3 MATERIAIS E MÉTODOS
3.3 Procedimentos experimentais
3.3.9 Densitometria óssea
O fêmur direito e as vértebras lombares (L4) foram limpos de tecidos moles e armazenados a -20ºC em solução salina até serem analisados. A distância entre as epífises e a largura do ponto médio da diáfise foram medidas com paquímetro com uma leitura de 0,01 milímetros (COSTA et al., 2011)
Por meio da técnica de Tomografia Computadorizada (TC), modelo helicoidal (HISPEED, GE®), as imagens foram obtidas através de cortes axiais de espessura
de 5mm. As radiodensidades (expressas em unidades de Hounsfield, HU) da epífise proximal, da diáfise e das vértebras lombares foram medidas com o software Dicomworks v1•3•5, 2002. Após a TC, a massa (mg) das peças ósseas foi avaliada após secagem em estufa a 95ºC overnight (FIGURA 10).
Figura 10 – Avaliação óssea.
3.3.10 Análise morfológica e morfométrica da mama, endométrio e gordura intra-abdominal
Ao final do período experimental, todas as ratas foram submetidas à necrópsia com remoção dos úteros que foram pesados a fresco; fotografados, usando uma câmera digital; e examinados macroscopicamente com a intenção de identificar qualquer tipo de mudança, especialmente massa tumoral. Os tecidos mamário, adiposo e ósseo (fêmur e vértebra lombar) foram coletados e submetidos a exame macroscópico. Para a identificação, cada órgão e/ou tecido recebeu numeração própria para facilitar e permitir maior segurança durante toda a pesquisa.
Em seguida, todos os tecidos foram fixados em formol tamponado a 10%, exceto fêmur e vértebra. No dia seguinte, os tecidos selecionados para o processo histológico foram emblocados separadamente e identificados de acordo com o número individual do registro, exceto os fêmures que foram armazenados em freezer para posterior análise por densitometria. As amostras do corpo uterino, mamas e tecido adiposo foram desidratadas em álcool, embebidas em parafina, seccionadas com 5µm de espessura e coradas com Hematoxilina e Eosina (Masson). Os cortes histológicos foram observados em microscópio Zeiss, utilizando objetiva de 10 e 40X.
A avaliação histológica das glândulas mamárias, endométrio e tecido adiposo foi realizada sob parâmetros qualitativos e quantitativos, considerando os tecidos
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normais, avaliando tamanho dos núcleos, polaridade e atividade mitótica, visando avaliar possíveis alterações no crescimento celular, tais como atrofia, hipertrofia, metaplasia escamosa, hiperplasia e proliferação de outras células (FIGURAS 11 e 12).
Figura 11 – Processamento dos tecidos.
Figura12 – Análise tecidual.
3.4 Análise Estatística
As análises dos resultados foram realizadas utilizando o software Graph Pad Prism versão 5.00, 2007 (San Diego, CA, EUA). O peso corporal e o consumo de
ração foram analisados por ANOVA bi-variada, seguida do pós-teste de Bonferroni.
Os demais resultados foram analisados por ANOVA uni-variada, seguida do pós- teste de Newman-Keuls. Todos os resultados foram expressos como média ± erro padrão da média (EPM) com nível de significância de p<0,05.
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4 RESULTADOS
4.1 Acompanhamento do ciclo estral: análise do esfregaço vaginal
A análise da frequência do ciclo estral foi baseada na caracterização de cada fase, de acordo com a proporção entre três tipos celulares: células epiteliais nucleadas, células cornificadas e leucócitos. Durante as duas semanas de controle do ciclo estral, todas as ratas apresentaram o ciclo regular, com as quatro fases do ciclo estral: proestro, estro, metaestro e diestro.
Nos animais que foram ovariectomizados, a análise do esfregaço vaginal durante o período após a ovariectomia (21 dias) mostrou que essas ratas não estavam ciclando, ou seja, apresentavam-se em anestro. Já a análise do esfregaço vaginal do grupo FO mostrou que esses animais apresentavam-se com o ciclo estral regular, com quatro fases distintas. Observou-se que o grupo tratado com isoflavonas de soja (ISO) apresentou frequência do ciclo estral semelhante a do grupo FO (TABELA 2).
Tabela 2 – Frequência das fases do ciclo estral.
Nota: Grupos experimentais: FO (falso-operadas), OVX (ovariectomizadas), ISO (ovariectomizadas tratadas com isoflavonas de soja) e BE (ovariectomizadas tratadas com benzoato de estradiol) durante 90 dias.
4.2 Determinação do peso corpóreo
Durante o período de tratamento de 90 dias, houve diferença significativa entre os grupos na análise ponderal, onde foi obeservado, conforme Gráfico 1, que o grupo OVX apresentou aumento de peso corporal a partir da 11ª semana, porém os grupos ovariectomizados que foram tratados com as isoflavonas (ISO) ou com benzoato de estradiol (BE) não aumentaram de peso.
Fases do Ciclo Estral
Frequência das Fases do Ciclo Estral (%)
FO OVX ISO BE
Proestro 30,8 4,5 20,0 0,0 Estro 30,8 0,0 13,3 100,0
Metaestro 23,1 9,1 40,0 0,0 Diestro 15,4 86,4 26,7 0,0
0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14
Gráfico 1 – Peso corporal das ratas (g). Ratas dos grupos falso-operado (FO), ovariectomizado (OVX), isoflavonas (ISO) ou benzoato de estradiol (BE), durante 90 dias de tratamento.
Os pontos e barras verticais representam a média ± erro padrão, respectivamente (n=10). * OVX vs ISO; # OVX vs BE; + OVX vs FO. ANOVA, Bonferroni, (p<0,05).
4.3 Consumo de ração
Em relação ao consumo de ração, durante os 90 dias de tratamento, não houve diferenças significativas entre os grupos (GRÁFICO 2).
.
Gráfico 2 – Consumo de ração das ratas (g/dia). Ratas dos grupos falso-operado (FO), ovariectomizado (OVX), isoflavonas (ISO) ou benzoato de estradiol (BE), durante 90 dias de tratamento. Os pontos e barras verticais representam a média ± erro padrão, respectivamente (n=10). ANOVA (p<0,05).
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4.4 Análise do útero: peso e histomorfometria
As ratas ovariectomizadas apresentaram redução do peso uterino em 75%
em relação às do grupo FO (0,245±0,03g/100g). O tratamento com isoflavonas de soja não alterou o peso uterino em comparação ao grupo OVX. Porém, foi observado o aumento significativo do peso uterino no grupo tratado com benzoato de estradiol (GRÁFICO 3 e FIGURA 13).
Gráfico 3 – Peso do útero. Ratas dos grupos falso-operado (FO) ou ovariectomizados tratadas com isoflavonas de soja (ISO), benzoato de estradiol (BE) e salina (OVX), após 90 dias de terapia. * p <0,001, comparado com os grupos FO e BE. ANOVA, Newman-Keuls.
Figura 13 – Macroscopia uterina. Mostra úteros com formas semelhantes. Tamanhos idênticos nos grupos FO / BE e OVX / ISO.
Além disso, após 90 dias de tratamento com isoflavona de soja não foram identificadas alterações que caracterizassem crescimento celular no útero e nem qualquer tipo de massa tumoral ou alterações morfológicas significativas.
Diferentemente, as ratas tratadas com BE mostraram um aspecto semelhante ao observado no grupo FO.
A análise histopatológica mostrou que nas glândulas endometriais do FO, o epitélio de revestimento colunar típico com núcleos aleatoriamente posicionados,
FO OVX ISO BE
0.00 0.05 0.10 0.15 0.20 0.25 0.30
*
*
Peso do Útero (g/100g)
com vacúolos secretores apicais. No grupo OVX, as glândulas mostraram tamanhos diferentes e, por vezes, encontravam-se levemente dilatadas e revestidas por epitélio cilíndrico. O tratamento com isoflavona manteve o padrão morfológico observado nas ratas OVX. O contrário foi observado no grupo de BE, que apresentou elevado índice de proliferação das glândulas de aspecto “back to back”, revestidas por um epitélio pseudoestratificado, com alta frequência de mitoses típicas e também várias áreas de metaplasia escamosa, madura. Neste grupo, uma elevada taxa de infiltração eosinofílica foi encontrada (FIGURA 14).
Nota: No grupo FO observa-se o endométrio coberto por epitélio superficial (ES) e epitélio glandular (EG) cilíndrico simples (seta); em OVX, o EG é achatado (seta) e glândulas levemente dilatadas (seta); em ISO, o EG consiste em camada única de células epiteliais (seta) e estroma denso. Em BE, observa-se que ES e EG sofreram mudanças para epitélio escamoso ceratinizado (metaplasia escamosa) e hiperplasia (seta). Hematoxilina e Eosina (HE) 40X.
Figura 14 – Fotomicrografias das glândulas endometriais de ratas ovariectomizadas e tratadas: OVX (solução salina, 0,1 mL/100 g/dia, v.o.), ISO (100mg/Kg/day/v.o.); BE (benzoato de estradiol, 10 µg/Kg/dia, s.c.). O grupo falso-operado (FO) recebeu solução salina (0,1 mL/100 g/dia, v.o.).
A análise morfométrica da espessura do epitélio endometrial determminou a diminuição significativa nos grupos OVX e ISO (GRÁFICO 4).
FO OVX
ISO BE
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Gráfico 4 – Espessura do epitélio glandular endometrial de ratas falso-operadas (FO) ou ovariectomizadas após 90 dias de tratamento com isoflavonas de soja (ISO), benzoato de estradiol (BE) e salina (OVX). (* p<0,05, comparado com o grupo FO e BE).
4.5 Análise da mama: peso e histomorfometria
O estudo histopatológico das glândulas mamárias, após o período de tratamento, evidenciou que a característica do grupo FO, foi a presença de estruturas tubulares revestidas por um epitélio cilíndrico com secreção luminal. O grupo ISO apresentou atrofia do epitélio ductal, sem atividade proliferativa, com fibrose periductal, bem como uma elevada prevalência de tecido adiposo no interstício, semelhante ao grupo OVX. Por outro lado, o grupo tratado com BE mostrou uma modesta proliferação ductal com frequentes áreas de ectasia ductal e algumas áreas de metaplasia apócrina, embora no estroma não tenha sido identificada nenhuma atividade proliferativa. A morfometria do epitélio das glândulas mamárias, avaliando a altura do epitélio dos ductos mamários, não mostrou mudança significativa entre os grupos (FIGURA 15 e GRÁFICO 5).
FO OVX ISO BE
0 5 10 15 20 25 30 35
*
Espessura do Epitélio Uterino(µm)
*
Nota: O grupo falso-operado (FO) recebeu solução salina (0,1 mL/100 g/dia, v.o.). Em FO encontrou-se pequeno aglomerado de glândulas com secreção luminal (seta). No grupo OVX, nota-se fibrose periductal (seta). No grupo ISO, há atrofia do epitélio ductal, sem fibrose (seta). No grupo BE, as glândulas mostram ectasia ductal (seta) e alguns ductos com metaplasia apócrina.
HE 40X.
Figura 15 – Fotomicrografias das glândulas mamárias. Ratas ovariectomizadas e tratadas: OVX (solução salina, 0,1 mL/100 g/dia, v.o.), ISO (100mg/Kg/day/v.o.); BE (benzoato de estradiol, 10 µg/Kg/dia, s.c.).
Gráfico 5 – Espessura do epitélio das glândulas mamárias de ratas falso-operadas (FO) ou ovariectomizadas após 90 dias de tratamento com isoflavonas de soja (ISO), benzoato de estradiol (BE) e salina (OVX). ANOVA (p<0,05).
FO OVX ISO BE
0 5 10 15
Espessura do epitélio mamário(µm)
FO OVX
ISO BE
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4.6 Análise do tecido adiposo: peso e histomorfometria
A análise do peso relativo do tecido adiposo abdominal, em relação a 100g de peso corporal dos animais, mostrou que no grupo ISO houve uma redução de 43% em comparação ao grupo OVX (3,0±0,34g/100g). O peso da gordura abdominal do grupo FO foi de 2,14±0,22g/100g (GRÁFICO 6).
Gráfico 6 – Peso da gordura abdominal total. Ratas Wistar. Controles (FO) ou ovariectomizadas (OVX), tratadas com isoflavonas de soja (ISO) ou benzoato de estradiol (BE) durante 90 dias. *p<0.05, significa diferença do grupo ISO em relação ao OVX.
A histomorfometria revelou alterações citológicas entre os grupos experimentais, havendo redução da área dos adipócitos em 33% no grupo ISO e de 26% no grupo BE, e, aumento de 31% da área dos adipócitos do grupo OVX, comparando com FO (GRÁFICO 7).
Gráfico 7 – Área dos adipócitos (µm2), tecido adiposo abdominal. Ratas falso-operadas (FO) ou ovariectomizadas após 90 dias de tratamento com isoflavonas de soja (ISO), benzoato de estradiol (BE) e salina (OVX). (*p<0,05, comparado com o grupo FO e OVX; # p<0,05, comparado com o grupo FO).
Peso da Gordura abdominal Total (g/100g)
FO OV
O aspecto histopatológico do tecido adiposo intra-abdominal nos grupos FO, OVX, ISO e BE mostrou diminuição do volume celular (hipotrofia) dos adipócitos no grupo tratado com isoflavonas de soja quando comparado com o grupo ovariectomizado. Porém, manteve-se semelhante ao grupo tratado com benzoato de estradiol (FIGURA 16).
Figura 16 – Fotomicrofotografia do tecido adiposo intra-abdominal. Ratas controles (FO) ou ovariectomizadas (OVX), tratadas com isoflavonas de soja (ISO) ou benzoato de estradiol (BE) durante 90 dias.
4.7 Avaliação óssea: densitometria e medidas
Em relação aos parâmetros ósseos avaliados, nenhuma alteração foi identificada na densitometria, massa ou medidas de fêmur e vértebra lombar (L4).
(TABELA 3).
ISO ISO
FO OVX
BE
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Tabela 3 – Parâmetros ósseos.
GRUPOS Nota: Valores representam a média ±SEM (N= 8-10). ANOVA, p<0.05.
4.8 Determinação das concentrações de glicose, lipídeos e hormônios ovarianos
Os parâmetros séricos de glicose, colesterol total, triglicerídeos e LDL-colesterol não diferiram entre os grupos. Contudo, houve aumento de 76% no valor do HDL-colesterol do grupo ISO (TABELA 4).
Tabela 4 – Concentração sérica de glicose e lipídeos.
Parâmetros Nota: Ratas controles falso-operadas (FO) ou ovariectomizadas (OVX), tratadas com isoflavonas de soja (ISO) ou benzoato de estradiol (BE) durante 90 dias. Os valores representam a média ±SEM (N= 8-10). *p<0.05 significa diferença do grupo ISO comparado ao FO. ANOVA - Newman Keuls.
Em relação às concentrações séricas de estradiol, ocorreu diminuição em 82% no grupo OVX e o tratamento com isoflavona manteve baixo o estradiol. O tratamento com benzoato de estradiol aumentou em 33% o estradiol sérico em relação ao grupo FO. A concentração de progesterona diminuiu 41% no grupo OVX e nos grupos ISO e BE se manteve baixa. (TABELA 5).
Tabela 5 – Concentração sérica de estradiol (E2) e progesterona (P4).
Hormônios GRUPOS
FO OVX ISO BE Estradiol, E2
(pg/mL) 10,39±2,63 1,89±0,42** 1,76±0,69** 13,78±3,05# Progesterona, P4
(ng/mL) 35,87±5,85 21,16±3,12* 15,63±3,22* 20,59±4,16*
Nota: Ratas falso-operadas (FO) ou ovariectomizadas (OVX) tratadas com isoflavona de soja (ISO) ou benzoato de estradiol (BE) após 90 dias de intervenção. Valores na tabela são médias
± SEM (N=6). *p<0.05, comparado com o grupo FO; **p<0,01, comparado com o grupo FO;
#p<0,05, comparado com os grupos OVX e ISO (ANOVA, Newman Keuls).
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5 DISCUSSÃO
Em 2011, a Sociedade Norte-Americana de Menopausa (NAMS, 2011) publicou pesquisa indicando um aumento da ingestão de soja como suplemento dietético, a partir do consumo de leite, barras energéticas, bebidas e até mesmo sobremesas congeladas. Apesar de vários estudos clínicos e experimentais enfocando os efeitos das isoflavonas terem sido publicados, seus riscos e benefícios para a saúde humana ainda permanecem pouco esclarecidos (BERAL; BULL;
REEVES, 2005; CARBONEL et al., 2011; MÖLLER et al., 2010).
Os efeitos das isoflavonas dependem da dose ingerida, da capacidade de absorção intestinal individual e das concentrações dos hormônios sexuais endógenos no momento da sua utilização. Portanto, este estudo foi projetado para examinar os efeitos em longo prazo, utilizando tratamento com isoflavona de soja (100mg/kg/dia) no endométrio, nas glândulas mamárias e nos tecidos adiposo e ósseo de ratas ovariectomizadas, considerando aspectos histomorfométricos e densitometria óssea. A escolha do período experimental de 90 dias teve como base um estudo anterior (McCLAIN, 2006), que analisou diferentes concentrações e tempo de tratamento e não encontrou riscos para a vida animal.
Neste estudo, foi considerado apenas um fragmento de cada corpo uterino, baseado em Inuwa e Williams (1996), que observaram não haver diferença significante na densidade glandular no endométrio dos diversos compartimentos do mesmo corpo uterino.
Levando-se em conta as concentrações séricas dos esteróides sexuais femininos, fica evidente que estradiol e progesterona não foram afetados pelo tratamento com isoflavonas de soja, ou seja, E2 e P4 permaneceram baixos nas ratas ovariectomizadas tratadas com isoflavonas de soja. O perfil hormonal, com níveis de esteróides sexuais baixos, indica melhoria na regularidade do ciclo menstrual nas ratas tratadas com isoflavonas de soja devido não a um aumento nas concentrações de E2 e P4, mas provavelmente através de pequena ação das isoflavonas de soja nos RE, como observou Unfer et al. (2004). As pequenas alterações nos níveis estrogênicos foram consideradas funcionais e não efeitos adversos. Assim, as isoflavonas de soja mantiveram a citologia vaginal com as fases semelhantes às do grupo FO, enquanto que o tratamento com estradiol induziu apenas a fase do estro, durante todo o tempo de tratamento.
Estudos epidemiológicos mostraram que os fitoestrogénos estão associados a uma redução do risco de câncer dependente de estrogênio. Por outro lado, em trabalho experimental, Mosquette et al. (2007) demonstraram que o tratamento com altas doses de isoflavonas (300mg/kg por dia, 21 dias) provocou uma ação semelhante à dos estrógenos, altamente significativa demonstrada por proliferação no miométrio. No presente estudo, após 90 dias de tratamento com isoflavonas de soja, administrada por gavagem, considerando a análise macroscópica do útero, os resultados encontrados não corroboram com os de Mosquette et al. (2007), posto que o tratamento não desencadeou significativa proliferação miometrial. As células do epitélio glandular endometrial não mostraram mudanças do crescimento celular e não foi detectado aumento do peso e volume uterino. Resultados idênticos foram relatados em McClain (2006), que utilizou 500mg/Kg/dia de genisteína durante 13 semanas, cujos resultados não mostraram alteração do padrão histológico das glândulas mamárias e do tecido adiposo em relação ao grupo ovariectomizado sem tratamento, OVX.
No entanto, esses dados diferem de outro estudo recente (CARBONEL et al., 2011), que utilizando doses crescentes de genisteína, durante 30 dias, observou o aumento do peso do útero e alterações das glândulas do endométrio quando a dose dada foi de 125mg/Kg/dia, ou seja, maior do que a dose avaliada no presente estudo.
Outros estudos experimentais têm demonstrado que mesmo a aplicação aguda (21 dias) de concentrações crescentes de extrato de soja (100-600 mg/kg/dia) induz alterações morfológicas, caracterizadas pela proliferação das glândulas do endométrio, enfatizando o aumentado número de miócitos do miométrio e da quantidade de fibras de colágeno (MOSQUETTE et al., 2007), com metaplasia escamosa do epitélio endocervical (DIEL et al., 2001).
Estudos clínicos têm demonstrado que mesmo pequenas doses diárias de isoflavonas de soja (cerca de 1,06 mg/kg de genisteína; 1,6 mg/kg de daizeina; e 0,38 mg/kg de gliciteína) foram associados à incidência aumentada de hiperplasia endometrial (UNFER et al., 2004).
No que se refere à análise do tecido ósseo, que demonstrou a inexistência de mudanças significativas à densitometria, é possível que o tempo de tratamento instituído seja insuficiente para desencadear alterações na estrutura do esqueleto.
58
Além disso, nas mamas, o número de ductos glandulares, o grau de formação de lúmen na presença ou não de secreção apical e o grau de fibrose periductal nos animais tratados com isoflavona não demonstraram nenhuma alteração, corroborando relato de McClain (2006). Também, Piovesan et al. (2005) não evidenciaram efeito proliferativo no tecido mamário de ratas ovariectomizadas, tratatadas com isoflavonas na dose 100 mg/kg durante 60 dias conseutivos. Esses efeitos, associados à preponderância da fase diestro no grupo ISO e em contraste com o predomínio de estros no grupo BE, podem ser um bom indício de bem-estar para esses animais após a remoção bilateral dos ovários. Portanto, com base nos dados obtidos neste modelo experimental e em testes clínicos previamente realizados e divulgados, o uso das isoflavonas de soja pode ser indicado para as mulheres que sofrem com os incômodos da menopausa e estejam incluídas no grupo de risco de câncer de mama e endométrio (McCLAIN, 2006).
Dessa maneira, no presente estudo experimental, os efeitos das isoflavonas de soja mimetizaram as ações do estradiol, sem prejuízos aos tecidos endometrial, mamário e adiposo, bem como mantiveram a integridade óssea. Enquanto o tratamento com benzoato de estradiol provocou aumento de peso do útero e alterações proliferativas no endométrio, caracterizadas por hiperplasia, metaplasia escamosa, infiltração eosinofilíca e hidrométrio.
Com relação ao perfil lipídico, o aumento nos níveis de HDL-colesterol, embora pequeno, é encorajador com fins de aplicação em saúde pública, indicando que as isoflavonas de soja podem, pelo menos, estimular o componente protetor do perfil lipídico, como também foi observado na meta-análise realizada por Zhan e Ho (2005).
Apesar de aproximadamente sete décadas de evidências sobre a ação das isoflavonas de soja, somente a partir de 1990, quando foi patrocinada uma ampla pesquisa pelo Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, os efeitos dos alimentos contendo soja na prevenção de doenças receberam maior atenção em todo o mundo (MESSINA, 2010). Por outro lado, os dados relativos ao consumo humao de soja, seja sob a forma de alimentos ou suplementos, em diversos países, ainda são escassos, dificultando conclusões definitivas acerca dos verdadeiros benefícios desses fitoestrógenos.
Ainda é interessante ressaltar que a dose requerida para obtenção de efeitos semelhantes aos estrógenos falta ser identificada. Dessa maneira, embora as ações
estrogênicas das isoflavonas de soja tenham sido comprovadas experimentalmente, o tempo de uso e a dose relevante para o consumo humano sem risco, ainda não estão bem estabelecidos.
60
6 CONCLUSÃO
O presente estudo demonstrou que:
a) o ciclo estral das ratas tratadas com isoflavonas apresentou frequência semelhante ao FO, predominando a fase metaestro;
b) durante 90 dias de tratamento não houve diferença significativa na massa corporal e no consumo alimentar entre os grupos;
c) o tratamento com isoflavonas de soja não alterou o crescimento celular de endométrio e mamas
d) os adipócitos da gordura abdominal apresentaram modesta hipotrofia e a avaliação por DXA não mostrou diferença entre os grupos;
e) a concentração sérica de HDL-colesterol no grupo tratado com isoflavona aumentou 76% em relação ao controle.
Nenhum efeito estatisticamente significativo foi idenfiticado na proliferação celular do endométrio e das mamas, com o tratamento com isoflavonas de soja, na dose de 100mg/dia/3 meses. No entanto, houve tendência para diminuição da massa corporal e do tecido adiposo abdominal, bem como uma melhora modesta no perfil lipídico e na manutenção da estrutura óssea do fêmur.
Considerando que não foram encontradas alterações significativas no crescimento celular, tais como hiperplasia, metaplasia, displasia e neoplasia, este modelo experimental sugere que o uso de isoflavonas de soja, poderá aliviar incômodos da menopausa, especialmente os fogachos, sem riscos maiores para mulheres, principalmente, no endométrio e nas glândulas mamárias. Portanto, o uso prolongado de 100mg/kg/dia isoflavonas de soja, forneceu dados que podem proporcionar uma esperança significativa para as mulheres no período da menopausa e se tornar uma opção de tratamento para aquelas que não podem usufruir das vantagens da terapia hormonal convencional.
Não obstante o entusiasmo com os potenciais efeitos benéficos do uso das isoflavonas de soja, pesquisas sobre a segurança do uso desses fitoestrógenos, considerando suas ações por tempo prolongado – seja na forma de dietas ou como alternativa de reposição hormonal – devem ser desenvolvidas paralelamente na esfera clínica e experimental, incluindo a biologia molecular, visando benefícios sem riscos à saúde da população feminina, que procura viver mais e com qualidade.
REFERÊNCIAS
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Lancet, v. 339, p. 1233, 1992.
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phytoestrogens ins Japanese men and women consumimg a traditional Japanese diet. Am. J. Clin. Nutr., v. 54, p. 1093-1100, 1991.
ADLERCREUTZ, H. Lignans and human health. Crit. Rev. Clin. Lab. Sci., v. 44, p.
483-525, 2007.
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