PLANEJAMENTO URBANO PARA BACIAS HIDROGRÁFICAS NO CONTEXTO DA
2.2. POLÍTICAS URBANAS E MARCOS LEGAIS NO BRASIL
2.2.2. Recursos hídricos e bacias hidrográficas: escalas e gestão
Muito embora a água seja considerada um recurso natural renovável, ou seja, um recurso que apresenta aspectos contínuos e permanentes de circulação, nas últimas décadas houve uma ampliação do debate sobre sua escassez, sobretudo devido a forma e a velocidade de apropriação e utilização da mesma pela sociedade. Além disso, em muitas regiões do mundo a distribuição da água é desigual, o que faz com que as cidades e sua população lidem com problemas constantes em relação à sua disponibilidade.
Esta probabilidade de uma severa escassez de água no mundo – exacerbada pelo contexto da mudança climática – incentiva a busca por novos padrões de gestão e planejamento das cidades. Na tentativa de solucionar e equacionar os conflitos dessa problemática – que se sobrepõe aos diversos usos do recurso – diversos países optaram
por uma estruturação no sistema de gestão dos recursos hídricos através da incorporação da participação popular, do estabelecimento de parâmetros para controle dos limites de sustentação dos sistemas naturais, além da criação de instrumentos de normatização do uso do solo e mecanismos de cobrança pela utilização da água e da poluição gerada (MARCONDES, 1999).
Muitos corpos d’água são utilizados como local de despejo de esgoto e outros dejetos. Outros, como muitos rios e córregos, são tamponados, canalizados ou ainda
“esquecidos”. Em diversos casos as margens e os solos frágeis desses corpos d’água são também apropriadas de forma inadequada pela população que não possui outra opção de moradia. Casos como estes mencionados evidenciam “situações simultâneas de incompatibilidade e ilegalidade da ocupação urbana ou mesmo atuações desarticuladas entre os setores ligados aos recursos hídricos e outras políticas setoriais relativas ao uso do território.” (ALVIM; BRUNA; KATO, ibid., P. 145).
A bacia hidrográfica é uma área que capta naturalmente as águas pluviais e as converge dos locais mais altos para os mais baixos, para um único ponto de saída. Portanto, esta unidade territorial é formada por um “conjunto de superfícies vertentes e de uma rede de drenagem formada por cursos de água que confluem até resultar em um leito único no seu exutório”, o ponto de menor altitude do seu território, para onde converge todo o escoamento hídrico superficial de qualquer ponto do interior da bacia. (TUCCI, 1997 apud PORTO; PORTO, 2008, p. 45).
Figura 16 | Bacia Hidrográfica
Fonte: SILVA, 2016, p. 32, adaptado pela autora.
O rio principal de uma bacia hidrográfica, por convenção, é o de maior fluxo de água que liga a nascente ao exutório. Os seus afluentes são tributários secundários que conduzem a água para o rio principal e, na mesma lógica, os outros rios que confluem a água para os afluentes são denominados subfluentes do rio principal. Este sistema que distribui a água por toda a extensão da bacia é chamado de rede de drenagem e é composto por, no mínimo, um rio principal e seus afluentes (BERNARDI et. al., 2012).
Na extensão drenada as águas das chuvas, ou escoam para as partes mais baixas pela superfície e formam riachos e rios, ou infiltram no solo para o lençol freático. Na medida em que as águas descem em direção ao ponto mais baixo do território, o volume aumenta e os riachos juntam-se para formarem pequenos rios e, estes por sua vez, continuam receptando água de outros afluentes e formam rios maiores, até desembocarem no oceano ou passam a fazer parte de outra bacia hidrográfica mais abrangente (TEODORO et. al., 2007). Os pontos mais altos – chamados de linha de cumeada ou divisora de águas – funcionam como pontos de interface e divisão entre bacias, e os pontos mais baixos, são os fundos de vale.
Dessa maneira, entende-se que a bacia hidrográfica é um elemento sistêmico, onde ocorrem as entradas e saídas da água e nela podem ser delimitadas bacias e sub-bacias, conectadas e inter-relacionadas através dos sistemas hídricos. Embora a literatura sobre o assunto aponte para diferentes concepções e dimensões para os tamanhos de bacias e sub-bacias, Porto e Porto (2008) destacam que sua escala a ser utilizada varia de acordo com o problema que deve ser solucionado e, portanto, o tamanho ideal da bacia deve ser aquele que incorpore por inteiro a problemática em questão.
Figura 17 | Sub-bacias hidrográficas
Fonte: SILVA, 2016, p. 33, adaptado pela autora.
As sub-bacias consistem em áreas de drenagem dos rios tributários e afluentes do rio principal (TEODORO et. al., 2007). As bacias hidrográficas podem ser decompostas em inúmeras sub-bacias e esta decomposição opera dentro de um sentido de estrutura, onde cada bacia interliga-se com outra de ordem hierárquica superior, e portanto, em relação à esta última constitui-se como uma sub-bacia. Portanto, a partir desta interpretação, entende-se a importância de entende-se contextualizar a bacia hidrográfica como um componente de um sistema geográfico maior e “constituinte de uma territorialidade múltipla” (SILVA, 2016, p.
33), em diferentes escalas, sendo necessária a sua diferenciação entre seus aspectos regional e continental do metropolitano e local.
A bacia hidrográfica, quer seja ela de 1ª, 2ª, 3ª ou 4ª ordens, constitui uma unidade natural, cujo elemento integrador está representado pelos leitos fluviais ou canais de drenagem naturais. A bacia hidrográfica, embora se constitua em um sistema natural cujo referencial é a água, não se torna automaticamente um único sistema ambiental, seja do ponto de vista natural, quando se levam em conta os demais componentes da natureza, como relevo, solos, subsolo, flora e fauna, seja do ponto de vista social, quanto se consideram as atividades econômicas e
político-administrativas. Tanto os primeiros, quanto os segundos, quase nunca estão atrelados a esse referencial. (ROSS; DEL PRETTE, 1998, p. 101).
Assim como destaca Odum (2013), a bacia hidrográfica representa uma unidade da paisagem conveniente para análise e gestão em uma escala ampla devido ao fato de apresentar, na maioria dos casos, limites naturais facilmente identificáveis. Em seu ponto de saída – o exutório – convergem os elementos e procedimentos que ocorre no território da bacia, logo, neste ponto, estarão representados todos os processos integrantes de seu sistema. Assim, “o que ali ocorre é consequência das formas de ocupação do território e da utilização das águas que para ali convergem.” (PORTO; PORTO, 2008, p. 45). Dessa maneira, entende-se que a bacia hidrográfica é uma importante ferramenta para a análise e monitoramento do funcionamento dos componentes constituintes desta unidade territorial, sobretudo aqueles relativos ao planejamento do uso e ocupação do solo e gestão dos recursos hídricos, tendo em vista que a água é um dos elementos naturais que mais agravam os conflitos existentes entre território, sociedade e desenvolvimento.
Portanto, para que a gestão dos recursos hídricos ser efetiva, devem ser considerados e integrados todos os aspectos físicos, sociais e econômicos existentes, já que estes interferem diretamente no uso e na proteção ambiental do recurso. A bacia hidrográfica, por ser o locus onde ocorrem as interações do ciclo hidrológico com o meio físico e natural, o meio social, cultural e econômico, permite este tipo de abordagem integrada e é considerada como a unidade de planejamento e gestão ambiental ideal (YASSUDA, 1993 apud PORTO; PORTO, 2008). Dessa maneira, compreende-se que devido ao seu aspecto agregador, a bacia hidrográfica é uma ótima unidade territorial de gestão tanto de elementos naturais quanto sociais, e põe em perspectiva a necessidade da gestão e o planejamento serem entendidos de forma integrada.
A utilização da bacia hidrográfica, enquanto unidade de gestão e estudo das diversas atividades e usos das potencialidades ambientais, tem como objetivo delinear, executar, intervir e manipular as melhores maneiras de apropriação e exploração dos recursos naturais disponíveis. Assim, a partir disso, busca-se proporcionar o desenvolvimento socioeconômico da população que ali usufrui dos recursos, assim como da sustentabilidade, evitando impactos negativos para a sociedade e para o meio ambiente (BERNARDI et. al., 2012).
Sobre este aspecto, destaca-se que a discussão acerca da gestão dos recursos hídricos remete explicitamente à noção do desenvolvimento sustentável. Logo, enquanto este estiver incorporando a unidade da bacia hidrográfica, deve considerar as relações e conflitos existentes entre o desenvolvimento ambiental, social e econômico, sendo um resultado da convergência da equidade social como resultado de um processo distributivo
da economia, adotando-se limites referentes à capacidade de suporte dos ecossistemas (ALVIM; BRUNA; KATO, 2008). A articulação entre as políticas ambientais – inclusive aquelas que incorporam a gestão dos recursos hídricos – e as demais políticas urbanas e setoriais que atuam sobre o território de uma bacia hidrográfica, é condição essencial para o desenvolvimento sustentável.
Consequentemente, o planejamento e gestão da bacia hidrográfica deve dar prioridade às estratégias que visam a integração entre os processos de desenvolvimento que, simultaneamente, incentivem o crescimento econômico, a equidade – social, ambiental e econômica – e o respeito aos limites da capacidade dos ecossistemas de suportarem as intervenções humanas. Nesse ponto, observa-se que o maior obstáculo para a gestão dos recursos hídricos é justamente como implementar sistemas de gestão que possam ser capazes de conciliar estas três esferas que permitirão o desenvolvimento sustentável da região. No contexto da mudança climática, esta abordagem é imprescindível para que se possam ser implementadas ações de adaptação das cidades, permitindo o desenvolvimento da sociedade ao mesmo tempo em que há uma redução da vulnerabilidade da população mais pobre e conservação dos recursos hídricos e ambientais existentes nas áreas de mananciais.
No Brasil, a partir do reconhecimento crescente da complexidade das questões relacionadas ao uso da água, a Política Nacional de Recursos Hídricos – Lei Federal 9.433/97 – incorporou princípios e normas para a gestão descentralizada, participativa e integrada da água, consolidando o sistema de gestão da mesma a partir da unidade territorial da bacia hidrográfica. Isso se deve, além dos motivos citados acima, pelo fato de que nela também é possível observar com facilidade as variações nos processos hidrológicos, sobretudo os registros e intensidades na entrada e saída da água. Dessa maneira, assim como Bernardi et. al. (2012) destaca, o tratamento individual de cada caso possibilitará que sejam valorizadas e consideradas as singularidades de cada bacia, sendo desenvolvidas estratégias de gestão específicas conforme as condições existentes em cada caso.
Precedente à lei federal, a Política Estadual de Recursos Hídricos do Estado de São Paulo – Lei Estadual 7.633/91 – foi pioneira no Brasil pois adota a bacia hidrográfica como unidade territorial de planejamento dos recursos hídricos. Esta mesma lei também instituiu o Sistema Integrado de Gerenciamento dos Recursos Hídricos em São Paulo (SIGRH), órgão responsável pela execução das políticas das águas no território paulista, coordenado e integrado por três orgãos: os Comitês de Bacias Hidrográficas (CBHs), o Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CRH) e o Comitê coordenador do Plano Estadual de Recursos Hídricos (CORHI). O SIGRH conta também com o Fundo Estadual de
Recursos Hídricos (FEHIDRO), responsável por viabilizar financeiramente os projetos do sistema.
Esta descentralização da gestão – que como resultado obteve a adoção da bacia hidrográfica como unidade territorial de planejamento e gestão das águas – culminou na delimitação de 22 Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos (UGRHIs) e os órgãos consultivos e deliberativos que gerem estas unidades são os Comitês de Bacias Hidrográficas. Os planos nacional e estadual também reconheceram a necessidade do controle social para efetivar a gestão participativa no das águas, assim como da integração, sobretudo da qualidade e quantidade das águas, a partir de ações que promovam usos múltiplos do recurso. Porém, como ressalta Jacobi e Fracalanza (2005), estes dois aspectos – qualidade e quantidade – e os usos da água estão diretamente associados à dinâmica do processo de produção do espaço e aos usos do solo ligados à atividade humana, dificultando sua determinação através de políticas públicas.
Muito embora o recorte da bacia hidrográfica seja ideal para lidar com a problemática ambiental e sua interrelação com outros agentes do território, este não é o único espaço para a sua gestão (ibid.) Em muitas ocasiões as divisões da bacia hidrográfica não seguem qualquer delimitação de limites político-administrativos e sim, segue a lógica territorial dos corpos d’água. Dessa maneira, deve-se considerar a relação da bacia com outros sistemas que e instituições que atuam em limites distintos. Sendo assim, considera-se primordial a articulação entre as diversas instituições, sociedade civil, estados e municípios para que gestão dos recursos hídricos e proteção ambiental dessas áreas possam atender a sociedade.
A Política Estadual de Recursos Hídricos implementou um modelo de gestão que englobasse os três principais agentes que atuam sobre o território – Estado, municípios e sociedade civil – na tentativa de equacionar os conflitos do uso da água que ocorrem dentro de um recorte definido pelo viés ambiental – a bacia hidrográfica – que não coincide com os limites político-administrativos existentes dos municípios (ALVIM; KATO; ROSIN, 2015).
Observa-se a existência constante de obstáculos a serem enfrentados ao lidar com este recorte geográfico, uma vez que os recursos hídricos exigem, necessariamente, uma gestão compartilhada entre a administração pública e os órgãos competentes, e cada um destes setores pertencem na maioria das vezes a divisões administrativas distintas.
No que tange as questões acerca da mudança climática, essa articulação multisetorial e disciplinar se faz ainda mais urgente para que as ações e projetos de planejamento urbano e territorial possam interferir de modo positivo na transformação dessas áreas, além de diminuir a vulnerabilidade das populações moradoras e dos recursos
naturais – especialmente os hídricos – aos potenciais impactos da mudança climática associados à ocupação urbana. Como já mencionado anteriormente, a própria abordagem da “governança climática” visa uma aproximação multisetorial e estruturada de acordo com as características geográficas do território. Portanto, entende-se que a unidade territorial da bacia hidrográfica se apresenta como ideal estudo e monitoramento dos aspectos relacionados à gestão dos recursos hídricos associados às políticas de governança voltadas para a mudança climática.