5. O LUGAR E A EXPERIÊNCIA
5.1 Desafios de pesquisa e decisões metodológicas
A tarefa de empreender uma pesquisa etnográfica já é, por si só, bastante árdua e, no caso da presente pesquisa, foi necessário sobrepor dois importantes agravantes: a minha distância geográfica em relação ao contexto pesquisado e o fato de ser ambientado em uma realidade cultural e social bastante distinta da minha.
Procurei sobrepor a questão da distância, em um primeiro momento, por meio da observação das relações que se desenrolam nos ambientes virtuais. As plataformas
utilizadas foram as redes sociais Facebook e Instagram, além do aplicativo de celular WhatsApp.
No Facebook, busquei por páginas de aparelhagens e de casas de shows onde ocorrem as festas, comunidades de fã-clubes, grupos de discussão de frequentadores e até uma página relacionada ao bairro Jurunas. Nessas páginas, realizei uma observação geral das publicações e curtidas, selecionei alguns perfis pessoais que interagiam com as páginas e pesquisei, nesses perfis, indícios relacionados às aparelhagens. Além disso, levantei algumas categorias de interesse51 a partir das páginas curtidas por esses perfis.
No Instagram, passei a seguir perfis de aparelhagens, casas de shows e artistas do brega paraense com o intuito de selecionar as festas e aparelhagens que seriam visitadas durante as pesquisas de campo.
A partir da observação online, foi possível perceber que os frequentadores de festas de aparelhagem estabelecem intensas relações entre si no ambiente virtual.
Entretanto, elas não se dão tão intensamente através das redes sociais observadas e, sim, em grupos formados no aplicativo WhatsApp. Por meio da aproximação com os frequentadores, percebi que tais grupos são bastante importantes na sociabilidade dessas pessoas, conforme será detalhado adiante.
A observação das interações no ambiente virtual me permitiu especular acerca de alguns aspectos da vida dos frequentadores das festas de aparelhagem, como o triste convívio com a violência cotidiana nos bairros periféricos, o amor às aparelhagens ao homenageá-las nos nomes dos seus perfis no Facebook, principais assuntos de interesse, entre outros.
Esse momento da pesquisa foi fundamental também para o planejamento dos trabalhos de campo. Os primeiros contatos com agentes das aparelhagens e frequentadores foram estabelecidos por meio das redes sociais e do aplicativo WhatsApp. Além disso, foi realizado um levantamento preliminar das principais casas de show que recebem festas de aparelhagem. Após as incursões em campo, novos estabelecimentos foram listados, resultando em um mapa das festas de aparelhagem52 apresentado no capítulo anterior.
51 Foi possível perceber uma repetição de curtidas em páginas relacionadas aos seguintes temas:
tecnobrega, carros e motos, religião, Pará, futebol, celebridades, polícia e violência, reggae, Calypso, sertanejo/forró, humor, rap e funk nacional (Racionais MCs e referências a MCs de funk), programa policial, hip hop, pornografia, entre outros.
52 É muito importante ressaltar que nesse mapa não constam todos os estabelecimentos que recebem festa de aparelhagem. Conforme veremos, ocorrem festas de aparelhagem em uma infinidade de locais de forma descentralizada e dispersa, sobretudo nas periferias da cidade.
A partir da pesquisa nas redes sociais, estabeleci algumas categorias de análise (Anexo I) que, aliadas às leituras e discussões teórico-metodológicas, foram fundamentais para nortear a minha inserção em campo, especialmente nos primeiros contatos com o ambiente das festas. No entanto, a experiência real em campo ressaltou quais categorias eram, de fato, relevantes de se observar, como o deslocamento às festas, a questão da segurança e a estrutura das casas de show; o padrão de organização observado na paisagem das festas, o relacionamento dos frequentadores entre si e com os DJs; suas motivações, as formas com que se associam, como reagem às performances das aparelhagens, a dança e o consumo de drogas, as quais serão analisadas ao longo do capítulo.
Já o segundo agravante, a distância cultural e social, foi um pouco mais difícil de lidar e, por essa razão, dedicarei a ele os parágrafos seguintes.
Estendendo a afirmativa para a experiência holística do evento musical, Blacking (2007, p. 213) defende que os mesmos “padrões de som não apenas podem ter diferentes significados em diversas sociedades, mas também podem ter significados diferentes no interior da mesma sociedade, por causa dos contextos sociais diferentes”.
Sendo assim, se a percepção e experiência da festa de aparelhagem não é algo homogêneo nem entre os próprios frequentadores, para mim, nascido no sudeste e num contexto de classe média, essa experiência é algo bastante diferente.
Por um lado, Belém apresenta várias características caras a qualquer metrópole do Brasil – velocidade no fluxo de informações, trânsito intenso, shopping centers e franquias globais diversas, por exemplo. Por outro lado, existem diversos aspectos culturais fortemente arraigados que são bastante específicos, principalmente no que diz respeito à linguagem, hábitos, culinária e comportamentos. Estando em Belém, a impressão que tenho, tendo nascido e vivido sempre na região Sudeste, é de estar em
“um Brasil” bastante diferente. Essa sensação de estranhamento, fruto de um choque cultural que eu vivi, acabou por gerar uma insegurança em relação à maneira como se portar nas festas, como aproximar-se das pessoas, quais temas abordar para não gerar desconfortos, entre outros.
Aliado a isso, tem-se a questão de a pesquisa ter se desenrolado em um ambiente altamente estigmatizado. Para além das incursões às festas e algumas visitas pontuais às casas de alguns frequentadores, meu convívio em Belém foi, predominantemente, nas áreas centrais da cidade e entre pessoas da classe média. A todo momento ouvia recomendações a respeito do cuidado com a minha segurança
pessoal ao frequentar festas de aparelhagem53, por se tratar de “lugar de traficante e ladrão”.
As pessoas que falam isso (que as festas de aparelhagem são perigosas) é porque nunca foram mesmo em festa de aparelhagem. Aí ficam difamando a festa de aparelhagem por aí. Mas são a minoria (que geram violência nas festas). O pessoal que não gosta de se misturar. Festa de aparelhagem é pro pessoal mesmo da baixada, mas tem um pessoal do centro que vai. (LUCAS54, Comunicação pessoal, 2017, parênteses nossos)
Eram comuns comentários irônicos e pejorativos sobre os bairros periféricos como Jurunas, Guamá e Terra Firme. Alguns interlocutores não compreendiam a razão pela qual a presente pesquisa estava sendo desenvolvida, pois “não há nada de interessante nas festas de aparelhagem” e as pessoas que as frequentam não “têm cultura” o bastante para contribuir com a pesquisa. Uma pessoa chegou a se irritar comigo, pois, segundo ela, eu achava tudo bonito porque não sabia que era pago com dinheiro do trágico de drogas.
Essas opiniões eram constantes e partiam, sobretudo, das pessoas que não moram na periferia e nunca estiveram em uma festa de aparelhagem. Alguns frequentadores até admitem a existência de brigas, mas se apressam em rejeitar a ideia de que festa de aparelhagem é perigosa. Para eles, aquelas pessoas que “sujam a imagem” das festas são minoria. De fato, a maioria das festas ocorre em áreas da cidade que apresentam estatísticas alarmantes de violência, em grande parte devido ao tráfico de drogas e à ação de milícias.
Belém é uma cidade como todas, por estar na região Norte, um pouco menos favorecida que as outras, claro, e, consequentemente, é uma cidade que vai ter mais fome, mais violência, as coisas negativas, menos segurança, menos... como é que a gente diz nas ruas? Menos infraestrutura. Tu tá entendendo? Tudo isso reflete também nas pessoas. Entendeu? Falta de emprego. O cara não tem emprego, entendeu? A família não tem emprego. Aí o moleque tá com 13 anos, que que ele vai fazer? Vai correr pra droga, vai vender droga, vai usar, vai roubar. (KIKO DA PEDREIRA55, Comunicação pessoal, 2017).
53 VILHENA relata uma sensação semelhante vivida por ela em sua pesquisa. No caso dela, havia um conflito entre o familiar e o exótico devido ao fato dela morar em Belém, mas não estar inserida nesse meio social. “O fato de não conhecer ninguém que frequentasse este tipo de festa era um agravante. E o medo da violência, tão propagada nos comentários negativos sobre as festas de aparelhagem, também”
(VILHENA, 2012, p. 30).
54 Na seção 5.2.2. Os Interlocutores apresento brevemente cada um dos entrevistados.
55 Ver item 5.2.2. Os interlocutores.
Todo esse complexo contexto me deixou ainda mais inseguro, sendo necessário um tempo de vivência de campo para que esse desconforto se diluísse. À medida que fui conhecendo os frequentadores, sendo socialmente aceito e entendendo minimamente seus códigos sociais, foi possível estabelecer relações frutíferas.