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Depoimentos dos professores efetivos que participaram do processo de

7 O PERCURSO FORMATIVO DOS PROFESSORES: A DOCÊNCIA

7.3 Representações Sociais sobre o professor universitário

7.3.3 Depoimentos dos professores efetivos que participaram do processo de

No quarto capítulo foi tratada a implantação do Reuni. Entretanto, também foram realizadas cinco entrevistas com professores envolvidos nesse processo. Os professores entrevistados34 responderam, além das questões

referentes ao Reuni, a seguinte pergunta: ‘O que é ser professor(a) universitário(a)?’. As respostas foram gravadas, transcritas, os conteúdos analisados e apresentados a seguir. Não foram utilizados recursos tecnológicos como os softwares aplicados anteriormente, devido ao pequeno número de entrevistados e às peculiaridades das respostas.

O primeiro entrevistado35 ressaltou a influência recebida dos seus professores, durante a graduação cursada no final da década de 1960, para a sua atuação docente. Uma especial lembrança de um ‘bom professor’ foi marcada pela maneira como ele se relacionava com os alunos, proporcionando apoio e estímulo, e pela disponibilidade e dedicação, conferidas pelo tempo que diariamente permanecia na faculdade, ao contrário da maioria dos professores, conforme avalia. Não fez distinção entre os professores daquela época e os de hoje quanto à forma de ser e atuar. Segundo o entrevistado, em qualquer tempo, “há professor que pouco se incomoda com o quê ou para quê está em sala de aula”; alguns têm por princípio que “o aluno nunca vai chegar aos seus pés”, e outros, são considerados por ele como bons professores, por serem pessoas comprometidas, exigentes e preocupadas com a formação profissional de seus alunos. Na opinião do entrevistado, há pessoas que têm certo compromisso ou descompromisso por causa do interesse próprio, menor ou maior, por aquilo que eles mesmos estão a fazer, e explicou:

Se no caso, ao ocupar um cargo público numa instituição federal representar apenas uma oportunidade de acesso a outras instituições por causa da grife, a sala de aula torna-se uma coisa menor. Em outro caso, são pessoas que desempenham todas as atividades com o mesmo grau de compromisso e de responsabilidade. A diferença era que na década de 60 os professores eram um pouco mais formais, alguns iam dar aula de terno. Hoje, as coisas são mais largadas, às vezes, é difícil saber quem é o professor e quem é o aluno, mas nem melhor nem pior, apenas diferentes. (Depoimento do professor entrevistado 1)

primeiro esclareceu que participou apenas da reunião inicial da equipe de discussão da proposta do Reuni e informou os nomes de alguns professores que fizeram parte da equipe. Os cinco responderam a pergunta ‘O que é ser professor(a) universitário(a)?’

35 As informações foram atribuídas aos entrevistados e enumeradas pela ordem de ocorrência

seja uma das profissões mais complexas que exista, tendo em vista o que o professor pode fazer, o tipo de identidade que pode assumir. Assim, cabe ao professor universitário perguntar a si mesmo se o que está a fazer deve ser mesmo o que faz. Ser professor universitário, para ele se confunde com o que a universidade é. Assim sendo, o professor deve procurar a resposta para o que a universidade vem a ser e o que é o ser estudante. Assim, o entrevistado considera que nem todos os professores deveriam fazer pesquisa e se tornar o grande nome da sua área de conhecimento, mas somente os que considerarem a pesquisa como o aspecto central da atividade universitária e se identificarem com o papel de pesquisador. Da mesma forma, nem todos os professores devem estar inteiramente disponíveis aos seus alunos de graduação todo o tempo, mas somente os que considerarem que este aspecto é relevante. Para ele, essa diversidade de situações conflitantes, muitas vezes não sem atritos, não sem polêmicas, compõe esta multiplicidade de questões. Segundo ele, “quem não representa o professor universitário propriamente dito seria aquele que vem burocraticamente dar suas aulas e pronto”.

O terceiro entrevistado ponderou que, no contexto atual da realidade brasileira, o professor foi se constituindo pelo gosto de trabalhar com o aluno, ou seja, por características mais subjetivas. Considerou como precária a dimensão mais profissional do ser docente do ensino superior, principalmente na rede pública. O processo de expansão proposto pelo Reuni exige desse professor mais profissionalismo, uma atuação docente mais objetiva. Tornou-se necessário avaliar as próprias propostas de ensino e se repensar o modelo de ensino superior adotado ao longo dos tempos. O entrevistado avaliou que a universidade, nos últimos tempos, passou por períodos de desnível entre a pesquisa e o ensino, com mais rigor e critérios de avaliação para a pesquisa e pouca exigência para o ensino, que seguiu as características de cada professor. Para ele, não é possível para o ensino superior, no estágio que está hoje, prosseguir assim, pois se tornou necessário um investimento na formação desse profissional, para se ter clareza e consciência de se ocupar uma vaga de docência de ensino superior, como um lugar de valor, que a sua atuação tem

vezes, se perde no meio de modelos de docência adotados de forma subjetiva, que permitem ao professor não ter clareza do papel que desempenha para seus alunos.

O investimento na formação docente, segundo esse entrevistado, tornou-se essencial para se pensar a formação profissional e as propostas de ensino e se recuperar tanto o valor do papel do professor, como o do lugar institucional que ele ocupa, e que pode resultar na busca do equilíbrio entre o ensino e a pesquisa. Para ele, não basta só usar a tecnologia e elaborar um bom plano de ensino, mas resgatar a consciência de que o professor tem uma centralidade no seu fazer profissional.

Numa postura filosófica, ao ser interrogado sobre o que é ser professor universitário, o quarto entrevistado fez a seguinte ponderação:

A universidade é uma confiança que move a razão humana. A universidade é uma instituição que significa que nós temos alguma coisa mais além da violência para construir a nossa vida e a sociedade. Uma oportunidade para criar sociedades mais justas, mais desenvolvidas, mais humanas, com base em tudo aquilo que aproxima a todos nós que somos humanos que é a racionalidade, a razão aberta, com chances de ser revisada, uma razão que não cessa de argumentar, porque, se a razão cessar de argumentar e a universidade sair de cena, o que teremos serão instituições que irão contar com o poder político ou com a violência. (Depoimento do professor entrevistado 4).

Assim sendo, segundo ele, o professor é o sujeito encarregado de receber e de transmitir valores condizentes com a confiança no futuro e a crença no papel da educação, de um modo geral, para fazer pessoas melhores. Sem fazer distinção entre o professor da educação superior e de outros níveis de ensino, esse entrevistado considerou que todos têm a mesma missão, ou seja, “mostrar que o conhecimento amplo, alargado, idealizado, transformado, é uma fonte de humanização”. Para ele, todos devem tentar sempre atingir esse professor ideal, e cada um atinge isso com muita variação, às vezes mais, às vezes menos, como avaliado pelo primeiro entrevistado. De forma semelhante ao segundo entrevistado, ele defendeu que a compreensão do que é a universidade, fornece os recursos para compreender o que é ser um

todos entendem bem o que é ser um pesquisador, mas não compreendem o que é ser um professor. Se têm dificuldade em compreender o que é ser um professor, têm dificuldade de ser um bom professor, de formar bons professores, e concluiu: “Falta uma clareza com relação ao papel humano e humanizante do professor. Vale à pena conversar sempre sobre isto: quais são os ideais que estão por trás desta profissão e do conhecimento?”.

O último entrevistado trouxe elementos que o aproxima dos dois primeiros ao afirmar que “o professor universitário tem que ser uma pessoa que gosta de ensinar”. Alegou ainda que ensinar não é postar-se na frente dos alunos e falar exageradamente, mas é gostar de se relacionar com as pessoas que, em tese, têm menos conhecimento de determinada teoria e de sua prática, e, ao mesmo tempo, aprender com elas. Para ele, o professor universitário tem uma peculiaridade que o distingue do professor da educação básica, pois além do ensino, pratica a pesquisa e a extensão, como novas formas de se relacionar com a sociedade.

Convergindo para as opiniões apresentadas nas entrevistas anteriores, esse entrevistado percebeu mudanças que distinguem os professores do seu tempo da graduação, na década de 1970, dos seus contemporâneos da docência nas décadas de 1980 e 1990, e dos professores de hoje. Os primeiros possuíam ampla prática profissional e praticamente nenhuma experiência com pesquisa. Saíam do consultório ou do escritório para dar aulas, com dedicação de 20 ou 40 horas para o ensino. A partir de sua entrada como docente, na década de 1980, houve uma mudança significativa, pois era incentivada a entrada de professores com dedicação exclusiva, para realizar atividades de pesquisa e para tornar atraente a carreira do professor na universidade, pois era uma época em que isso estava em baixa. O papel de professor universitário passou a ser ocupado por pessoas com pouca prática profissional, que se titulavam, paralelamente ao exercício da docência, mas na opinião do entrevistado, nem sempre se qualificavam para exercer a atividade de ensino.

marcante entre os docentes de diferentes épocas constatadas na prática e confirmada pelos entrevistados. Há de se encontrar uma forma de valorizar o professor por meio do ensino que pratica, afirma o último entrevistado. A questão da valorização do professor pela CAPES, com maior exigência para pesquisa e publicação, deixou o ensino de graduação em segundo plano na universidade. O professor perdeu o pilar essencial de sua existência, que é o ensino de graduação. Esse entrevistado avaliou ainda que as políticas universitárias atuais beneficiarão o professor que gosta e que quer assumir mais aulas, pois a expansão e a reestruturação universitária propostas pelo MEC são favoráveis à valorização do ensino de graduação e caminharão para o equilíbrio entre pesquisa, extensão e ensino. Sua opinião veio ao encontro da do terceiro entrevistado ao declarar: “Eu posso ser mais pesquisador, menos professor, mas tem que ter outro que seja mais professor e menos pesquisador, pra poder se dedicar ao ensino. Não acho que todo mundo deva se dedicar a tudo”. Ele ponderou que em determinadas áreas do conhecimento, como na área da Saúde, o equilíbrio entre o ensino e a pesquisa é mais viável, pois possuem projetos extensionistas. A extensão favorece o ensino e a pesquisa na medida em que permite o contato com a realidade e amplia a relação entre a teoria e a prática.

Embora na opinião do primeiro entrevistado não haja mudanças na forma de ‘ser professor universitário’ quanto à postura e aos compromissos assumidos com maior ou menor intensidade, houve modificações na forma de ensinar, condizentes com as políticas universitárias adotadas após a Reforma de 1968 e os modelos universitários que influenciaram essa Reforma. Distinguiram-se três modelos de docência universitária, como definido pelo último entrevistado: o primeiro, referente aos professores com muita prática profissional, que davam aulas além de exercer a profissão, e se tornaram referência para os graduandos, pois possuíam domínio de sua área profissional; o segundo modelo refere-se ao professor com dedicação exclusiva, que passou a dividir seu trabalho em ensino, pesquisa e extensão, enquanto investia em sua formação durante a sua atuação na universidade; o

titulação de doutorado, mas sem a formação necessária para dar aula, sem nenhuma ou pouca experiência profissional, adquirida no mercado de trabalho somente enquanto se titulava ou que tenha trocado um emprego pela bolsa de pesquisa e se dedicado somente a ela.

8 O CURSO FORMAÇÃO EM DOCÊNCIA DO ENSINO