• Nenhum resultado encontrado

A descoberta das reservas na camada do “pré-sal” na costa brasileira e as

2. CONTEXTO: PETRÓLEO, ZONA ECONÔMICA EXCLUSIVA E A EXTRAÇÃO

2.2 EVOLUÇÃO, HISTÓRIA E NECESSIDADE DA EXTRAÇÃO BRASILEIRA DE

2.2.3 A descoberta das reservas na camada do “pré-sal” na costa brasileira e as

Como visto, as primeiras descobertas de jazidas de petróleo submersas mostraram o real potencial de produção petrolífera brasileira. O país, que por décadas tentou de maneira praticamente infrutífera produzir petróleo em terra, agora voltava-se para o mar, sua real vocação.

Com o conhecimento brasileiro em exploração offshore quase nulo, a resposta temporária foi adquirir tecnologia no exterior, contribuindo o corpo técnico brasileiro somente com pequenos aperfeiçoamentos. Isso ocorreu, contudo, apenas por um período: logo o acúmulo brasileiro de conhecimento e know-how seria suficiente para desenvolver tecnologia própria. Foi assim que a expertise brasileira cresceu, permitindo que os limites de profundidade de 1.000, 2.000 e 3.000 metros fossem rompidos sucessivamente.100

Essa liderança na exploração em águas profundas e ultraprofundas, fruto do investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento, terminou por trazer resultados que em muito superavam as expectativas nacionais mais otimistas.

Isso pois, em julho de 2006, mesmo ano em que o Brasil atingiu pela primeira vez a autossuficiência na produção de petróleo (balança de importações e exportações de petróleo e derivados superavitária), a Petrobras descobriu petróleo leve em águas ultraprofundas, na

97 DIAS, José Luciano de Mattos; QUAGLINO, Maria Ana. A questão do petróleo no Brasil: uma história da Petrobras. Rio de Janeiro: FGV, 1993, p. 131.

98 As exportações líquidas de petróleo bruto foram de hum mil m³/dia, enquanto a exportação líquida de derivados foi de 9,2 mil m³/d, atingindo resultado superavitário na balança de importações e exportações de petróleo e derivados pela primeira vez. (AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS, 2007, p. 103).

99

NOGUEIRA, Carlos Wagner Leão; CABRAL, Jorge Vinícius de Almeida. A autossuficiência petrolífera brasileira sob o panorama da importação e exportação do petróleo. In: XAVIER, Yanko Marcius de Alencar et al (Org.). Direito do petróleo, gás natural e biocombustíveis: estudos em homenagem à professora Helenice Vital. Natal: EDUFRN, 2013. p. 63-79. (Série Direito dos Recursos Naturais e da Energia, vol. 10). p.74.

100

ORTIZ NETO, José Benedito; COSTA, Armando João Dalla. A Petrobras e a exploração de petróleo offshore no Brasil: um approach evolucionário. Revista Brasileira de Economia, Rio de Janeiro, v. 61, n. 1, p.95-109, mar. 2007, p. 106.

chamada camada do “pré-sal”, a 2.140 metros de lâmina d’água e a mais de seis mil metros de profundidade a partir do fundo mar, petróleo cuja exploração poucos anos antes se julgava impensável, não só pelas dificuldades tecnológicas mas pela inviabilidade econômica.101

Licitado na Terceira Rodada de Licitações da ANP102, localizado a 250 km da costa sul da cidade do Rio de Janeiro, o bloco exploratório BM-S-11 viria a ser denominado posteriormente, pelo consórcio de empresas aptas a explorá-lo, de Tupi.103

A Petrobras definiu as rochas do “pré-sal” 104

como reservatórios situados sob extensa camada de sal que percorre a região costeira entre os estados do Espírito Santo e Santa Catarina, numa faixa com cerca de 800km de comprimento por 200km de largura. Nessa faixa a lâmina d’água varia de 1.500 a 3.000 m de profundidade, e os reservatórios estão localizados sob uma pilha de rochas com 3.000 a 4.000 m de espessura, situada abaixo do fundo marinho.105

A área de abrangência dos reservatórios do “pré-sal” distribui-se essencialmente pelas bacias sedimentares de Santos e Campos, situadas na margem continental brasileira. A área total da do “pré-sal”, de 149 mil km², corresponde a quase três vezes e meia o estado do Rio de Janeiro:

101 LIMA, Haroldo. Petróleo no Brasil: a situação, o modelo e a política atual. Rio de Janeiro: Synergia, 2008, p.15.

102 O primeiro leilão de reservas do Pré-sal foi realizado no regime de partilha, sendo tais reservas arrematadas por um consórcio entre a Petrobras e outras quatro empresas, de múltiplas nacionalidades: a Total (francesa), a Shell (holandesa), a CNOOC e a CNPC (ambas chinesas). (UOL ECONOMIA, 2017).

103 PAPATERRA, Guilherme Eduardo Zerbinatti. Pré-sal: conceituação geológica sobre uma nova fronteira exploratória no Brasil. 2010. 81 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Geologia, Instituto de Geociências, Programa de Pós-graduação em Geologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010, p.40. 104 Não há um único ponto de vista quanto à definição geológica do que seria o termo “pré-sal”. A discussão em voga é de que tal termo, por significar apenas o intervalo de rochas que foi depositado antes de camadas de sal (ou seja, aproximando-se de uma definição de caráter geológico temporal, com os reservatórios que lá ocorram devendo ser considerados simplesmente mais velhos que uma camada de sal autóctone), causa um problema interessante, visto que a exploração do “pré-sal”, ao pé da letra e geologicamente falando, incluiria, por exemplo, a exploração de petróleo no Brasil em 1940, na bacia do Recôncavo Baiano. Tal imprecisão poderia vir a causar problemas quanto à regulação do setor: a exploração em uma área do dito “pré-sal” poderia em realidade, à medida que se vai mais para perto da costa em águas mais rasas, significar exploração no “pós-sal”, coexistindo assim, e de maneira não intencional, dois sistemas de participação governamental em um único contrato. Tanto o é, que a própria Lei Federal nº 12.531/10, que institui o regime de partilha em áreas do “pré-sal”, se reserva o direito de delimitar outras regiões exploratórias como fazendo parte desta área “de acordo com a evolução do conhecimento geológico”. Para o leitor que se interesse saber mais sobre o tema: PAPATERRA, Guilherme Eduardo Zerbinatti. Pré-sal: conceituação geológica sobre uma nova fronteira exploratória no Brasil. 2010. 81 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Geologia, Instituto de Geociências, Programa de Pós-graduação em Geologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.

105 RICCOMINI, Claudio; SANT'ANNA, Lucy Gomes; TASSINARI, Colombo Celso Gaeta. Pré-sal: geologia e exploração. Revista USP, São Paulo, n. 95, p.33-42, set. out. nov. 2012, p. 36.

Figura 1 – Reservatórios do "pré-sal" em relação às bacias sedimentares da margem continental brasileira.106

Estima-se que as reservas na camada do “pré-sal” cheguem a 28 bilhões de barris de petróleo107, havendo a menção, por estudos mais otimistas, de um número que varia entre 50 e 150 bilhões de barris108. Esse volume solidifica o país como uma das maiores potências do mundo em produção de hidrocarbonetos, já influenciando no ranking atual (onde o Brasil se encontra na 15ª posição entre os países com maiores reservas comprovadas de petróleo109). Ainda, a produção de petróleo nacional, que cresceu 45% no período de 2002 a 2011, está prevista para aumentar em 150% até 2023110, sendo a extração da camada do “pré-sal”

106 RICCOMINI, Claudio; SANT'ANNA, Lucy Gomes; TASSINARI, Colombo Celso Gaeta. Pré-sal: geologia e exploração. Revista USP, São Paulo, n. 95, p.33-42, set. out. nov. 2012.

107

ESTADOS UNIDOS. U.S. Energy Information Administration. U.S. Department Of Energy. International

Energy Outlook 2014: world petroleum and other liquid fuels with projections to 2040. Washington, 2014. p. 11.

108 AMERICAS SOCIETY AND COUNCIL OF THE AMERICAS ENERGY ACTION GROUP (Nova Iorque).

Brazil’s energy agenda: the way forward. Disponível em: <http://www.as- coa.org/sites/default/files/Brazils%20Energy%20Agenda.pdf> . Acesso em: 15 mar. 2017, p.8.

109 AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS. Anuário estatístico

brasileiro do petróleo, gás natural e biocombustíveis: 2016. Rio de Janeiro: ANP, 2016, p. 73.

110

ROSS, Breno Carvalho. Economia do petróleo e desenvolvimento: estudo exploratório sobre as perspectivas do pré-sal brasileiro. 2013. 166 f. Dissertação (Mestrado em Economia) - Programa de Pós-graduação em Economia, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, p. 118.

responsável, naquele ano vindouro, pela maior parte da extração marítima petrolífera brasileira, englobando 75% de todo o petróleo extraído no mar.111

Menos de dez anos depois da primeira descoberta na camada do “pré-sal”, em 2016, foi batida a marca de 1 milhão de barris de petróleo por dia112 extraídos em seus reservatórios, e com nove dos dez poços com maior produção no Brasil sendo localizados nela (o mais produtivo está no campo de Lula, com vazão média diária de 36 mil barris de petróleo), o “pré-sal” se sedimenta cada vez mais como o futuro da exploração petrolífera brasileira, tendência reconfirmada em junho de 2017 quando, de acordo com dados da ANP, pela primeira vez a extração na camada do “pré-sal” ultrapassou a da camada “pós-sal”:

Figura 2 – Evolução da produção "Pré-sal" x "Pós-sal".113

. Ademais, e talvez de maneira mais espantosa, o custo médio de extração do petróleo do “pré-sal” está sendo reduzido gradativamente.

111

BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Empresa de Pesquisa Energética. Plano decenal de expansão de

energia 2023. Brasília: MME/EPE, 2014, p. 269.

112 PETROBRAS. Pré-sal. Disponível em: <http://www.petrobras.com.br/pt/nossas-atividades/areas-de- atuacao/exploracao-e-producao-de-petroleo-e-gas/pre-sal/>. Acesso em: 08 ago. 2017.

113

AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS. Boletim da produção

No segundo semestre de 2017, já atingia valor inferior a US$ 8 por barril114 (em 2015 custava US$ 9,3115). Levando-se em conta o patamar baixo do preço do barril nos últimos anos, tal dado mostra-se de extrema importância, falando muito sobre o aumento no domínio (e consequente barateamento) das tecnologias envolvidas na exploração da camada.