DATA DA PUBLICAÇÃO: 25/06/2010
EMENTA: AÇÃO DE REGULAMENTAÇÃO DE VISITAS - PRINCÍPIO DO MELHOR INTERESSE DA CRIANÇA - AVERSÃO DO MENOR À FIGURA DO PAI - INDÍCIOS DE ALIENAÇÃO PARENTAL - NECESSIDADE DE CONVIVÊNCIA COM A FIGURA PATERNA - ASSEGURADO O DIREITO DE VISITAS, INICIALMENTE
ACOMPANHADAS POR PSICÓLOGOS - REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA. - O direito de vistas decorre do poder familiar, sendo a sua determinação essencial para assegurar o desenvolvimento psicológico, físico e emocional do filho. - É certo que ao estabelecer o modo e a forma como ocorrerá as visitas, deve-se levar em conta o princípio constitucional do Melhor Interesse da Criança, que decorre do princípio da dignidade humana, centro do nosso ordenamento jurídico atual. - Nos casos de alienação parental, não há como se impor ao menor o afeto e amor pelo pai, mas é necessário o estabelecimento da convivência, mesmo que de forma esporádica, para que a distância entre ambos diminua e atenue a aversão à figura paterna de forma gradativa. - Não é ideal que as visitas feitas pelo pai sejam monitoradas por uma psicóloga, contudo, nos casos de alienação parental que o filho demonstra um medo incontrolável do pai, torna-se prudente, pelo menos no começo, esse
acompanhamento. - Assim que se verificar que o menor consegue ficar sozinho com o pai, impõem-se a suspensão do acompanhamento do psicólogo, para que a visitação passe a ser um ato natural e prazeroso.
APELAÇÃO CÍVEL N° 1.0701.06.170524-3/001 - COMARCA DE UBERABA -
APELANTE(S): J.C.F.N. - APELADO(A)(S): M.C.P. - RELATORA: EXMª. SRª. DESª. SANDRA FONSECA
ACÓRDÃO
(SEGREDO DE JUSTIÇA)
Vistos etc., acorda, em Turma, a 6ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, sob a Presidência do Desembargador ERNANE FIDÉLIS ,
incorporando neste o relatório de fls., na conformidade da ata dos julgamentos e das notas taquigráficas, à unanimidade de votos, EM DAR PROVIMENTO PARCIAL. Belo Horizonte, 23 de março de 2010.
DESª. SANDRA FONSECA - Relatora NOTAS TAQUIGRÁFICAS
A SRª. DESª. SANDRA FONSECA: VOTO
Cuida-se de apelação interposta por J. da C.F.N., com vistas à reforma da sentença proferida na ação de modificação de cláusula de visitas movida por este em face de M.C. de P., que julgou parcialmente procedente o pedido para manter o acordo relativo às visitas, nos moldes em que foi entabulado entre as partes, estabelecendo que as
custas e honorários advocatícios arbitrados em R$ 800,00, suspendendo a exigibilidade face a justiça gratuita.
Nas razões recursais de f. 249/251, o apelante afirma que não há possibilidade de consenso entre as partes, pois a mãe do menor faz tudo para afastá-lo da convivência paterna.
Destaca que pretende visitar o filho, sem qualquer acompanhamento, nos finais de semana e nas férias escolares, de forma alternada.
Salienta a necessidade de contato entre ele e o filho para que o relacionamento melhore, ainda que seja acompanhada por psicólogo.
Ao final, requer a reforma da sentença para que seja indicada a modalidade de acompanhamento das visitas, indicando profissional que irá acompanhá-las. Apesar de devidamente intimada, a ré não apresentou contrarrazões.
Parecer da Procuradoria Geral de Justiça às f. 260/265, pelo parcial provimento do recurso, estabelecendo-se as visitas entre pai e filho acompanhado de um psicólogo. Conheço do recurso, pois presentes os pressupostos de admissibilidade.
Em virtude da ausência de preliminares, passo ao exame do mérito.
A controvérsia dos autos cinge-se na regulamentação das visitas paternas do filho dos litigantes, que se encontra sobre a guarda da mãe.
O direito de vistas decorre do poder familiar, sendo a determinação essencial para o filho que, de repente, se vê privado da convivência diária de um de seus genitores. Assim, para assegurar um desenvolvimento psicológico e emocional equilibrado, deve ser garantido a visitação como meio de coibir ou atenuar essa ausência sentida pela criança.
É certo que ao estabelecer o modo e a forma como ocorrerão as visitas, deve-se levar em conta o princípio constitucional do Melhor Interesse da Criança, que decorre do princípio da dignidade humana, centro do nosso ordenamento jurídico atual.
Destarte, o ordenamento jurídico deve proteger e preservar as crianças e
adolescentes, tendo em vista a situação de fragilidade em que se encontram, frente ao seu desenvolvimento social, emocional e psíquico.
Nesse sentido, estabeleceu legislador constituinte de 1988:
Art. 227 - É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar a criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligencia, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
prejuízo da proteção integral, assegurando-lhes "todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e igualdade".
Dito isso, tem-se que, a regulamentação de visitas é importante e necessária, desde que se ponha a salvo o interesse da criança, não se aceitando uma conotação de sanção, devendo o interesse do menor de sobrepor ao dos pais.
No caso em tela, a pretensão do autor se mostra legítima, uma vez que não é certo privar o menor da convivência paterna. Contudo, pelos estudos sociais realizados, verificam-se uma espécie de aversão do menor à figura do pai, causando, inclusive, regressos no desenvolvimento psicológico, emocional e social do menor.
Várias foram as tentativas e em nenhuma delas o menor cedeu a negação à convivência com o pai, o que demonstra a peculiaridade do caso.
Não há como se impor ao menor o afeto e amor pelo pai, mas é necessário o estabelecimento da convivência, mesmo que de forma esporádica, para que a distância entre ambos diminua e atenue essa aversão de forma gradativa. Para que essa reaproximação seja natural e suave é imperioso a colaboração e conscientização de ambos os genitores, pois o grande prejudicado nesse entrave judicial é o próprio filho.
No caso dos autos, tudo indica que se trata da síndrome da alienação parental, na qual a mãe da criança o treina para romper os laços afetivos com o pai, criando fortes sentimentos de ansiedade e temor.
Na verdade, das provas carreadas aos autos, não se infere nenhum ato grave do autor, tal como a agressão, que tenha ocasionado essa repugnância do filho, o que corrobora com a tese de alienação parental.
Nesse sentido foi o estudo psicossocial constante às f. 166/167, ao descrever um agendamento de entrevista, na qual a genitora compareceu sem o filho, alegando que o mesmo estava com problema de saúde:
(...) Esta sua atitude manipuladora já demonstrou relação de patológica no exercício da maternagem, caracterizando "alienação parental", ou seja, busca o afastamento total do menor na relação com a figura patena, contribuindo para o "adoecer" infantil, quando estabelece uma relação materno-filial em exclusividade. O menor só reage sintomaticamente às referidas manipulações, tal como declarado circunstancialmente quando manifesta dores abdominais, na véspera do contato com o genitor ou mesmo quando a Sra. Magda impede o contato do filho com o genitor, em entrevista
psicossocial.
Sobre a alienação parental, explica, com propriedade, Maria Berenice Dias:
O detentor da guarda, ao destruir a relação do filho com o outro, assume o controle total. Tornam-se unos, inseparáveis. O pai passa a ser considerado um invasor, um intruso a ser afastado a qualquer preço. Este conjunto de manobras confere prazer ao alienador em sua trajetória de promover a destruição do antigo parceiro.
de visitas que possa configurar indícios de tentativa de aproximação incestuosa é o que basta. Extrai-se deste fato, verdadeiro ou não, denúncia de incesto. O filho é convencido da existência de um fato e levado a repetir o que lhe é afirmado como tendo realmente acontecido. Nem sempre a criança consegue discernir que está sendo manipulada e acaba acreditando naquilo que lhes foi dito de forma insistente e repetida. Com o tempo, nem a mãe consegue distinguir a diferença entre verdade e mentira. A sua verdade passa a ser verdade para o filho, que vive com falsas personagens de uma falsa existência, implantando-se, assim, falsas memórias. Esta notícia, comunicada a um pediatra ou a um advogado, desencadeia a pior situação com que pode um profissional defrontar-se. Aflitiva a situação de quem é informado sobre tal fato. De um lado, há o dever de tomar imediatamente uma atitude e, de outro, o receio de que, se a denúncia não for verdadeira, traumática será a situação em que a criança estará envolvida, pois ficará privada do convívio com o genitor que eventualmente não lhe causou qualquer mal e com quem mantém
excelente convívio.(in Síndrome da alienação parental, o que é isso?, artigo publicado no site do IBDEFAM- http://www.ibdfam.org.br/?artigos&artigo=463).
A figura paterna é essencial para o desenvolvimento do menor, devendo a genitora incentivá-la e desmistificá-la, pois a aceitação da criança é proporcional à imagem do pai desenhada pela mãe.
Dessa forma, no caso dos autos, deve-se buscar o restabelecimento do amor
incondicional entre o filho e o pai, pois para o desenvolvimento do menor, é essencial que ele se sinta protegido e assistido por ambos os genitores.
Além disso, a mãe deve se conscientizar da gravidade que este afastamento e o desenho manipulador da figura do pai acarretam para a vida da criança, mormente em face da proteção constitucional da convivência familiar.
Lado outro, o pai também deve ter em mente a seriedade do acompanhamento psicológico e da continuidade das visitas, pois, como se verifica no caso em tela, em diversas oportunidades os estudos sociais não foram concluídos em virtude de sua ausência injustificada.
Dessa forma, entendo prudente seguir as orientações constantes nos laudos sociais, que opinam taxativamente pela concessão das visitas paternas, desde que
acompanhadas por um profissional da área psicológica. Nesse sentido, foi o parecer do ilustre Procurador de Justiça:
No caso em tal, o melhor para acriança é aproximar-se do pai com a presença de um psicólogo a fim de diminuir a rejeição do menor com o pai, melhorando-se as relações familiares tão importantes na consolidação dos direitos de personalidade do infante.(fl. 263)
Com relação à dificuldade alegada pelo apelante de nomear um psicólogo em comum acordo com a apelada, os profissionais do CRIA afirmam nos autos que não possuem corpo clínico para disponibilizar um profissional para acompanhamento exclusivo do caso.
observa ao longo de todo o processado.
Na verdade, não é possível determinar por quanto tempo será necessário o
acompanhamento da psicóloga nas visitas, mas é prudente que a profissional, assim que verificar que o menor já consegue ficar sozinho com o pai, suspender o
acompanhamento, para que a visitação seja um ato natural e prazeroso.
Pelo exposto, e por tudo mais que dos autos consta, DOU PARCIAL PROVIMENTO AO RECURSO, para alterar a sentença, tão-somente com relação à indicação do psicólogo, determinando que as visitas sejam acompanhadas por profissional forense. Custas pelas partes, suspensas a exigibilidade na forma da Lei 1.060/50.
Votaram de acordo com o(a) Relator(a) os Desembargador(es): ERNANE FIDÉLIS e MAURÍCIO BARROS.
SÉTIMA CÂMARA CÍVEL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO REIO