Capítulo II: Procedimentos conciliatórios
2 Subcomissão da Família, do Menor e do Idoso
2.1 Características gerais dos constituintes e o início conciliado
2.1.1 Deputados evangélicos e a política da CNBB
Organizei os parlamentares evangélicos como Bancada Evangélica, ainda que esta classi- ficação seja problemática. O agrupamento foi realizado a partir da afinidade religiosa e da identi- dade comum percebida: apresentaram como característica a homogeneidade de posicionamentos políticos, especialmente sobre os temas morais. Embora de difícil tipificação, desde os anos 1990 a literatura brasileira classifica os evangélicos como tradicionais, pentecostais ou neopentecostais103.
Nesta pesquisa, que lida com a atuação parlamentar ocorrida na década anterior, suprimi estas es- tratificações. Todavia, algumas triagens foram necessárias, uma vez que o consórcio evangélico es- tava composto por líderes religiosos ou seguidores. As lideranças – bispos ou pastores – pertenciam às igrejas Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus. Os batistas ou adventistas não tinham cargos de direção nas suas instituições. Declaravam-se apenas fiéis.
Apesar de representarem baixa percentagem dentre as ocupações dos parlamentares no geral (06/539), os pastores constituíram o principal grupo dentro da Subcomissão. São figuras desti-
tuídas de heranças políticas e sociais, que construíram suas trajetórias alicerçadas sobre o capital religioso – como Roberto Augusto, João de Deus Antunes, Eliel Rodrigues e Sotero Cunha. Além deles, identifiquei fiéis qualificados. O cantor gospel Matheus Iensen financiava sua igreja, en- quanto outros deputados utilizavam o rádio e a televisão para difundir a doutrina religiosa (Pierucci, 1989, p. 104-132; Rodrigues, 1987, p. 137-150; e Freston, 1993, p. 235-237; FSP, Caderno Espe- cial, 19/01/1987).
Metade dos titulares da Subcomissão não era católica, embora cristã. Ou seja, 50% (08/16)
dos deputados eram evangélicos. Trata-se de número expressivo, se considerado o percentual de seguidores, que conferia peso ao grupo. Ademais, esta força religiosa é potencializada com a presença recorrente de outros pastores – como o dep. Fausto Rocha.
Antônio Flávio Pierucci, ao investigar os bolsões do conservadorismo, foi pioneiro no exame dos evangélicos no Legislativo. Publicado no final dos anos 1980 na Revista Ciências Sociais Hoje, o artigo Representantes de Deus em Brasília identificou “apostolados parlamentares”. Isto porque os evangélicos, “durante muito tempo sustentando suas crenças longe da arena política,
pretendiam que seus pontos de vista religiosos, minoritários em um país de tradição católica [...], tivessem sua normatividade imposta, via Constituição, a todos os brasileiros” (1989, p. 105)104.
Já Paul Freston, em extenso estudo sobre os evangélicos da Constituinte ao impeachment de Collor, afirma que suas mobilizações “não são frutos de iniciativas descoordenadas. Quase me- tade dos parlamentares protestantes pós-1987 são candidatos de igrejas pentecostais, uma modali- dade inédita [de ação política]”. Enxergavam o mandato como um desígnio do Povo de Deus, uma missão. Versados na cartilha Irmão vota em irmão105, apoiaram-se em leituras bíblicas para justificar
suas candidaturas (1993, p. 180-181; 212-213).
Sendo assim – ainda que passível de verificação dentre os protestantes tradicionais, a prática de angariar votos nas comunidades religiosas se manifestou, explicitamente, nas seitas menos estabelecidas: “a politização pentecostal visa fortalecer as lideranças internas, proteger as fronteiras da reprodução sectária, captar recursos para a expansão religiosa e disputar espaços na religião civil” (Freston, 1993, p. 181).
Nos 1980, a imprensa denunciava o comportamento desses evangélicos em ascensão po- lítica. A Veja interpretou-os como “o que há de mais conservador em matéria de religião. Pelo figurino ortodoxo, não podem dançar, nem fumar, nem beber. Não devem usar roupas de banho, leem quase que exclusivamente livros religiosos [e] rezam pelo menos duas vezes ao dia”. Os exage- ros do periódico devem ser colocados em suspeição; mas a revista não deixa de veicular uma imagem corriqueira atribuída aos tradicionalistas religiosos que atuaram no Congresso (1987, p. 49-51).
Os evangélicos pregavam o discurso da moralidade nas relações domésticas, aproxi- mando-se da militância católica. Porém, quanto à organização jurídica da família, diferenciavam-se por não condenar o divórcio. Seguiam boa parte das diretrizes de seus concorrentes no campo reli- gioso, mais estabelecidos no campo político, mas articulavam repertório próprio que, muitas vezes, dialogava diretamente com o modelo de evangelismo norte-americano. É elucidativa a posição de um assembleiano: “A deformação da sociedade” [sic] ocorre por conta dos problemas familiares:
104 Pierucci descreveu sua linha de pesquisa: “Trata-se de perseguir e identificar os bolsões de conservadorismo, não entre as
elites econômicas e culturais mas entre as camadas populares. O que se busca são as bases sociais de apoio dos partidos, dos políticos e das plataformas de direita, e aí, nessas bases, as demandas e pressões, from below, por agendas políticas conser- vadoras. No encalço deste conservantismo desde abajo é que dirijo minha atenção para a mais recente manifestação de ativismo político-religioso de caráter conservador a emergir entre nós: os protestantes fundamentalistas” (1989, p. 106. Grifos meus).
Dep. Eliel Rodrigues: Seria de bom alvitre que lutássemos para a manutenção da família le- galmente constituída, mas vivemos uma outra realidade, à luz da própria palavra de Deus. Infelizmente, Deus fez o homem reto, mas dizem as Escrituras que ele vai buscar muitas ino- vações, e é o que nós estamos vendo. E, basicamente do ponto de vista moral, o homem real- mente contribui muito mais do que a mulher para a deformação desta sociedade, porque ele se vale dos seus anseios, da sua força, da sua maldade para destruir, e isto tem a força maligna que estamos vivendo nesses últimos dias. Deus, quando constituiu o lar, o fez de um só homem, para uma esposa só os abençoou e ordenou a frutificação, a proliferação da espécie. E tudo ia bem até o momento em que a sedução e o engano vieram, e a usurpação do inimigo buscou trazer o homem para distante de Deus [...]. Infelizmente ficamos desa- nimados de buscar soluções a luz da lei, mas ela não vai adiantar nada, infelizmente, por mais que se busque em leis justas, porque este homem não se sujeita a máxima lei de Deus, que é o amor ao próximo, o de amor a si mesmo, ele não vai alcançar as leis humanas e não vai respeitá- las. O que é lamentável (Sub. VIIIc, ata IV, p. 30. Grifos meus).
Contudo, a formação de uma aliança cristã não foi prevista no primeiro momento. Eram esperados conflitos entre católicos e evangélicos na Constituinte, uma vez que o modelo explicativo para o crescimento político dos protestantes fornecido pela CNBB atravessou conservadores e pro- gressistas – de D. Agnello Rossi a D. Pedro Casaldáliga (Freston, 1993, p. 05-13). Considerando que a Igreja abrigava disputas ferozes naquele momento, que opunham prelados com interpretações praticamente inconciliáveis, manter um argumento comum na luta religiosa significou muito. Ve- rifiquei sintonia semelhante entre grupos rivais na defesa da moral familiar. Aspectos referentes à manutenção institucional foram preservados, mesmo quando as visões de mundo dos religiosos, especialmente quanto à atuação social, eram diferentes.
Fugindo dessa interpretação que dá conta dos mecanismos de reprodução e manutenção da Igreja, a imprensa também nutria forte expectativa pelo combate entre políticos neopentecostais e católicos. Coletou discursos de bispos, como “D. Luciano Cabral Duarte, que na última Assem- bleia Geral da CNBB alertou seus colegas para a vantagem parlamentar dos evangélicos” (Veja, 01/07/1987, p. 49). Este movimento foi classificado por Freston como “irrupção neopentecostal no pleito 1986”, fenômeno foi acompanhado de perto pelas lideranças episcopais. Lançou uma analogia espirituosa: “já se disse que a família indígena é composta de pai, mãe, filhos e antropólogo [...]. Guardadas as devidas proporções, uma igreja pentecostal hoje é composta de pastores, segui- dores, Roberto Marinho, D. Luciano Mendes e dois ou três cientistas sociais” (1993, p. 6).
Pressionada pelo Vaticano acerca da participação dos evangélicos na política, a cúpula episcopal elaborou documentos relatando a situação em tom de denúncia, ainda que existissem vozes dissonantes dentro do clero. Porém, analistas consideram irrealista [sic] a interpretação de
algumas lideranças sobre as novas acomodações nos campos político e religioso: segundo o presi- dente da CNBB, o crescimento pentecostal resultava da crise do país. Para o arcebispo primaz, D. Lucas Moreira Neves, as seitas constituíam movimentos transitórios resultantes das falhas no traba- lho social católico (Jornal do Brasil, 05/02/1988 & FSP, 09/02/1988 apud Freston, 1993, p. 12).
D. Pedro Casaldáliga, claretiano, bispo do Araguaia e liderança pelos direitos humanos comunicou a presença internacional no financiamento das seitas. Conjecturou: “‘Dentro de duas ou três gerações, as pessoas se cansarão das seitas e estarão mais ligadas no materialismo, favorecendo aos interesses dos países do primeiro mundo’”(Jornal da Tarde, 18/04/1991 apud Freston, 1993, p. 13). Frei Betto aponta no mesmo sentido, ainda que com uma “explicação mais simples: ‘essas seitas preocupam à medida que são monitoradas pelos Estados Unidos, que têm a intenção de tornar o povo abnegado diante da miséria’” (Freston, 1993, p. 12-13).
Nas justificativas da CNBB para a arrancada evangélica foram retomados, até mesmo, ar- gumentos produzidos por D. Sebastião Leme na década de 1930: voltou à pauta o discurso sobre um possível complô contra os trabalhos da Igreja promovido por forças externas – ligadas ao pro- testantismo e ao empresariado estadunidense106. De qualquer maneira, ainda que recuperando sua
história e experiência, “a Igreja estava numa situação difícil. Sentia que precisava contra-atacar, mas, com toda a herança de igreja nacional, hesitava em entrar em cheio no mercado religioso” (Freston, 1993, p. 11-13).
Se por um lado a mobilização evangélica interessava aos líderes da CNBB, e era, inclusive um fator de unificação de discursos em defesa da instituição em disputa, por outro, a Igreja também sofreu investidas por parte dos evangélicos. Antônio Flávio Pierucci identificou o alvo dos protes- tantes: o secularismo católico. Utilizaram artifícios conservadores: “a retórica é religiosa, moralista e, explicitamente, bíblica [...]. Os símbolos são bíblicos e patriarcais: a família, o sexo, a mulher em seu lugar, o corpo da mulher, o estupro, o feto. Os adversários explícitos são a esquerda (dita ‘radi- cal’) e a CNBB com sua ética social secularizada”. Selecionou passagens proferidas pelos pastores
106 “Nos anos 1930, D. Sebastião Leme via a expansão do protestantismo como complô de milionários americanos [Mainwa-
ring, 1989, p. 60]. Nos anos 80 a teoria voltou à moda. A CNBB disse suspeitar que as ‘seitas’ se difundiam por obra da CIA [Veja, 19/07/1990]’” (apud Freston, 1993, p. 13).
Daso Coimbra (PFL/RJ) e Fausto Rocha (PFL/SP), que indicavam que “o grupo dos deputados evan- gélicos iria reagir à articulação dos constituintes de esquerda107” (Pierucci, 1989, p. 115).
Paul Freston explana, especificamente, sobre a boataria [sic] reproduzida pela imprensa mantida pelos evangélicos:
Tínhamos informações de que a CNBB estava com um esquema armado para estabelecer a
religião católica como a única religião oficial108. / [A Igreja Católica dará apoio] a deputados
católicos, ateus, comunistas e até satanistas desde que sejam contra os pentecostais109. / Recen-
temente, em uma cidade do Nordeste, determinado sacerdote católico disse a um pastor que os evangélicos, dentro em breve, não poderão mais pregar ao ar-livre, porque a futura Consti- tuição proibirá reuniões de caráter religioso em... logradouros públicos110 (Freston, 1993, p.
213. Grifos meus).
Lidos como armas da luta religiosa, os argumentos evangélicos ganham alguma validade. Porém, sob o prisma analítico, as críticas à política da CNBB não podem ser reduzidas a uma cruzada “contra os pentecostais”, como consta nos periódicos mencionados. Da mesma forma, o modus operandi católico não pode ser condicionado como um erro tático [sic] na estratégia de inserção política – como afirmou Antônio de Jesus, deputado cuja única contribuição na Constituinte foi conseguir “que o Regimento Interno mandasse abrir sempre uma Bíblia sobre a mesa dos trabalhos” (Veja, 01/07/1987, p. 48).
O apoio aos candidatos comprometidos com os dogmas das lideranças clericais, indepen- dente deles professarem a fé católica, data de muito antes da última Assembleia. A Liga Eleitoral Católica receitava este modelo de ação, posto em prática em outras constituintes e contextos111.
Como esperado, por se tratar de um jurista católico de primeiro nível, Plínio de Arruda Sampaio (PT/SP) saiu em defesa da atuação do seu grupo. “Advogado da estratégia da CNBB, ligado às comunidades eclesiais de base, um dos raros parlamentares que devem a maior parte de seus votos
107 “Nós, evangélicos, somos conservadores, graças a Deus. Não devemos incorrer no mesmo equívoco da CNBB, que tem
abandonado aspectos fundamentais religiosos para abordar questões de ordem ideológica, repetindo palavras de ordem como se fosse um sindicato” (Dep. Daso Coimbra apud Pierucci, 1989, p. 114. Grifos meus).
108 Entrevista com o pastor José Bezerra da Costa (Freston, 1993, p. 213. Nota de rodapé n. 17).
109 “Por que a Assembleia de Deus lançou candidatos em todo o Brasil”, Recife, out. 1986 (apud Freston, 1993, p. 213. Nota
de rodapé n. 18).
110 Mensageiro da Paz, jul. 1985, p. 12 (apud Freston, 1993, p. 213. Nota de rodapé n. 19). 111 Sobre a Liga Eleitoral Católica, cf. Citino (2006, p. 71-89; 2012, p. 151-188).
a seu vínculo religioso, oferece uma visão diferente [da evangélica]: ‘A Igreja Católica é uma insti- tuição pluralista’, diz ele”. Complementou: “Como instituição pluralista, a Igreja não pode impedir que essas pessoas expressem seus pontos de vista” (Veja, 01/07/1987, p. 49).
Além do mais, a inexistência de um partido próprio é outro indício da capilaridade da Igreja, ainda que houvesse tentativa de criar uma legenda católica – como o movimento organizado pela vitalista Sandra Cavalcanti. Esta divergência quanto ao modelo de ação política não se consti- tuiu como entrave nas relações da CNBB dentro do Congresso, particularmente nos temas morais como a família e a infância. Foram nas pautas estruturais que católicos e evangélicos mais divergi- ram. Assim, “a percepção comum era de que a Igreja Católica é mais progressista do que o conjunto de igrejas protestantes”. Porém, “ironicamente, as bandeiras comportamentais da CNBB encontram maior apoio parlamentar entre os protestantes. O maior contraste entre os grupos foi na reforma agrária e nos 5 anos” para Sarney (Freston, 1993, p. 247-248).
Antônio Flávio Pierucci indicou o alinhamento à direita dos evangélicos durante as vo- tações. Para além dos temas morais, examinou questões estruturais – como o apoio ao presidente José Sarney e o combate à reforma agrária (1989, p. 129-130)112. Saliento que, diferentemente dos
católicos, os deputados evangélicos não tiveram força política para ingressar na Subcomissão da Reforma Agrária. Em comum, os cristãos atuantes na Assembleia recorreram a argumentos religio- sos para debater a organização moral da sociedade. Fundiram a tribuna política ao altar. Todavia, associar esta postura apenas aos católicos ou evangélicos não exclui o fato de que a maioria dos expositores e deputados tinha visão parelha. Tal concordância foi explícita ou implícita, como na negativa em promover o Estado laico, moldado pelos princípios republicanos.
Atento para dois pontos. Primeiro: os debates foram nucleados pela proteção dos filhos, independente de qual fosse o tema proposto para a reunião. Segundo: as defesas religiosas marcaram o tom dos discursos de grande parte dos constituintes e dos palestrantes. Concomitantemente, não se produziu uma voz forte em defesa da laicidade ou mesmo dos conteúdos técnicos, afastados da moralidade religiosa.
112 Como contraponto, retomo uma análise de Paul Freston: “Apesar da imagem pública de maior conservadorismo, os pen-
tecostais têm uma nota mais alta que os [evangélicos] históricos e até que o conjunto dos constituintes. É verdade que era uma Constituinte conservadora e que, levado em conta o nível social das igrejas, a nota dos pentecostais poderia ser bem mais alta. Mesmo assim, não se pode rotulá-los tout court como nova direita cristã” (1993, p. 243).