4.7 DA OBTENÇÃO DE PROVA
4.7.2 Depoimento sem Dano
Uma das questões mais complexas é a posição dos vulneráveis como testemunha no processo penal. É comum que sejam chamadas para depor e contar sobre a situação de violência sexual que sofreram. Mas, nessas situações, o processo de inquirição comum pode aumentar a violência que elas passaram.
78 NUCCI, 2014, p. 44
79 JURISPRUDÊNCIA em Teses destaca relevância da palavra da vítima de estupro. Superior Tribunal
de Justiça. 11 out. 2018. Disponível em:
<https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias-antigas/2018/2018-10-11_11-07_Jurisprudencia-em-Teses-destaca-relevancia-da-palavra-da-vitima-de-estupro.aspx>. Acesso em:
23 abr. 2021
Para que não ocorra o que Bitencourt chama de “violência secundária”
(violência institucional do sistema processual penal, fazendo as vítimas vulneráveis, novas vítimas), deve-se observar um aprimoramento no modo de investigação80.
Tendo nesse procedimento o acompanhamento de terapeutas, assistentes sociais, psicólogos e psiquiatras para que os ofendidos tenham o necessário tratamento e preparação apropriada para o sistema investigatório.
As audiências devem ter uma linguagem de fácil entendimento (sem a linguagem tradicional de audiências, delegacias e gabinetes do Ministério Público), devem ser informais e distintas, afinal os moldes tradicionais de uma audiência amedrontam as pequenas vítimas, além das perguntas que são feitas, às vezes, de forma agressiva.
Bitencourt defende que é necessário a criação de salas paralelas a sala de audiência, onde as vítimas ficariam acompanhadas dos profissionais já mencionados, sendo vistos através de uma sala de vidro pelo juiz, Ministério Público e defensores, as perguntas são direcionadas e essas pessoas que acompanham os vulneráveis, que brincando ou conversando fazem as perguntas a elas, sem parecer uma investigação81.
Esse método é chamado de depoimento sem dano, portanto fazendo esses procedimentos ocorre a redução de danos causados as vítimas no processo penal. É essencial o entendimento de que antes de objeto de investigação e meio de prova, os vulneráveis são sujeitos de sujeitos de direito, que sofreram abusos e estão frágeis.
Em outros termos, que a proteção de menores vulneráveis, neste art. 217-A, não sirva para que as autoridades repressivas (Ministério Público, Polícia e Poder Judiciário) ampliem a revitimização secundária sobre os menores vítimas da violência sexual, que ora se pretende reprimir. Espera-se que o Estado aprimore seus meios investigativos/repressivos, com técnicas mais avançadas e material humano mais bem preparado, oferecendo as condições necessárias a um combate mais eficaz a esse tipo de criminalidade, sem revitimizar quem já sofrera a primeira violência, que a função preventiva não foi capaz de evitar.82
Nucci também defende o depoimento sem dano em seu livro. A questão importante desse procedimento se centraliza na coleta das declarações das vítimas.
Ele comenta alguns elementos que devem ser considerados. Em primeiro, a
80 BITENCOURT, 2020, p. 112
81 Ibid., p. 113.
82 BITENCOURT, 2020, p. 115.
veracidade nas exposições feitas pelo ofendido, tem crianças que costumam fantasiar e criar histórias aumentando o que realmente aconteceu para encaixar a situação vivida por ela, mas as vezes relata a veracidade da história. Posto isso, o magistrado deve combinar o depoimento feito e o que contém nos autos para formar o seu convencimento83.
Ainda nesse quesito da veracidade, há pais ou responsáveis que induzem vulneráveis a narrar algo que não aconteceu ou indicar o acusado como autor do delito, quando na verdade não houve malicia alguma entre os dois. Quando o vulnerável é adolescente seu depoimento é mais confiável a depender do seu comportamento.
Outro ponto que autor cita é o trauma gerado pelo crime e que pode ser reproduzido pelas perguntas feitas pelo juiz. Neste tópico ele defende que o ofendido deve ser preparado e acompanhado por psicólogos, assistentes sociais, psiquiatras.
O depoimento seria colhido por esses profissionais em uma sala especial, não expondo de forma pública o vulnerável e os magistrados acompanham em tempo real, através de vídeo.
Pode ser um método criativo de contornar o problema, evitando que a criança sofra a pressão natural do depoimento formal, em ato processual solene. Uma criança em tenra idade (5 anos, por exemplo) pode abrir-se mais facilmente diante do profissional de psicologia; uma criança com 11 anos, entretanto, pode ter condições de se manifestar diretamente ao juiz.84
Esse tema abrange mais um ponto, o confronto direto entre a palavra do vulnerável e do acusado. Nessa questão, não tem que ter uma postura absoluta, nenhum prevalece sob o outro. Em regra, valora-se desse confronto as entrelinhas das declarações de ambos e coletar as informações consideradas relevantes para que se chega em uma solução.
É indiscutível que haverá contradições entre o ofendido e o acusado em confronto com as provas juntadas aos autos, chegando à conclusão de quem forneceu as declarações mais fáceis de se acreditar, independentemente de ser a vítima ou réu.
83 NUCCI, 2014, p. 120.
84 NUCCI, 2014, p. 120.
O último elemento que Nucci comenta são os princípios constitucionais, da prevalência do interesse do acusado85. Apesar de crimes sexuais contra vulneráveis ser delito grave, não se pode deixar de lado o princípio constitucional in dubio pro reo (prevalência do interesse do réu). Logo se houver um confronto integral entre as palavras da vítima e do acusado, é aconselhável mover a absolvição.
Diante desse assunto, tem-se essas jurisprudências:
APELAÇÃO CRIMINAL. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. AÇÃO CAUTELAR DE PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS. OITIVA DA VÍTIMA PELO SISTEMA DO DEPOIMENTO SEM DANO. INEXIGIBILIDADE PROCEDIMENTAL NO CASO CONCRETO. Nada obstante a idade da possível vítima de abuso sexual, no caso concreto não se mostra obrigatória a oitiva da criança sob a modalidade do depoimento sem danos, porquanto evidenciado nos autos que o Ministério Público objetiva a produção antecipada de provas, isto é, ainda durante as investigações preliminares, com um único e exclusivo intuito de angariar elementos para seu próprio convencimento e ingresso de eventual ação penal. O DSD é técnica que visa a evitar o dano secundário, não se constituindo fundamentalmente em novo e mais ágil meio de investigação preliminar.86
APELAÇÃO CRIME. ESTUPRO. VÍTIMA COM 3 ANOS DE IDADE. MEDIDA CAUTELAR DE PRODUÇÃO ANTECIPADA DE PROVAS. [...] A sistemática do chamado ‘depoimento sem dano’, com a ouvida das vítimas através de profissionais da área social e psicológica, tem fundamento e empresta concretude à proteção integral da criança ditada na Constituição Federal e pelo ECA. Prevalência do direito fundamental das crianças e dos adolescentes à proteção em detrimento do direito fundamental a um processo mais célere. Princípio da ponderação dos direitos fundamentais em conflito.
Entendimento que aceita temperamentos, devendo a necessidade da ouvida pela sistemática do ‘depoimento sem dano’ ser aferida no caso concreto [...].87 APELAÇÃO CRIMINAL. CÓDIGO PENAL. ART. 217-A, CAPUT, C/C ART.
61, INCISO II, ALÍNEA F, NA FORMA DO ART. 71, CAPUT. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. CONTINUIDADE DELITIVA. ABSOLVIÇÃO. INSURGÊNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO. SENTENÇA REFORMADA. AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS. No caso concreto há elementos de prova suficientes a fundamentar um juízo condenatório no que tange ao crime de estupro de vulnerável. A vítima, que contava com apenas 3 anos de idade à época dos fatos, relatou, através do método do depoimento sem dano, que o acusado fez ‘xixi e cocô’ em sua boca. O depoimento da vítima foi corroborado pelo testemunho de sua genitora, para quem ele contou detalhes acerca dos fatos, bem como pelo depoimento de seu genitor, restando claro que o acusado colocava o pênis na boca da vítima, vindo a ejacular. Soma-se a isso que a vítima apreSoma-sentou sintomas e indícios compatíveis com a hipótese de abusos sexuais, situação que foi confirmada na avaliação psíquica realizada, bem como no parecer psicológico. Ademais, tratando-se de crime que, por sua própria natureza, é praticado fora das vistas de
85 Loc. cit.
86 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Apelação Criminal nº 70043515832. Relator: Des. José Conrado Kurtz de Souza. Julgamento: 01 set. 2011. Publicação: 14 set. 2011.
87 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Apelação Criminal nº 70043626472. Relator: Des. Fabianne Breton Baisch. Julgamento: 07 dez. 2011. Publicação: 25 jan.
2012.
testemunhas, a palavra da vítima é de vital importância para a determinação da materialidade e da autoria do delito. Sentença absolutória reformada.
Recurso provido.88
Para que tenha provas necessárias para a acusação ou para a absolvição, deve-se buscar as formas morais legítimas, com ideias firmes em prol da cidadania, dignidade da pessoa humana e, sobretudo, garantia do direito dos vulneráveis. Para que não seja necessário arrancar a resposta da vítima que sofreu a violência.
88 RIO GRANDE DO SUL. Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. Apelação Criminal nº 70058901505. Relator: Des. Lizete Andreis Sebben. Julgamento: 14 mai. 2014. Publicação: 20 mai.
2014.
5 CONCLUSÃO
Ao decorrer dos últimos anos, o número de casos e denúncias de estupro de vulnerável teve um grande aumento, fazendo com que esse tipo de assunto fosse muito abordado pela mídia.
Com base no que foi exposto no desenrolar de todos os capítulos e durante todo o trabalho de pesquisa, pode ser observado que o estupro é um crime muito antigo e grave que sempre foi punido de forma severa, levando em consideração os costumes e a cultura da sociedade de cada época.
Notou-se que antes da Lei 12.015/09 o estupro de vulnerável era praticamente inexistente, era algo de forma mais genérica, tal como defloramento e sedução da mulher. Somente no Código Imperial de 1830 que foi denominado estupro incluindo além da conjunção carnal, delitos com conteúdo sexual. Com a promulgação do Código Penal em 1940, o crime de estupro estava no título de crimes contra os costumes. Doutrinadores começaram a discutir sobre a presunção de violência contida no art. 224 do mesmo código.
Com o advento da Lei 11.106 os crimes de estupro e atentado violento ao pudor em sua forma simples foram considerados crimes hediondos, em relação ao estupro todas as suas formas, simples e qualificadas, foram reconhecidas como hediondos. A consumação aconteceria com a efetiva conjunção carnal, já para o delito de estupro de vulnerável é qualquer ato libidinoso, não tendo importância a penetração parcial ou total.
Com a vinda da Lei 12.015 de 7 de agosto de 2009 aconteceu uma mudança considerável no art. 231, CP, considerando nessa nova redação que homens também podem ser vítimas de estupro e o art. 224 do mesmo código que era utilizado junto com o artigo citado anteriormente, foi revogado.
A maior mudança foi incluir o art. 217-A no CP, que diz respeito ao estupro de vulneráveis, que são as crianças menores de 14 anos, pessoas com enfermidade ou deficiência mental e pessoas que por qualquer outra causa não consigam oferecer resistência. Também mudando o Título IV de crimes contra os costumes para crimes contra a dignidade sexual.
Dando ênfase a dignidade da pessoa humana, um princípio constitucional regente, de grande importância, o respeito a esse princípio faz a harmonia das liberdades individuais. Quando ocorre a relação sexual sem consentimento com
vulneráveis, vai violar a respeitabilidade, autoestima, intimidade e a vida privada da vítima. Posto isso, a dignidade sexual deve ser protegida pelo Estado.
Esse crime pode se dar de forma tentada, mas é difícil a comprovação. Mudou a sua forma de consumação, bastando acontecer qualquer ato libidinoso. As mudanças foram recebidas de forma positiva pelos doutrinadores e cidadãos.
Assim, como todo esse processo afeta muita os ofendidos, a forma para obtenção de prova deve ter todo cuidado e atenção dos profissionais envolvidos, adotando o depoimento sem dano. Por serem casos delicados envolvendo a dignidade sexual, são tratados em Segredo de Justiça. STJ diz que a palavra da vítima é de grande relevância.
A Lei 12.015 trouxe melhorias ao desenvolvimento da sociedade em busca da proteção da dignidade sexual dos vulneráveis e rompeu traços deixados pelos povos antigos.
REFERÊNCIAS
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