A falta de provas físicas, presente na maioria dos casos que envolvem violência sexual, incentivou o sistema de justiça a investir na inquirição da vítima como forma de produção de prova (AZAMBUJA, 2017, p. 178).
No Brasil, historicamente, o depoimento de crianças, em juízo, sempre se realizou da mesma forma como ocorre com os adultos, sem quaisquer normas ou procedimentos específicos.
A prática, amplamente utilizada no período que antecedeu à Constituição Federal de 1988, período em que a criança não passava de sujeito de necessidades, vem reforçada, na atualidade, com a utilização do método do depoimento sem dano (mais recentemente chamado de depoimento especial), sem considerar a conquista da criança como sujeito de direitos (AZAMBUJA, 2017, p. 178).
O depoimento sem dano, dado a sua importância, fez com que projeto de lei que busca instituir um novo código de processo penal, tenha uma sessão especial para o procedimento da inquirição de crianças e adolescentes.
Conforme pode-se notar, a redação do Art. 197-A do projeto de lei n 4.126, de 2004, que originou o depoimento sem dano:
Art. 197-A. Far-se-á a inquirição judicial de criança e adolescente, vítima ou testemunha, quando se tratar de crime contra a dignidade sexual, na forma prevista nesta Seção e com os seguintes objetivos:
I – Para salvaguardar a integridade física, psíquica e emocional do depoente, considerada a sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento;
II – Por motivo de idade do depoente, para que a perda da memória dos fatos não advenha em detrimento da apuração da verdade real; III – Para evitar a revitimização do depoente, com sucessivas inquirições sobre o mesmo fato, nos âmbitos criminal, cível e administrativo.
O depoimento sem dano foi pensado como maneira de proporcionar um espaço mais preparado e apropriado para criança, além de ser uma forma de fazer valer seu depoimento nos autos, pois a grande dificuldade encontrada nestes casos é a carência de provas (TUCCI, 2018)
Tal prática viabiliza uma oportunidade de depoimento oferecida, não sendo obrigatória, à criança em circunstâncias especiais, em um espaço adequadamente apropriado (com brinquedos etc.), onde um profissional especializado por diversas vezes um psicólogo, faria as perguntas repassadas pelo juiz, de maneira a explicar para a criança com uma linguagem mais correspondente (TUCCI, 2018).
O chamado depoimento sem dano estabeleceu um método alternativo de se inquirir crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual, ou testemunhas de um delito sexual, de modo que sua criação e implementação, se deu pelo juízo da 9º vara criminal da comarca de Porto Alegre, sendo o Estado do Rio Grande do Sul, precursor, no que diz respeito a essa técnica inovadora (MARTINS, 2018).
O projeto foi criado em abril de 2003 e teve como intuito preservar a integridade física e mental da criança, possibilitando um ambiente mais acolhedor, com profissionais capacitados para a obtenção do depoimento, conduzindo-o de maneira mais informal e com uma fala mais adequada ao entendimento da criança.
Estes profissionais devem, antes de mais nada, lidar com suas próprias atitudes em relação ao sexo e ao abuso sexual da criança, bem como sua capacidade de utilizar uma linguagem adequada para conduzir o depoimento da melhor forma possível (FURNISS, 1993).
O procedimento adotado é realizado em uma sala em separado do juiz, do promotor de justiça, do defensor e do réu, é gravado e transmitido ao vivo em tempo real, através de câmeras de monitoramento. A sala é em algumas vezes decorada com almofadas e a criança fica sentada ao lado da Assistente Social ou psicólogo, o qual tem por objetivo a obtenção do depoimento.
A criança ou adolescente é ouvida em uma sala reservada, evitando o enfrentamento com as partes no processo. Através de um ponto eletrônico, as perguntas do juiz, do promotor e dos advogados, são passadas ao profissional da área psicossocial, e, assim, o profissional repassa para a criança de um modo adaptado, evitando dano a ela (ZANATTA, 2018, p. 67).
Para que as finalidades do projeto sejam adquiridas com maior facilidade, é de suma importância que o técnico entrevistador facilite o depoimento da criança. Para melhor concretização, é preferível que o entrevistador tenha habilidade em ouvir, tenha paciência, empatia e que acima de tudo tenha capacidade de deixar o depoente à vontade durante o depoimento (CEZAR, 2007, p. 68).
Nota-se, de imediato, que as finalidades do projeto são bem práticas e esquematizadas. Acontece que, já em sua terminologia existe um equívoco, uma vez que impossível reviver um trauma sem que qualquer dano seja gerado (GOMES, 2010, p. 133-150). Esta prática, o que se busca é minimizar os danos, aliado a outros acompanhamentos e fatores ministrados à criança pelo princípio de justiça.
Para que o projeto seja uma saída viável deveria ser mais do que necessário (e sim obrigatório, no mínimo) recursos humanos suficientes (equipe técnica especializada) e de infraestrutura, a fim de que não se aumente e explore o dano já causado à criança ou ao adolescente e, além do mais, relativize as garantias constitucionais do acusado. As dificuldades ainda existentes, principalmente nas comarcas do interior, passam a “manchar” a ideia principal do projeto do Depoimento Sem Dano. Não obstante, o projeto ainda não possui respaldo legal, o que, para parte da doutrina, torna flagrantemente escancarado o desrespeito do procedimento utilizado no que guarda relação com o princípio da legalidade (CAMARGO, 2011, pp. 10-11).
Na teoria esta praticada chamada depoimento sem dano, é algo que visivelmente teria ótimos resultados com reflexos favoráveis nas decisões judiciais, com intuito de promover a justiça da forma mais adequada possível.
Porém, muito vem sendo discutido acerca deste tipo de prática, principalmente o aspecto ético envolvendo a função do psicólogo. O Conselho Federal de Psicologia pronunciou-se de forma negativa, como se observa nas seguintes palavras:
O Conselho Federal e a Comissão Nacional de Direitos Humanos sugerem que a Justiça construa outros meios de montar um processo penal e punir o culpado pelo abuso sexual de uma criança ou adolescente, pois não será pelo uso de modernas tecnologias de extração de informações, mesmo com a presença de psicólogos supostamente treinados, fora de seu verdadeiro papel, que iremos proteger a criança ou o adolescente abusado sexualmente e garantir seus direitos (BRITO, 2008, p. 118).
É notório as controvérsias e opiniões distintas de ambas as partes, com relação a está pratica que vem sendo adotada nas comarcas, porém deve ser feita uma análise a partir de um todo, com relação a boa qualificação e preparação do profissional que irá coletar o depoimento da criança.
Com profissionais altamente preparados e com experiência em casos semelhantes, a obtenção de respostas será mais eficiente, de forma a conduzir o procedimento com clareza e objetividade, não induzindo o depoimento da criança.
Por fim, este procedimento é inegavelmente importante no que tange ao desenrolar da instrução criminal e a sua total eficácia na resolução do problema. Mas a sua aplicabilidade ainda necessita de melhorias e aperfeiçoamento, no que se refere a coleta de depoimento e ao profissional que estará no exercício da função. Dessa forma, conclui-se que se o procedimento for bem aplicado minimizaria as contradições e solucionaria o grande problema que é a obtenção de provas nos crimes sexuais.
CONCLUSÃO
O tema desta pesquisa desenvolveu-se no sentido de estampar aspectos polêmicos do estupro de vulneráveis na dificuldade da produção de provas, dando destaque aos menores de 14 anos.
Foi explanado sobre a alteração da Lei nº 12.015, de 07 de agosto de 2009, o que foi de grande valia na seara penal, no que diz respeito a qualificação e exemplificação da conduta criminosa. Porém cabe ressaltar que apesar das mudanças, ainda restam lacunas de incertezas e disparidade no dispositivo legal, o qual de certa forma dificulta o trabalho dos juristas.
Ainda, foi feito uma análise abrangente sobre a conduta do agressor, que apresentou-se na maioria das vezes um membro da família, ou alguém próximo a ela. O que também dificulta o crédito dos acontecimentos delituosos, por se tratar de pessoa relativamente confiável.
Caracterizado o abusador, foi apresentado índices de estupro de vulnerável absurdamente altos no pais e no estado do Rio Grande do Sul, através de ocorrências policias é possível ter uma visão mais sucinta dos números de estupro acontecidos nos últimos anos. Cabe frisar que os números são baseados apenas nos registros, mas ainda existem muitos casos que não vem à tona, os quais permanecem na clandestinidade.
Como já elencado anteriormente, o crime de estupro de vulnerável é na maioria das vezes cometido as escondidas, sem testemunhas, e por vezes, quando
caracterizado o abuso diverso da conjunção carnal, a produção de provas torna-se insuficiente para chegar a uma conclusão de autoria delitiva.
Os métodos que vem sendo adotado para a produção de provas são os mais variados possíveis, porém entre alguns deles, cabe destacar os mais importantes que seriam, o exame pericial, a prova testemunhal e o depoimento da criança. Em alguns casos quando o abuso caracteriza-se como diverso da conjunção carnal, a prova pericial não obtêm eficácia, então resta o depoimento de testemunhas que poderiam ter presenciado os fatos, mas como já explanado anteriormente esse crime, é supostamente cometido sem a presença de terceiros.
Quando não há mais nenhum meio probatório eficaz para desvendar a prática delitiva, é coletado o depoimento da criança vítima do abuso. A chamada metodologia do Depoimento Sem Dano incidiria na mudança do depoimento das vítimas de abuso sexual do ambiente formal das salas de audiência, para uma sala projetada para o acolhimento das vítimas.
O Depoimento Sem Dano, vem sendo adotado nas comarcas do pais, mas teve seu início no Estado do Rio Grande do Sul. Quanto a sua eficácia há muito o que ser discutido, não há dúvidas que a prática foi desenvolvida com intuito de melhorar o depoimento e facilitar para o julgador na hora da decisão final. Porém, a forma que vem sendo adotada precisa de aperfeiçoamento, sendo importante utilizar técnicas de inquirição que diminuam a sugestionabilidade, como o relato livre antes dos questionamentos, evitar a repetição de perguntas, deixar a criança mais à vontade, não impor opiniões. Neste sentido, também mostra-se de grande valia a qualificação do profissional que irá ministrar a tomada do depoimento.
É notório que lidar com crianças não e algo relativamente fácil, e lidar com crianças vítimas de abuso sexual é algo extremamente complicado, o profissional precisa ter um treinamento intensivo e já ter adquirido experiências com essa pratica do depoimento.
Este é um tema muito delicado que precisa ser tratado com muita delicadeza e analisar minuciosamente as provas obtidas, levar em consideração o depoimento
da criança é muito importante, mas ser coletado de forma adequada e clara este depoimento é mais importante ainda, pois se trata de vidas que por um erro podem acabar injustiçadas.
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