do país, assim como o Pac. não houve uma política adequada para a região, mas uma política nacional de consumo de massas com transfe-rência de renda e crédito, e de fortalecimento dos grandes grupos, resul-tando numa quantidade significativa de empresas que se globalizaram.
exportados em bruto. a própria soja, milho e algodão não são proces-sados; trata-se de uma agroindústria sem a indústria, exportando farelo no lugar de óleo de soja. exportando commodities em bruto, não há condições de integração da região. Há que mudar o modelo – o inPa tem condições de projetar algo nesse sentido – para usar os recursos sem sua destruição maciça.
dentre os projetos que se apresentam hoje para amazônia, destaca--se o famoso redução das emissões por desflorestamento e degradação (redd). Paga-se para que não se desfloreste mais. sou contra isso.
Primeiro, porque desde o Protocolo de Kyoto, o brasil sempre foi contra aplicá-lo às florestas nativas, que não estavam na negociação. acho que o brasil tinha razão por ser uma interferência na tomada de decisão sobre o uso do território. É geopolítica. Floresta é território nacional.
se tem financiamento externo, temos uma interferência externa sobre o que fazer com a floresta, temos uma interferência sobre o território nacional, isso é geopolítica.
Uma coisa é o discurso sobre sustentabilidade, outra coisa são os in-teresses por trás; através de ajuda financeira o estado acaba inserindo influência em suas decisões. a geopolítica não funciona mais com uma potência externa querendo ocupar o território, porque hoje é muito caro manter e sustentar uma colônia; a geopolítica atua hoje influindo na tomada de decisão, através dos financiamentos, dos fóruns globais, etc.
Há uma possibilidade de ingerência externa, e algumas ongs fazem parte desse quadro, tendo esse papel de influência externa, mas nem todas, outras realmente se preocupam com a questão da amazônia.
segundo ponto quanto ao redd. Quem recebe o dinheiro para não desmatar, os fazendeiros? como fica a população que vive na floresta?
Mas o argumento mais importante de todos é que o redd não toca na questão do processo do desflorestamento. ele somente diz que se deve parar, não entra nas causas do desmatamento. É como água fria no esforço para mudar o padrão de desenvolvimento, pois a tarefa é mudar o modelo de desenvolvimento da amazônia atacando as causas do desmatamento. este é um desafio que temos que enfrentar. temos de inovar.
Uma proposta interessante é a do dr. tim Killeen, que discute os problemas de conservação das florestas e a expansão dos bicombustí-veis na amazônia e combina redd com biocombustíbicombustí-veis. nas áreas de
floresta, uma proporção de 9 de florestas para 1,9 de biocombustíveis.
nas áreas degradadas, para a recuperação a proporção seria de 4 para biocombustíveis e 1 para a reserva florestal. enfim, uma tentativa de sa-tisfazer tanto a proteção da floresta como o uso do biocombustível. Um arranjo interessante, porque vivemos um momento novo na amazônia onde temos que escolher novos produtos para recuperação de áreas degradadas. além de defender a floresta temos que impedir a expansão da fronteira agropecuária e enfrentar o desafio da escolha de produtos para a recuperação das áreas degradadas.
tenho uma reflexão para o desenvolvimento responsável da amazô-nia. Minha proposta leva em conta o conjunto da amazônia legal e sua diferenciação interna marcada pelo zoneamento da natureza em que, de norte para o sul, sucedem-se a floresta ombrófila densa, a floresta ombrófila aberta, a floresta de transição e o cerrado.
Fiquei surpresa com o verde escuro, vegetação natural da mata den-sa relativamente bem conservada que denomino coração Florestal, a borda oriental da amazônia sul-americana. os grandes eixos de circu-lação da década de 1970 se estabeleceram na mata aberta e pararam no contato com a mata densa. até mesmo a transamazônica seguiu esse padrão, justamente porque nesse contato fica a linha de cachoeiras, a passagem do planalto para a planície. Quando os engenheiros projeta-ram os primeiros grandes eixos, respeitaprojeta-ram essa linha divisória. agora, querem desrespeitá-la com a br-319 que penetra na mata densa.
Proponho uma estratégia central comum para a amazônia legal, que é usar sem destruir. Valorizar a floresta e o cerrado em pé, usando ati-vidades e produtos adequados mas com ações diferenciadas segundo o modo pelo qual as “zonas” foram apropriadas. na mata densa seria o extrativismo do século XXi com tecnologia moderna e industrialização, além dos serviços ambientais.
outros pontos centrais para o coração Florestal são a circulação flu-vial e as cidades. É urgente melhorar a circulação fluflu-vial, partindo para o século XXi, com hidroavião, zepelim, enfim, com inovação. em vez de embraer, devíamos ter uma embraflu na amazônia – um setor flu-vial articulado com o aéreo. em casos mais sérios seria melhor ferrovia do que rodovia. Queremos infra-estrutura, mas não qualquer uma. to-dos esses esforços fazem parte da integração. até a marinha brasileira deve atuar nisso, melhorando seus barcos e o transporte regional. de-senvolvimento efetivo passa por tudo isso.
a questão urbana na amazônia é crucial. se não houver cidade equi-pada para prestar serviços e com indústria, não é possível integrar e desenvolver a amazônia, não adianta. todas as teorias explicam isso.
então, extrativismo avançado com industrialização é ponto central no coração Florestal. e com o desenvolvimento da indústria e dos servi-ços nas cidades, não é preciso desmatar tanto; é possível criar redes urbanas, de comunicações, com atividades que não são extensivas no território e sim atividades mais intensivas, pontuais.
Propus uma rede de cidades verdes, localizadas junto às comunida-des produtoras de extrativismo, às quais chamei de cidacomunida-des bioprodu-toras, onde haveria melhores condições para a industrializar o produto extrativista. Fiz um levantamento das cidades próximas onde se pode-ria estabelecer as indústpode-rias. além disso, algumas delas podepode-riam ter centros de pesquisa para avançar no conhecimento da biodiversidade e dos serviços ambientais. a rede dessas cidades seria como um cinturão de blindagem para a proteção do coração Florestal, industrializando a produção, fazendo pesquisas e envolvendo as comunidades porque as cidades nessa região, com várias exceções, são cidades-fantasma perdi-das no tempo. ou se fazem cidades e indústrias para o povo da ama-zônia ou não se chame isso de desenvolvimento regional sustentável.
Uma das minhas propostas para a rede de cidades que fazem a blin-dagem - o tampão do coração florestal - é que Manaus deveria ser a ca-beça dessa rede, deveria ser planejada como uma cidade mundial para prestação de serviços ambientais e não ficar apenas nessa indústria
“velha”. este deve ser o salto de Manaus. Uma cidade mundial ou glo-bal, comandando a economia capitalista a partir do domínio de serviços avançados, pois hoje não é mais somente a indústria, são os serviços avançados que dão o poder às cidades mundiais: serviços de informa-ção, de pesquisa, marketing, financeiro, etc., serviços para a produção.
londres é a primeira, new York a segunda, terceira Hong Kong. nin-guém no mundo tem as condições que Manaus tem para ser uma cida-de mundial com base nos serviços ambientais. ela está cida-de frente para a floresta amazônica inteira, tem posição estratégica no sistema de rios da bacia amazônia e já possui um embrião de pesquisa significativo.
deve-se incentivar tudo isso para o salto qualitativo de Manaus e não ficar perenizando uma Zona Franca do século XX.
na extensa área de mata aberta e de cerrado, emergem como prio-ridade as cidades da madeira. as drogas do sertão foram espécies so-bretudo da mata densa enquanto a Hevea brasiliensis, sustentáculo do
surto da borracha, é uma espécie da mata aberta, revelando uma incrí-vel diferenciação da natureza. escolhi alguns centros para a exploração da madeira na mata aberta, onde está a fronteira agropecuária, onde se explora e exporta a madeira em bruto, pois não há uma indústria madeireira de peso nessa região de floresta. Hoje se aproveita etanol de segunda geração a partir da celulose, da madeira se faz celulose e da ce-lulose o etanol. o mundo está fazendo isso, enquanto exportamos ma-deira em bruto, sem uma indústria de peso e não se oferece trabalho.
a área de mata e o cerrado, que já estão fortemente desmatados, devem ter reflorestamento e manejo. Para o cerrado, a produção de alimentos, não somente pela soja da grande indústria, mas pelos pe-quenos produtores, é igualmente importante. tenho feito uma proposta de mudar a reforma agrária dos atuais assentamentos da floresta para fazendas agroindustriais com a média de 50 colonos localizados perto das estradas e dos mercados, com processamento e industrialização lo-cal. Jogar essa turma na mata sem infraestrutura é quase matá-los. Há que ter acesso ao mercado e escala para produzir na amazônia. esse modelo serve também para a mata aberta e o cerrado onde, além da in-dústria madeireira e da produção de alimentos, é importante pressionar o agronegócio a se transformar em um efetivo complexo agroindustrial.