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Velhos e crianças: todos gostam de frutas

No documento Caderno de Debates TOMO IV (páginas 32-35)

a fruticultura é outra vertente na qual o inPa tem feito muitas con-tribuições. destacam-se os trabalhos de charles clement com a pupu-nheira, na tecnologia de alimentos, camu-camu, botânica, entre outros.

o grande saldo da questão ecológica da amazônia foi chamar atenção para as fruteiras amazônicas. depois do assassinato de chico Mendes (1944-1988) vieram jornalistas do mundo inteiro e essas frutas da ama-zônia, que eram consumidas apenas a nível local e somente na época da safra, ganharam dimensão nacional e internacional. com isso, fi-caram conhecidos principalmente o cupuaçu, açaí, pupunha, bacuri, tucumã, buriti, guaraná e o taperebá. o suco de açaí no estado do Pará atingiu o preço de r$ 24,00/litro em 2008 e nesse ano chegou a r$

14,00/litro, um alimento de gente pobre virou um alimento de gente rica provocando uma exclusão social.

duas empresas americanas, uma japonesa, uma francesa e diversas empresas nacionais estão efetuando a exportação de polpa de açaí. es-tas empresas procuram adquirir a maior quantidade possível durante a

época da safra, quando o preço está baixo para estocar. este procedi-mento é similar ao que ocorria no tempo da borracha. alguns exporta-dores nacionais de polpa de açaí são egressos do setor madeireiro. Mui-tas fruMui-tas amazônicas têm grandes possibilidades, mas continuamos a perder as oportunidades. dos 15 mil hectares plantados de pupunheira no país, são Paulo detém a metade e a bahia um quarto; enquanto a amazônia tem apenas 1.500 hectares plantados. a bahia é o maior produtor de guaraná do País, como também está plantando açaizeiros, cupuaçuzeiros, entre outros.

o guaraná constitui um exemplo de um refrigerante genuinamente amazônico que se difundiu no país e começa também a ser exportado para a europa, china e estados Unidos. o primeiro guaraná foi fabrica-do em 1907 (guaraná andrade); em 1921 iniciou-se a antártica e, em 1927, a brahma. estas duas empresas se fundem na ambev em 1999 e assinam contrato com a Pepsi cola, comprometendo-se a exportar guaraná para 155 países. a difusão do guaraná ocorreu em uma época em que não havia reduzida propaganda na mídia. É possível que o açaí esteja caminhando para se tornar uma bebida nacional e internacional.

a castanheira-do-pará é outro produto da biodiversidade que precisa-mos plantar. a produção mundial de castanha-do-pará está estacionária nos últimos 60 anos. a bolívia tornou-se o maior produtor mundial. so-mando a produção do brasil, da bolívia e do Peru está estagnada em 60 mil toneladas e a população nos países desenvolvidos que tem sido os consumidores tradicionais deste produto tem aumentado. se depender da oferta do setor extrativo não será possível atender esse mercado que está crescendo a nível nacional e externo. o tucumã é um produto asso-ciado com o estado do amazonas. enquanto os amazonenses têm o há-bito do consumir tucumã, o paraense tem a preferência pela pupunha cozida. Há necessidade de efetuar um grande esforço de domesticação, identificando as que têm mais polpa, gosto, etc. existe um amplo mer-cado em Manaus e está ocorrendo uma oferta do tucumã de roraima.

o açaí tornou-se a grande novidade da fruticultura paraense. Muitos produtores começaram a fazer irrigação em plantios que chegam a até 500 hectares (Óbidos), visando obter açaí na entressafra para atender o mercado de aficionados desta fruta. na safra o preço do açaí está cotado a r$ 4,00/lata e na entressafra pode superar r$ 50,00/lata. o cresci-mento do mercado de açaí esconde riscos ambientais que não estão sendo considerados. os ribeirinhos da foz do rio amazonas transfor-mam as matas que apresentam açaizeiros e efetuam o desmatamento,

sem tocar fogo, deixando a biomassa apodrecer – o que ocorre depois de um ano – e efetuam o adensamento com mudas de açaizeiros. trans-formam uma floresta heterogênea num bosque homogêneo de açaizei-ros. existem em torno de 50 mil ha de açaizais manejados; porém, se o mercado continuar a crescer, essas áreas manejadas podem ultrapassar 100 mil ha ou 200 mil ha. isto poderá trazer reflexos negativos para a flora e a fauna, além da movimentação de embarcações, entre outros aspectos. daí a importância de se incentivar o plantio de açaizeiros em áreas já desmatadas de terra firme.

como as áreas de várzeas são sujeitas a inundações diárias decorren-tes das marés, a adubação não é possível. É de se questionar quanto à sustentabilidade a médio e longo prazos, uma vez que com a contínua retirada de frutos o que vai acontecer daqui a 20 ou 30 anos? a pro-dução de frutos de açaí nas várzeas no estado do Pará é estimada em torno de 400 mil toneladas de fruto e o que se aproveita são os 10% a 12% representados pela polpa. estes caroços não retornam ao seu local de origem e a reposição de nutrientes é feita pelas palhadas e da depo-sição de sedimentos das águas, cujo balanço de nutrientes precisa ser avaliado numa perspectiva de longo prazo.

o interesse pelo suco do açaí no exterior está relacionado com sua propriedade antioxidante. a presença do suco de açaí é somente para dar uma tênue coloração, cuja eficácia pode ser considerada duvidosa ao se comparar como os paraenses consomem o suco de açaí. este su-cesso que ocorreu com o açaí não aconteceu com a polpa do cupuaçu, apesar de ter sido o primeiro a chamar a atenção, uma vez que não foi identificado nenhum princípio ativo de interesse como antioxidante, geriátrico, nutracêutico, etc.

a domesticação do cupuaçuzeiro tem avançado bastante, com es-timativa de 25 mil hectares plantados na amazônia, dos quais meta-de está no estado do Pará. a pesquisa tem orientado na resistência à vassoura-de-bruxa, com lançamento de quatro cultivares, enxertia de substituição de copas, mas há ainda muitos desafios que precisam ser superados.

Incorporando novos produtos da biodiversidade

tem outras plantas, como o jambu, que faz parte da gastronomia cul-tural paraense, sendo ingrediente no tacacá e pato no tucupi e, outras que foram criadas, como arroz com jambu, pizza de jambu, atraindo chefs de cuisine mais famosos. isto despertou para que o jambu fosse

vítima da biopirataria mais recente. o jambu está sendo plantado desde 2004, em são Paulo, por uma empresa chamada centroflora, no Muni-cípio de Pratânia, próximo de Jaboticabal e vendido para natura, que o coloca na composição do creme chronos, um anti-rugas. saiu o ca-caueiro, seringueira, guaranazeiro, pupunheira, cupuaçuzeiro e agora o jambu.

o pau-rosa é outro produto a que o inPa tem se dedicado desde a década de 1960, com o pesquisador Vivaldo campbell de araújo. a quantidade máxima de essência de pau-rosa que conseguimos exportar em 1951 foi de 444 t e, em 2008, foi de apenas 21 t. Para exportar a quantidade máxima de essência de pau-rosa deveríamos ter plantado há cerca de 20 anos que permitisse o corte de 30 mil árvores anuais.

seria uma excelente alternativa para as áreas desmatadas nas proxi-midades de santarém e Parintins, viabilizando a formação de um polo floro-xilo-químico.

No documento Caderno de Debates TOMO IV (páginas 32-35)