4 DESENVOLVIMENTO HUMANO
4.4 DESAPEGO E RECIPROCIDADE
Diante do desejo de que os fatores anteriormente discutidos se efetivem e
para que o constante desenvolvimento pelo qual passa a pessoa possa encontrar
elementos que lhe facilitem, é preciso também o desapego. Este significa a abertura
constante à mudança, ao novo, à atualização. É por essa disposição ao novo que o
desapego se justifica entre os princípios da interdisciplinaridade (FAZENDA, 2002).
Com a ajuda dele, a
Interdisciplinaridade compreende a busca constante de novos caminhos, outras realidades, novos desafios, a ousadia da busca e do construir. É ir além da mera observação, mesmo que as realidades do cotidiano teimem em nos colocar perplexos e inseguros diante do desconhecido ou estimulando a indiferença para evitar maiores compromissos (SOUZA, 2002, p.120).
Para tanto, ao contrário do que se pensa, o desapego não é nunca o negar-se
do passado, mas sim o desejo constante de evolução. Por isso, ele se vale da
humildade ao saber que o caminho da evolução é constante e que o tempo das
transformações é inseparável ao tempo em que se vive. Ele se utiliza do respeito ao
passado, às experiências anteriores, à memória, mas sempre os utilizando como
impulsão ao futuro. Traz consigo a espera vigiada, como que reconhecendo que a
cada nova etapa os desafios aumentam e tornam-se cada vez mais decisivos, para
o que é preciso refletir antes de qualquer decisão.
O desapego significa desprender-se dos preconceitos com relação ao novo,
por mais assustador que uma nova visão possa ser. Assustador, no sentido de que
os homens se sentem desconfortáveis diante do inédito, da incerteza e das
inúmeras variáveis que o desconhecido apresenta, colocando em situação difícil a
segurança adquirida pelas experiências passadas. É como se o passado, por pior
que tenha sido, fizesse mais sentido, ou melhor, é que sobre as coisas do passado o
homem tem certo domínio de suas atitudes. Porém, é preciso superar esse receio e
aventurar-se por novos horizontes.
O docente não pode questionar seu aluno quanto a uma nova perspectiva se
ele próprio não se relaciona com o futuro. O primeiro a dar esse passo rumo à
mudança, que sempre há de ser incerta, é o professor. “Para socorrer
e, antes de tudo, ter a inteligência do que ele compreende, sem o que a minha
qualidade de mestre não lhe será de nenhum proveito” (GUSDORF, 1987, p.140). O
docente, em sua atitude interdisciplinar, está na vanguarda dessas reações,
chamando e incentivando aqueles que desejam alcançá-lo.
Apenas quando o docente interdisciplinar e a escola em si se desligarem do
comodismo que acompanha o passado e assumirem a ousadia da inovação é que
se iniciará a construção de um ambiente capaz de promover efetivamente o
desenvolvimento humano.
A antiga visão de escola está vinculada à atrofiada percepção da pura
divulgação do conhecimento. Porém, a instituição em questão abriga pessoas, cada
uma com sua história, com sua identidade, cheia de valores e de desejos, que
nascem e se reforçam fora das paredes da escola. Quando as pessoas adentram o
recinto, é impossível focarem-se totalmente nas atividades propostas. Não é mais
permitido ignorar tais aspectos. Para facilitar o desenvolvimento humano, é preciso
entender e assumir os elementos em questão.
Assumindo essa interpretação multifacetada das pessoas que a compõem,
aceitando que cada uma traz para dentro da escola situações e sentimentos
ocorridos em sistemas diferentes e distantes do microssistema escolar, apontamos o
ponto propedêutico para uma relação baseada na “Reciprocidade”. A escola
apresenta seu corpo teórico de conhecimento, oferece aos seus toda base científica
atual e recebe em troca a experiência, a vida de cada um que compõem seu interior,
dos docentes aos alunos. O resultado dessa troca se dá num conhecimento
significativo, que abrange todas as características da pessoa, a intelectual, a social,
a emocional e a psicológica. Consequentemente, faz com que as ações adotadas
tornem o local um espaço de desenvolvimento.
A escola consciente da complexidade daqueles que a formam passa a
participar diretamente da regulação da atenção, das emoções, dos comportamentos
e, é claro, da aprendizagem. Nesse contexto, cada pessoa vivencia inúmeras
situações: relação entre pares, grupos, amizade, competição, rivalidade,
aprendizagem e descoberta do novo, entre tantas outras. Diante de tudo isso, a
escola pode promover a autoestima e a auto-eficácia, capacitando a todos em
habilidades sociais, além de influenciar o relacionamento entre o grupo de iguais por
meio de normas, de regras e da cultura da própria instituição (POLETTO; KOLLER,
2008).
Tornar real todas as transformações sugeridas até aqui não é algo fácil. Os
desafios em adotar novos rumos são tão grandes e cheios de obstáculos. Há, em
inúmeros momentos, o sentimento de insegurança, a incerteza quanto ao sucesso e
quanto à efetividade das ações, que se não forem bem trabalhados pelo professor,
se não forem superados com coragem, confiança e ousadia podem dominar aqueles
que decidem pela interdisciplinaridade, degenerando no desejo de abandonar sua
nova atitude e retornar aos moldes antigos. Com as antigas ações, havia ao menos
a falsa segurança de que conheciam os procedimentos, ainda que esses estivessem
defasados e fossem falhos.
Mesmo com tanto receio, é preciso continuar. Saint-Exupery alertava, “a vida
do passado parece corresponder melhor à nossa natureza apenas porque
corresponde melhor à nossa linguagem” (1981, p.38), por isso, para superar tanto
medo é que se constrói, com a ajuda de todos, orientados pela atitude
interdisciplinar, uma nova linguagem.
O alicerce que sustenta esse desapego e a adoção de uma atitude
interdisciplinar por parte do docente se constrói também com a reciprocidade. O
professor que oferece seu “eu”, sua identidade aos outros, ainda que o faça
desinteressadamente, tomado apenas pela responsabilidade daquele que participa
ativamente do local em que se encontra e, mais ainda, que atua diretamente na
história das pessoas que estão ao seu lado, ainda que a gratuidade conduza tais
relações, o docente sempre há de receber algo em troca. Como uma ordem natural,
a reciprocidade, de diversas formas, vai lhe ofertar amparo ante os desafios do novo
e o incentivo para continuar nesse rumo inovador.
Com o aluno, por exemplo, o docente interdisciplinar vai encontrar um
parceiro, um companheiro na construção de novos saberes. Quando o professor une
ao conhecimento sua experiência, dando sentido à teoria e ao mesmo tempo abre
espaço para a participação dos discentes, esses o surpreendem, devolvendo visões
e ideias, ainda que pouco articuladas, as quais escapavam aos olhos do professor,
ampliando assim também sua condição de análise do mundo. Na relação recíproca
entre professor e aluno, há a troca de saberes, mas, principalmente, existe a troca
de experiências, de vida. É um se dispondo ao outro numa relação desenvolvente de
todos.
Quando, por sua vez, o olhar se volta para a relação recíproca entre os
professores, a conquista se dá na propagação e na corroboração da atitude
interdisciplinar. O docente, junto a seus pares, encontra força e apoio para seguir
acreditando na mudança, encontra alternativas quando o novo parece obscuro e
duvidoso. A reciprocidade reforça as parcerias, valoriza o trabalho em equipe,
convida os professores a trocarem ideias e vivências, despertando o sentimento de
pertença e compromisso de todos.
Por fim, pela reciprocidade também o ambiente escolar se torna outro. Não é
nova a ideia de que a relação entre a pessoa e seu ambiente é uma relação
recíproca. Tendo como base essa máxima, pode-se reconhecer que o professor, ao
se tornar interdisciplinar, ao assumir atitudes interdisciplinares, também torna a
escola assim. Nesse sentido, tal local passa a ser um ambiente preocupado com a
formação integral da pessoa, valorizando a construção e a propagação do
conhecimento intelectual, mas sem se limitar a ele, avançando para todas as outras
questões que envolvem a vida daqueles que atuam dentro de seu espaço.
Na relação recíproca e transformadora gerada pela atitude interdisciplinar
docente e a escola, o objetivo da instituição – em particular do Ensino Médio –
ganha ares de realidade, pois a escola está atenta à formação que permite a
continuidade do estudo ao mesmo tempo em que se mantém ciente dos interesses
dos alunos e da necessidade deles em ingressar no mercado de trabalho, deixando
cada um apto a exercer qualquer futura função. Transcende até mesmo esses dois
quesitos, pois o estudo e o trabalho são aspectos pertencentes a algo maior que é a
vida humana. Assim, a escola, consequentemente, atém-se aos aspectos biológicos,
psicológicos e sociais dos seus. Na somatória de todas essas características, a
escola que se faz interdisciplinar pela atuação diferenciada de seus docentes
também se faz um local de desenvolvimento humano.
De várias maneiras, as relações baseadas na reciprocidade acontecem. O
professor, em sua atitude de oferta, também recebe. O desapego, esse
esvaziamento racional (no sentido de que o professor avalia seu trabalho, sua
postura, sua experiência de modo a separar o que é ultrapassado daquilo que ainda
pode ser feito. O desapego não apaga a história de cada um, ele apenas auxilia a
abandonar alguns pontos e fortalecer e atualizar outros), abre espaço ao novo, mas
o que é inédito ainda não está pronto, é preciso, então, paciência e vontade,
respeitando o tempo de corroboração desse emergente propósito. É necessário a
espera vigiada e o reconhecimento de tudo o que foi e está sendo feito.
No documento
A ATITUDE INTERDISCIPLINAR DOCENTE E O DESENVOLVIMENTO HUMANO: FOCO NO ENSINO MÉDIO DE UMA ESCOLA PÚBLICA
(páginas 79-83)