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1. A Política Pública Federal da Habitação e o Setor da Construção Civil Brasileira no

1.4. Desafios Futuros do Setor no contexto da Sustentabilidade

O mundo hoje sente os efeitos da ação do homem sobre a natureza e seu equilíbrio cada vez mais intensamente, e por isso, é essencial que caminhemos em direção a um modelo de desenvolvimento sustentável, ou seja, um modelo que consiga equilibrar as demandas sociais com prudência ambiental e com viabilidade econômica, isto é, não se deve optar por um quesito em detrimento dos demais.

Vimos que o setor da construção civil é estratégico para o desenvolvimento de qualquer país, seja para a manutenção do que já existe – prédios, estradas e usinas, por exemplo – seja para a construção de novos empreendimentos que possibilitem a melhoria da qualidade de vida das pessoas – escolas, hospitais e moradias, por exemplo.

Vimos também que este mesmo setor é um dos maiores poluidores do planeta,

consumindo uma quantidade enorme de recursos e lançando de volta à Terra uma quantidade igualmente enorme de resíduos de construção e demolições, afetando a qualidade do ambiente em que nós e tantas outras espécies vivemos, assim como afetando diretamente nossa saúde devido à poluição do ar, do som e da água, por exemplo.

A pressão pela sustentabilidade já vem crescendo e se intensificará cada vez mais, seja devido ao esclarecimento dos cidadãos/consumidores seja devido ao aumento de catástrofes naturais que chocam – e afetam – a humanidade (JACOBI, 1999; MANZINI; VEZZOLI, 2002). Desta maneira, um dos setores mais poluentes do mundo não está imune a estas pressões;

portanto, é fundamental que a cadeia da construção civil busque se capacitar para entregar aos seus consumidores soluções que atendam às necessidades observadas e ao mesmo tempo respeite o ambiente de todos.

Desde as primeiras reuniões sobre a questão ambiental nos anos 80, diversos instrumentos têm sido desenvolvidos para orientar Estados, empresas e sociedade civil no caminho em direção ao desenvolvimento sustentável, um deles é a Agenda 21 que pode ser

definida como “um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis, em diferentes bases geográficas, que concilia métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica”18 e pode ter desmembramentos menores a partir da agenda global, sendo desde um país a uma localidade ou setor da economia.

Neste trabalho de planejar a construção de setores sustentáveis, John et al. (2001)

apresentam o histórico da construção de uma Agenda 21 para a Construção Sustentável, dedicada aos países desenvolvidos e elaborada pelo Conselho Internacional para Pesquisa e Inovação na Construção (CIB) e a necessidade da construção de uma Agenda 21 para o setor em países em desenvolvimento devido à grande diferença de contextos entre estes países.

As discussões sobre esta agenda para o setor em países em desenvolvimento foram apresentadas em 2002 pelo CIB e tratam, assim como discutiram John et al. (2001), das especificidades do mundo em desenvolvimento, como os desafios na busca de moradia

sustentável e acessível a milhões de pessoas que não possuem poder aquisitivo para adquirir suas casas sozinhas, o desafio de promover a construção sustentável em locais cuja infraestrutura básica é muito precária desde a produção de materiais de construção dentro das especificações até estradas ruins e problemas no abastecimento de água e energia (CIB, 2002).

A Agenda proposta pelo CIB resume, com ações organizadas em 6 grupos, os principais desafios para os agentes participantes da cadeia da construção civil de países em

desenvolvimento no contexto da sustentabilidade e serão apresentadas no quadro a seguir.

18

Definição disponível no site do Ministério do Meio Ambiente, no link:

QUADRO 11 – RESUMO: UMA ESTRATÉGIA PARA AÇÃO Ações para o setor de pesquisa e

educação Ações para o setor privado

Ações para os consumidores

Ações para o governo e stakeholders reguladores C ons tr u çã o de C apa ci d ade

Construir capacidade interna; Expandir oferta de aprendizado.

Possibilitar o aprendizado organizacional contínuo;

Apoiar a construção de capacidade externa.

Desenvolver entendimento sobre sustentabilidade e seus benefícios.

Criar um conselho consultivo de stakeholders; Disseminar conhecimento sobre construção sustentável entre os membros do governo; Introduzir aprendizado profissional contínuo.

A ce ss o a fi n anc ia m ent

o Identificar e buscar fontes adequadas

de financiamento;

Ser criativo no uso dos fundos disponíveis;

Lutar ativamente por financiamento da construção sustentável.

Prover fundos para P&D para próprio benefício;

Financiar através do orçamento da Responsabilidade Social Empresarial (RSE) pesquisa para o bem comum.

Utilizar as economias com a construção sustentável para financiar o custo adicional de sua implantação.

Rever o escopo dos fundos existentes; Negociar melhores condições de acesso aos fundos de organismos internacionais; Prover fundos para novos negócios e tecnologias inovadoras;

Prover fundos para treinamento e desenvolvimento profissionais. P ar ce ri as e c oop er aç

ão Estabelecer parcerias intersetoriais;

Criar uma rede Sul-Sul de pesquisadores e educadores; Tornar claras as questões de

compartilhamento de conhecimento; Procurar parcerias de ensino e pesquisa com outros setores.

Cooperar na implantação da agenda de P&D;

Fazer parceria com organizações de pesquisa;

Formar coalizão na indústria para fomentar pesquisa pré-competitivas e de desenvolvimento de instrumentos de capacitação.

Fazer parcerias com institutos de ensino e pesquisa;

Formar grupos de pressão de consumidores por mais produtos e serviços sustentáveis.

Incluir o setor informal;

Incluir lideranças tradicionais nos projetos; Firmar parceria com institutos de ensino e pesquisa. M an ut enç ão in te rna

Revisar os currículos existentes; Aplicar o que se ensina.

Avaliar os riscos de não-conformidade e os benefícios da conformidade; Desenvolver planos estratégicos para cada indústria diferente;

Mudar os valores organizacionais; Melhorar a eficiência do uso dos recursos e diminuir seus impactos.

Repensar os sistemas próprios de aquisição.

Liderar pelo exemplo;

Adotar um quadro de referência sobre construção sustentável;

Compatibilizar com acordos e quadros de referência internacionais;

Mudar o quadro de compensação profissional.

Inc ent ivo à im pl em en ta ção Transferir tecnologia; Promover conscientização; Advogar pela causa.

Auxiliar na incubação de novos nichos de mercado;

Usar novas tecnologias e processos; Criar demanda.

Usar influência do governo para dirigir o mercado para a sustentabilidade.

Modificar padrões e regulamentos de forma a apoiar a construção sustentável;

Prover incentivos e desincentivos apropriados; Reforçar a regulação. M on it or am ent o e A v al ia çã

o Prover monitoramento independente

aos setores público e privado; Introduzir instrumentos para o próprio monitoramento e avaliação.

Adotar formas de balanço social/sustentável;

Participar de programas de certificação; Coletar informações para

monitoramento e avaliação. Participar de programas de avaliação e monitoramento; Monitorar o custo- benefício obtido.

Definir critérios legais para esquemas de monitoramento e avaliação;

Participar de esquemas de monitoramento e avaliação.

É possível observar que muitas ações propostas pela Agenda 21 para países em

desenvolvimento se assemelham às ações colocadas como desafios a partir do estudo prospectivo do futuro do setor brasileiro da construção civil, corroborando as análises feitas neste trabalho.

No contexto global de sustentabilidade, segundo tal Agenda, o setor brasileiro da

construção civil deverá efetuar a transição em andamento de um modelo quantitativo de réplicas segundo especificações para um modelo qualitativo de desempenho que atenda à demanda existente por soluções habitacionais assim como às exigências de prudência ambiental e viabilidade econômica.

Todos os agentes participantes precisam assumir sua parte de responsabilidade nesta transição. O setor de ensino e pesquisa poderá através da construção de uma ampla rede entre as nações em desenvolvimento, firmar parcerias com os agentes públicos, privados e a sociedade civil a fim de disseminar conhecimento, financiar a pesquisa de novos conhecimentos e prover serviços independentes de monitoramento e avaliação que guiem os demais agentes em direção à construção sustentável.

O setor privado necessita repensar seus valores e objetivos e a partir daí buscar soluções que permitam o alcance destes objetivos desejados dentro do novo contexto de sustentabilidade existente, através da cooperação com os demais agentes do setor (concorrentes, governos, institutos de ensino e pesquisa e consumidores) para o desenvolvimento, adoção, avaliação e contínua melhoria de produtos e processos, isto é, na busca da inovação, importante ferramenta para a construção sustentável.

Os consumidores, como elo essencial na existência dos mercados, precisam utilizar deste poder – seja sozinho ou em conjunto com outros consumidores – para estimular os demais agentes, em especial os governos e as empresas, no engajamento à busca e oferta de soluções para a construção sustentável. É fundamental, para isso, que os consumidores busquem

conhecimento sobre a questão da sustentabilidade, sobre este conceito aplicado à construção e seu estilo de vida.

Por fim, os agentes públicos necessitam se encarregar da construção do arcabouço legal e das estruturas institucionais necessárias para o efetivo alcance da construção sustentável. Através da edição de normas, regulamentação de profissões, promulgação de leis e criação de órgãos e políticas para o incentivo (ou desincentivo) aos comportamentos necessários para tal

transformação, assim como transformar a si mesmo, revendo regras e processos internos, dando maior transparência e poder de controle aos cidadãos sob seus atos.