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Já há alguns anos os termos “escalabilidade” e “escalável” vêm sendo empregados com certa recorrência nas discussões sobre tecnologia da informação, engenharia de software e/ou de hardware, economia, administração, gestão de negócios, além de ocasionalmente também aparecer na literatura produzida no âmbito das humanidades. Esse uso frequente, bastante abrangente e, consequentemente, impreciso, levou o pesquisador Mike D. Hill, um membro do Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Wisconsin, a questionar a utilidade da noção de escalabilidade na sua área de especialização, concluindo um de seus artigos com o ultimato de que “ou a comunidade técnica define rigorosamente a escalabilidade ou para de usá-la” (1990, p. 18).

Mas, apesar das evidentes diferenças que perpassam as áreas do conhecimento acima mencionadas, não seria nenhum disparate acreditar que os diversos empregos de

“escalabilidade” feitos em cada uma delas seriam suficientes, caso mostrassem pontos de convergência, para garantir alguma coerência em seu uso. Assim, mesmo respeitando a exigência feita por Hill de que o termo “escalabilidade”, na ausência de uma definição

rigorosa, deveria ser abandonado, – decisão que eventualmente poderia se mostrar acertada para os debates envolvendo os cientistas da computação – nada nos impediria, em princípio, de empregá-lo de maneira teoricamente frutífera e com algum grau de efetividade em outros tipos de discussão. E o que uma busca por definições do termo “escalabilidade” nessas diversas matrizes disciplinares nos revela é justamente a presença de claras confluências, conforme atesta a pequena amostragem a seguir obtida em uma rápida busca em páginas da internet:

- “é uma característica desejável em todo o sistema, em uma rede ou em um processo, que indica sua habilidade de manipular uma porção crescente de trabalho de forma uniforme, ou estar preparado para crescer”86;

- “a habilidade que câmbios, bancos e instituições financeiras têm de lidar com demandas crescentes, como a de grandes volumes de negociação. Em sentido corporativo, uma companhia escalável é aquela que mantém ou aprimora as margens de lucro à medida que o volume de vendas cresce”87;

- “a habilidade de uma companhia sustentar ou aprimorar sua performance em termos de rentabilidade ou eficiência quando seu volume de vendas aumenta”88;

- “o potencial de um negócio ou parte de um negócio para continuar funcionando efetivamente na medida em que seu tamanho aumenta”89;

- “a habilidade de qualquer sistema de aumentar seu tamanho de uma maneira linear sem modificar suas propriedades fundamentais”90;

- “propriedade de um sistema qualquer que lhe confere a capacidade de aumentar seu desempenho sob carga, quando mais recursos (esp. hardware, no caso de computadores) são acrescentados a esse sistema”91;

86 http://pt.wikipedia.org/wiki/Escalabilidade

87 http://www.investopedia.com/terms/s/scalability.asp

88 http://economictimes.indiatimes.com/definition/scalability

89 http://www.investorwords.com/4398/scalability.html

90 http://www.inc.com/encyclopedia/scalability.html

91 http://www.aulete.com.br/escalabilidade

- “a habilidade de uma aplicação ou produto de computador (hardware ou software) de continuar funcionando bem quando seu tamanho ou volume (ou de seu contexto) é modificado”92.

Desse variado apanhado de definições lexicais (ou talvez de meras caracterizações) podemos, pois, observar e destacar como traços comuns à maioria delas as ideias de que (1) a escalabilidade é uma propriedade, atributo ou qualidade desejável em certos sistemas, sendo, portanto, não uma propriedade que os sistemas efetivamente apresentam, mas algo que eles deveriam apresentar, e de que (2) a escalabilidade está ligada, enquanto propriedade desejável, à capacidade de um sistema permanecer funcionalmente eficaz quando confrontado com a ampliação contínua de dados/informação e, consequentemente, em face da inevitável modificação do seu campo prévio de operações93.

Embora a mera indicação desses traços comuns talvez esteja longe de satisfazer as demandas de uma definição formal e rigorosa, como as almejadas pela concepção clássica, ela parece suficiente para os propósitos deste trabalho. Tomando essas duas características como elementos constitutivos do sentido do termo de “escalabilidade” (e também da expressão adjetiva “escalável”), podemos utilizá-lo para formular o que no título deste capítulo foi chamado de “desafio da escalabilidade” às teorias estéticas tradicionais.

Conforme vimos, tanto a arte moderna quanto a arte contemporânea promovem verdadeiras revoluções nas condições da produção artística. Com o modernismo, essa revolução leva à existência de novas obras de arte, não apenas no sentido de um acréscimo quantitativo àquelas já existentes no mundo, mas sim no sentido de uma inclusão de novos tipos de coisas a um conjunto limitado pré-existente. Estamos aqui falando de pinturas e esculturas não-figurativas, trabalhos feitos a partir de colagens e assemblages94, ready-mades, sem contar o surgimento de novos gêneros a partir da difusão de novas mídias, como a fotografia e o cinema. Essa ampliação do sistema das artes ainda no auge do modernismo já

92 http://searchdatacenter.techtarget.com/definition/scalability

93 O termo “sistema”, que aparece intimamente ligado à noção de escalabilidade nessas definições, embora muito mais claro e consolidado em sua significação, talvez também seja digno de algum esclarecimento: por essa palavra podemos entender qualquer conjunto de elementos interligados de tal maneira a constituir um todo organizado. Nesse sentido, um organismo biológico é um sistema tanto quanto uma língua natural ou uma teoria científica.

94 O termo “assemblage” foi incorporado às artes em 1953 pelo pintor francês Jean Dubuffet (1901-1985). Com essa expressão o autor se referia aos trabalhos que, tal como as colagens, empregavam a utilização de materiais alheios à pintura, mas em conjunto com elas. O princípio que orienta a feitura de assemblages é o de uma estética da acumulação a partir da qual todo e qualquer tipo de material pode ser incorporado à obra de arte.

coloca, então, um problema de escalabilidade para as teorias estéticas tradicionais, inicialmente para a teoria da arte como imitação que, até então, não havia sido requerida em sua eventual escalabilidade. Ou seja, o sistema das artes sofre uma vertiginosa ampliação de dados e a grande questão que se coloca é se os princípios sobre os quais o sistema se organiza conseguem se manter eficazes e operativos para dar conta dos novos itens. O desfecho dessa história, agora, já nos é conhecido: a teoria da arte como imitação fracassa, o que leva ao desenvolvimento de teorias alternativas – baseadas em outros princípios explicativos, mas estruturalmente organizadas em torno do mesmo modelo definicional. Contudo, vimos que não só a teoria da arte como imitação, mas igualmente a teoria da arte como expressão, são incapazes de lidar com as novidades da arte moderna (sem contar as da arte contemporânea), uma vez que seu comprometimento com as exigências da definição clássica, em particular o respeito à cláusula todos/apenas, as restringe rigorosamente e seu sistema explicativo colapsa.

A teoria da arte como forma, em princípio, parece se mostrar escalável, sendo capaz de acomodar em seu princípio explicativo, também conforme à cláusula todos/apenas do modelo definicional clássico, todas as produções da arte moderna e provavelmente da arte contemporânea. Por outro lado, esse mesmo princípio apresenta-se como algo bastante vago e subjetivo, virtualmente se aplicando a qualquer coisa, o que o trivializa. Em virtude dessa deficiência, ao final da primeira seção deixamos a título de sugestão uma proposta de restrição à ideia de forma significante como sendo a essência apreendida pelo conceito ARTE, substituindo-a pela ideia mais precisa de “forma”, de modo a referir por meio desse termo apenas o resultado da exploração dos meios materiais dos gêneros artísticos historicamente consolidados. É óbvio, a esta altura, que essa alternativa também sucumbe frente ao desafio da escalabilidade, uma vez que tanto a arte moderna quanto a arte contemporânea introduziram diversos novos meios e novos materiais em suas produções, levando, inclusive, a uma grande proliferação de gêneros artísticos ao longo desse período. Em nosso exame da arte contemporânea mencionamos fotografias, filmes, performances, instalações, arte encontrada, trabalhos conceituais, jogos, sem contar outros tantos trabalhos e artistas originais que sequer chegamos a mencionar. Portanto, os três paradigmas de teorias estéticas tradicionais que examinamos se revelaram incapazes de lidar de maneira satisfatória com as novidades da arte moderna e contemporânea; eles não são, dito de um modo que agora podemos entender, escaláveis. E é a arte contemporânea que conduz o desafio da escalabilidade ao seu limite: ao comportar uma pluralidade radical de objeto e atividades em que qualquer coisa pode ser uma obra de arte, o potencial virtual do mundo da arte mostra-se infinito, não apenas quantitativamente, mas qualitativamente. Frente a essa gigantesca

expansão no sistema de objetos da arte é possível articular uma definição baseada no modelo clássico que seja capaz de lidar com tal fenômeno? É possível elaborar uma definição essencialista em que a indicação de propriedades presentes em todas e apenas nas obras de arte seja capaz de lidar com a expansão ilimitada, quantitativa e qualitativa, do fenômeno artístico – com a arte após o fim da arte, como diz Danto?

No próximo capítulo, passaremos a examinar a posição dos filósofos analíticos com relação a essa questão. E o que veremos, de início, é que os primeiros autores dessa tradição da filosofia contemporânea a se debruçar sobre os problemas da filosofia da arte decretaram a impossibilidade das teorias estéticas tradicionais proporcionarem uma teoria capaz de lidar com a evolução histórica das artes. Em outras palavras, para esses o desafio da escalabilidade enterrou a estética tradicional. Mas essa perspectiva, conforme veremos, seria apenas uma primeira onda de pensamentos a respeito da questão da definição do conceito ARTE a chegar ao prolífico terreno teórico da filosofia analítica.

CAPÍTULO 3

A TEORIA ESTÉTICA NA FILOSOFIA ANALÍTICA

Neste capítulo, veremos como a filosofia analítica, uma das principais correntes de pensamento da filosofia contemporânea, iniciou sua abordagem a respeito da arte e dos fenômenos a ela associados – um tema bastante alheio às primeiras décadas de seu desenvolvimento – e, consequentemente, de que maneira essa tradição95 veio a discutir o problema definicional característico da teoria estética. A história dessa discussão possui três momentos claramente distintos, ainda que temporalmente sobrepostos: no primeiro, a possibilidade das teorias estéticas tradicionais, isto é, as teorias estéticas pautadas pela agenda definicional clássica, é absolutamente rechaçada; em um segundo momento, a ideia de compreensão do conceito ARTE a partir do modelo clássico de definição é retomada, mas em nova chave, com forte ênfase sobre a dimensão contextual da atividade artística e não mais sobre as propriedades perceptualmente evidentes dos trabalhos considerados como arte; após certo predomínio dessa auspiciosa perspectiva das novas teorias estéticas, uma renovada onda de ceticismo em torno do projeto definicional clássico volta a ganhar corpo à medida que a abordagem contextual, principalmente em sua versão conhecida como “teoria institucional”, também vai se revelando internamente inconsistente e rodeada por dificuldades e, então, caminhos diferentes começam a ser propostos. No próximo capítulo, examinaremos um desses caminhos, a concepção agregativa do conceito ARTE, ocasião em que será argumentado que essa teoria traz elementos explanatórios promissores, se não suficientes, para a superação do desafio da escalabilidade e para um melhor entendimento da lógica desse conceito. Mas, nesta parte da exposição, o objetivo principal é apresentar criticamente as teses e argumentos dos autores mais influentes desses três momentos pelos quais até hoje transita o debate dos filósofos analíticos a respeito das teorias estéticas é o objetivo principal desta parte da exposição. Preliminarmente, porém, convém tomar conhecimento de algumas características do trabalho de alguns dos principais filósofos que ajudaram a dar forma às ideias dessa importante vertente da filosofia contemporânea. Isso é salutar não apenas para iluminar os comprometimentos teóricos dos autores e textos que examinaremos na sequência,

95 Segundo Hans-Johann Glock (2011), a literatura a respeito da filosofia analítica costuma referi-la como uma

“escola”, um “movimento”, ou uma “tradição”. Chamá-la “tradição” é, a seu ver, a caracterização mais precisa, já que essa expressão deixa mais claro que ela é “um corpo de problemas, métodos e crenças que é socialmente transmitido do passado e evolui com o passar do tempo” (p. 183); para ele, “escola” e “movimento” denotariam algo mais restrito e local, tanto espacial quanto temporalmente. Com isso, Glock quer ressaltar que estamos falando de autores e obras com perspectivas teóricas bem diversas, ainda que conectadas historicamente por problemas e pressupostos metodológicos comuns.

mas também para explicitar o viés epistemológico-metodológico que permeia toda a abordagem deste trabalho.