necessidades econômicas e a superação das privações fomentam a
importância da liberdade de participação política e da democracia. [...] A democracia é essencial, mas assim como os mercados, por si só não supera problemas tangenciais ao processo de desenvolvimento. Os sistemas democráticos ainda que mais favoráveis a este processo que os regimes totalitários, são condicionados por valores e pelo uso das oportunidades disponíveis. É justamente neste ponto que se tornam importantes as garantias de transparência como liberdades inerentes ao processo de desenvolvimento”. SOUSA, Mônica Teresa Costa. Direito e Desenvolvimento. Curitiba: Juruá Editora, 2011. p. 100.
374 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 181-
Não deixando de mencionar a observação feita por Amartya Sen de que “´[...]as liberdades políticas e as liberdades formais são vantagens permissivas, cuja eficácia depende do modo como são exercidas375”, é preciso que a análise seja feita pontualmente em uma abordagem da prática democrática. Ainda, levando em consideração e seguindo a compreensão de que a democracia é uma relevante criadora de oportunidades.
Conforme já fora tratado no presente trabalho, há uma patente crise no modelo democrático de representação adotado no Estado brasileiro. Se mostrando cada vez mais necessária uma abertura democrática voltada e direcionada para a participação popular.
O princípio democrático, entendido em sua relação com a organização da titularidade e exercício do poder estatal, prescinde da existência de mecanismos que possibilitem que os indivíduos exerçam suas liberdades políticas, participando dos processos de decisão, controlando-os, legitimando, em suma, o poder político. Assim, “a democracia consiste em um processo dinâmico, inerente a uma sociedade aberta e ativa, a qual permite ao detentor do poder a possibilidade de desenvolvimento integral liberdade de participação crítica no processo político, condições de igualdade [...]376”, sendo tal igualdade expandida para questões de natureza econômica, política e social.
Valemos-nos, por fim, do que afirma o Professor Artur Cortez, este modelo de Estado é um modelo de inclusão e justiça em que se faz necessária a participação ativa dos órgãos dos poderes constituídos na condução de uma renovação cultural através dessa ação estatal, modificando as bases sociais através da educação, no sentido aqui proposto, conforme se verá, uma educação econômica377.
É, neste sentido, que a compreensão aqui trazida toma por enfoque a expansão das liberdades políticas em analogia com o modelo de democracia participativa. Ou seja, partindo da utilização de instrumentos constitucionalmente previstos para a participação direta no governo, além da participação política facultada nos mais diversos órgãos da administração. Defende-se, como instrumento do desenvolvimento, a efetivação do direito à participação política através de um modelo de democracia participativa, onde o cidadão encontra espaço para reivindicar interesses individuais, coletivos e/ou difusos.
375 SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 182. 376 DUARTE JR, Ricardo. Agência Reguladora, Poder Normativo e Democracia Participativa: Uma
questão de legitimidade. Curitiba: Juruá, 2014. p. 210.
377 BONIFÁCIO, Artur Cortez. Direito Constitucional Internacional e a proteção dos direitos
Em nossa curta vivência e experiência com tal abertura política, tal espaço se vê aberto, através dos variados mecanismos existentes e previstos no ordenamento jurídico378. Em que pese a pouca difusão e efetiva participação, não podemos olvidar a previsão de instrumentos como os orçamentos participativos, as audiências públicas, consultas públicas, iniciativa popular na proposição de leis, referendos e plebiscitos. Os instrumentos mais conhecidos e utilizados neste modelo, onde sua efetivação ocorre por diversos meios perante a administração pública (com especial relevo nas agências reguladoras) e o poder legislativo.
A presente análise é desenvolvida no sentido de que “a liberdade política é auxiliar na realização de outras liberdades, como a possibilidade de acesso aos mercados379”. Sendo, também, como já dito, fundamental na compreensão de quais as necessidades econômicas sentidas pela população visando o desenvolvimento de políticas públicas e a condução do aparato estatal com fulcro em uma realidade sentida e comunicada.
Visando compreender a crucial inter-relação entre a democracia participativa e as liberdades e facilidades econômicas como instrumental ao desenvolvimento, será feita uma análise, também, da importância dos mercados e de sua proteção para o processo em comento.
5.2 FACILIDADES ECONÔMICAS, TUTELA DA CONCORRÊNCIA E