5. O LUGAR E A EXPERIÊNCIA
5.4 Paisagem das festas
Antes de iniciar essa seção, faz-se necessário retomar o conceito de paisagem apresentado no primeiro capítulo, que será a base das análises a seguir. Considerei como paisagem das festas tudo aquilo que minha percepção foi capaz de abarcar, levando em consideração as “cores, movimentos, sons” (SANTOS, 1996, p. 61, apud LIMA E ROSA).
É importante salientar que a paisagem que esboçarei é uma representação baseada na minha observação pessoal, “fruto de um processo cognitivo, mediado pelas representações do imaginário social, pleno de valores simbólicos”78 (CASTRO, 2002).
77 Mais adiante, esse assunto será abordado com mais profundidade.
78 “Sendo a paisagem o que se vê, supõe-se necessariamente a dimensão real do concreto, o que se mostra, e a representação do sujeito, que codifica a observação. A paisagem resultado desta observação é fruto de um processo cognitivo, mediado pelas representações do imaginário social, pleno de valores simbólicos. A paisagem apresenta-se assim de maneira dual, sendo ao mesmo tempo real e representação (CASTRO, 2002).”
5.4.1 As casas de show
Reconhece-se facilmente uma festa de aparelhagem quando se passa na frente de uma. O indício inicial é sempre o alto volume do som, que inunda a paisagem sonora local, já que a maioria dos estabelecimentos não possui isolamento acústico. Além disso, a intensa movimentação de pessoas, carros, mototáxis e ambulantes indica que algo de especial está ocorrendo.
Sempre existe algum tipo de letreiro na porta dos eventos que anuncia a aparelhagem da noite. As grandes aparelhagens instalam belos telões de LED, enquanto as mais modestas se utilizam de banners ou faixas simples. Do lado de fora dos eventos das grandes aparelhagens é comum observar caminhões e, às vezes, geradores de energia estampados com a marca da aparelhagem.
Os estabelecimentos em que ocorrem os eventos são os mais variados possíveis.
Existem casas de shows grandes, com boa estrutura como isolamento acústico, ar condicionado e camarote no andar superior. Mas existem também galpões que são improvisados para a realização da festa. É muito comum a utilização de sedes sociais de clubes e associações79, além de pequenas quadras de esportes.
Muitos desses locais não possuem alvará para o funcionamento, o que faz com que constantemente algum deles seja impedido de realizar festas – a característica marcante da informalidade em Belém obviamente está bastante presente nesse meio.
Passado algum tempo, o mesmo galpão volta a ser utilizado pelas aparelhagens e essa reinauguração é usada como mote para a divulgação, conforme explica Maderito:
Olha um exemplo: fechou aqui uma casa de show, como o que foi lá domingo (se referindo ao Porto São José), aí tem um galpão como daqui até lá na escada, chega pro cara do galpão: “Quanto tá o teu galpão para fazer uma festa?”, “Tanto.” Aí paga. “Bora! Aí diz que é a inauguração do “Galpão das Aparelhagens”. Já mudou já. A instância do cara já mudou. Entendeu? Só ir pra lá, aí tu dá uma lavada lá, coloca os contêineres deles pra fazer o barzinho de cerveja, aí pega duas parede, na hora coloca um vaso lá pros caras mijar e foi.
(MADERITO, Comunicação pessoal, 2016)
Um exemplo dessas casas de show improvisadas é o Porto São José. Fui à festa de reinauguração desse local por indicação do DJ Mauro. Ele me informou que iria se apresentar com a sua aparelhagem, a Mauro Som 3D, e a atração principal seria o
79 Por essa razão, muitos frequentadores referem-se aos locais de festa de aparelhagem como ‘sede’.
Crocodilo, a aparelhagem que, na época, estava com grande destaque dentre as de ‘toca tudo’. O Porto São José se localizava numa área bastante degradada às margens da Baía de Guajará. Pelo nome e proximidade com o rio, imagino que o estabelecimento tenha outro uso durante o dia. Em um dos locais onde se comprava bebida, observei uma enorme quantidade de sacos de cimento. Fiquei imaginando que talvez o local sirva de depósito ou estava em vias de ter alguma obra.
Era muito claro para mim que o local não foi construído com o intuito de realizar festas. O lote era bastante grande de comprimento – da porta de entrada até o fundo – mas extremamente apertado de largura. A aparelhagem Crocodilo, com suas estruturas metálicas, equipamentos sonoros, nave e inúmeros telões de LED, era incrivelmente grande em relação ao local. Provavelmente por não caber de outra forma, a aparelhagem foi instalada lateralmente, sobrando muito pouco espaço para o público à frente.
Aparentemente, o público do segmento ‘toca tudo’ é menos exigente em relação à estrutura física dos locais devido às características desse tipo de festa, em que a dança aos pares não é uma prioridade. Já para os frequentadores de ‘saudade’ e de
‘marcantes’, cuja dança é central na fruição das festas, não é qualquer local que é propício. Alguns desses frequentadores se queixaram do piso de alguns estabelecimentos que estragam os sapatos, forçando-os a ter que trocar a sola do calçado de tempos em tempos. Além disso, reclamam que nas festas de ‘toca tudo’ as mesas ocupam todo o salão, não restando espaço para dançar, e o piso geralmente fica molhado com as bebidas e a água resultante do gelo derretido dos baldes de cerveja.
5.4.2 Padrões de organização das festas
Uma vez dentro das festas, é possível perceber alguns padrões de organização da paisagem observada, para além das peculiaridades de cada estabelecimento. Esses padrões variam de acordo com o segmento de festa, sendo ‘saudade’ e ‘marcantes’
semelhantes entre si e ‘toca tudo’ um pouco diferente. As festas de ‘saudade’ e de
‘marcantes’ são as que se destacam pelo fato do público dançar aos pares. Por essa razão, a parte central dos salões sempre se encontra livre para os casais dançarem, tal como uma pista de dança, enquanto que em volta são colocadas diversas mesas de
plástico. Os frequentadores que não estão dançando ficam próximos às mesas80, em geral, postados em direção à pista de dança.
Figura 18 - Paisagem de uma festa de ‘saudade’
Nas festas do segmento ‘toca tudo’ não há espaço reservado para a pista de dança. Os frequentadores ficam em pé à frente da aparelhagem, tal como o público de um show em frente ao palco. As mesas de plástico são espalhadas por todo o local e quase não se verifica a existência de cadeiras. Os frequentadores ficam dispostos ao redor da mesa em formato de meia lua, igualmente em pé e voltados para a nave. No centro dessas mesas ficam baldes de plástico cheios de latas de cerveja imersos em gelo, fato esse comum a todos os ‘segmentos’ de festa.
80 Nas festas de ‘saudade’ é comum observar cadeiras colocadas junto às mesas. Pela minha experiência, os frequentadores se sentam no início das festas quando o clima está mais tranquilo. À medida que a festa enche e se torna mais animada, poucas pessoas ficam sentadas.
Figura 19 - Paisagem de uma festa do segmento ‘toca tudo’
Apesar do interesse aqui estar focado nos frequentadores, não é possível realizar uma descrição da paisagem de uma festa de aparelhagem sem considerar a própria aparelhagem, que provoca e estimula conscientemente reações diversas no público.
Conforme já foi apresentado, as aparelhagens possuem estruturas de som, luz e efeitos especiais que podem ser tão grandes que mal cabem nas sedes. Geralmente, a aparelhagem é montada de costas para uma das paredes laterais do local. Existem diversas festas em que estão presentes mais de uma aparelhagem. Nessas ocasiões, cada aparelhagem é montada em uma das extremidades, sendo muito comum elas ficarem uma de frente para outra.
Nas laterais ou nos fundos se localizam os bares, muitas vezes montados por uma estrutura provisória, e alguns garçons circulam pela festa abastecendo os baldes com cerveja. Em alguns estabelecimentos existiam espécies de mezaninos, também nas
laterais ou no fundo, que serviam de camarotes. Além disso, é comum existirem barracas de alimentação, com destaque para as comidas típicas do Pará como tacacá, caruru e vatapá. É bastante comum, também, pequenas vendinhas com balas e cigarros.