PLANEJAMENTO URBANO PARA BACIAS HIDROGRÁFICAS NO CONTEXTO DA
2.1.3. Desafios e conflitos para a adaptação de cidades
A mudança climática é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável. Contudo, existem muitas oportunidades para conectar a mitigação, a adaptação e a busca por outros objetivos sociais através de respostas integradas. A implementação bem sucedida dessas estratégias depende de ferramentas pertinentes, estruturas governamentais adequadas e aumento da capacidade de resposta (IPCC, 2015, p.
31).
A abordagem da adaptação está condicionada à probabilidade de se superar desafios impostos pela mudança climática, que compreendem desde questões relacionadas ao desenvolvimento econômico até adversidades socioculturais. Portanto, diante da necessidade de redução da vulnerabilidade socioambiental da população e a multidisciplinariedade na natureza destes desafios, é indispensável a integração das políticas públicas e áreas do conhecimento para a promoção de medidas efetivas de adaptação – e mitigação – das cidades (SMIT; PILIFOSOVA, 2003).
Entende-se que o primeiro passo deve ser no sentido de reverter o atual padrão de desenvolvimento urbano insustentável que contribui para a continuidade e ampliação das vulnerabilidades socioambientais e dos processos intensificadores da mudança climática.
Paralelamente à isto, destaca-se a necessidade de superação das desigualdades existentes – tanto na esfera local como na global – e dos limites impostos pela pobreza. Como já mencionado, este último fator condiciona a capacidade adaptativa das populações e amplia os efeitos gerados pela mudança climática. Logo, os países em desenvolvimento são mais vulneráveis ao fenômeno e possuem uma menor capacidade adaptativa do que os países desenvolvidos, devido, principalmente, à má distribuição de renda entre a população e ao fato de serem mais pobres, além da instabilidade institucional, a falta de acesso e disseminação de conhecimento (SMITH et al., 2003).
Considerando tal suscetibilidade dos sistemas nos países em desenvolvimento, aliada à proeminente ameaça de intensificação dos eventos climáticos, é indiscutível a prioridade das ações voltadas para a redução das vulnerabilidades frente às ocorrências extremas sobre estratégias que visam a adaptação às mudanças ao longo prazo. No entanto, Smith et al. (2003) questionam o quão bem sucedidas podem ser as adaptações específicas se a capacidade adaptativa destes sistemas for limitada. Ou ainda, se caso o acesso à tecnologia e à informação e a estabilidade institucional for limitada, poderiam as adaptações específicas ser bem implementadas, conservadas e permanentes? Tal dilema ainda é exacerbado pela dificuldade em administrar a forma mais eficaz de aplicação dos
fundos – nacionais e internacionais – criados para a adaptação à mudança climática. Além disso, alia-se a este contexto outras adversidades – nos sistemas de saúde, educação, renda e infraestrutura urbana, por exemplo – que dificultam tornar a sociedade mais preparada para superar os impactos da mudança climática. Portanto, “transformações nas ações e decisões das esferas econômica, social, tecnológica e política podem corroborar com a adaptação e promover um desenvolvimento sustentável.” (IPCC, 2015, p. 20).
Compreendendo que esta discussão envolve muitos processos complexos que ocorrem dentro da sociedade, foram sintetizados no quadro 5 os principais fatores limitantes impostos para as estratégias de adaptação e mitigação.
Quadro 5 | Fatores que restringem a implementação de medidas de adaptação e mitigação
FATOR LIMITANTE IMPLICAÇÕES POTENCIAIS APRA A
FATOR LIMITANTE IMPLICAÇÕES POTENCIAIS APRA A dentro de uma nação – em contribuir para a mitigação das emissões dos gases de efeito estufa.
Fonte: IPCC, 2015, p. 95, adaptado e traduzido pela autora.
De uma maneira geral, pode-se dizer que as respostas de adaptação e mitigação de um sistema ou comunidade são sustentadas por alguns fatores indutores, entre eles estão a existência de instituições e governos efetivos, escolhas comportamentais e de estilo de vida, investimentos e inovação em tecnologias e infraestruturas ambientalmente seguras (IPCC, 2015). Tais fatores podem, simultaneamente, contribuir para a efetividade das ações mitigadoras e adaptativas, diminuindo as emissões de gases de efeito estufa e aumentando a resiliência dos sistemas humanos, além de evitar impactos adversos da mudança climática nos sistemas naturais.
Por outro lado, as estratégias de adaptação e mitigação são limitadas pela inércia das tendências global e regional de alguns setores, especialmente aqueles relacionados ao desenvolvimento econômico, ao consumo de energia e recursos naturais, os padrões de uso e ocupação do solo, infraestrutura, emissões de gases do efeito estufa, tecnologias, ações institucionais, entre outros. Para o IPCC (2015), tal inércia compromete a capacidade de redução das emissões assim como de evitar impactos adversos da mudança climática e, portanto, algumas dessas restrições podem ser superadas através de algumas mudanças
conscientes nos hábitos sociais e culturais, de novas tecnologias e recursos financeiros voltados para as questões climáticas.
Além disso, iniciativas que visam melhorar as estruturas institucionais e intensificar a coordenação e cooperação dentro da governança podem auxiliar na superação de determinados desafios associados a tais fatores limitantes. A inclusão e integração da sociedade como um todo nos processos da governança urbana são essenciais para fortalecer as estratégias de adaptação e mitigação nas diferentes escalas de atuação. A conscientização e compreensão abrangente da população sobre os impactos das alterações no clima facilitam a aceitação social de determinadas medidas, que em casos extremos, tendem a ser drásticas.
Dentro deste cenário da mudança climática, quando o olhar se volta para as bacias hidrográficas, estas relações tornam-se ainda mais complexas. A escassez da água e a degradação dos mananciais responsáveis pelo abastecimento da população – como é o caso da RMSP, onde localiza-se o objeto de estudo desta pesquisa – tendem a ser exacerbados, de um lado pelos impactos da mudança climática, e de outro, pela extensão da ocupação precária existente em áreas protegidas. Diante deste quadro, são muitos os desafios enfrentados pelo Poder Público e pela sociedade na busca por novas alternativas de proteção destas áreas e implementação de estratégias para uma ocupação sustentável.
Dentre estes desafios, destaca-se a necessidade de novos caminhos para o planejamento e gestão que garantam, simultaneamente, a disponibilidade e qualidade da água, assim como a implementação de ações voltadas para a requalificação ambiental e urbanas que considerem as populações que habitam as regiões protegidas de mananciais (ALVIM;
KATO; BRUNA, 2012). Soma-se à isto, a inevitável e crescente necessidade de articular estas ações incorporadas às questões envolvidas na adaptação – urbana e hídrica-ambiental – à mudança climática.