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DESCRIÇÃO CONTEXTUAL DOS SUJEITOS (HISTÓRIAS DE VIDA)

Na primeira etapa da pesquisa houve um período de observação das histórias de vida dos alunos. De acordo com Marconi e Lakatos (2003, p. 223) as histórias de vida são ferramentas de pesquisa que tentam “[...] obter dados relativos à

‘experiência última’ de alguém que tenha significado importante para o conhe-cimento do objeto em estudo”. Os seres humanos trazem consigo experiências pessoais, vividas em contextos variados, influências familiares, educativas, pro-fissionais, culturais e religiosas. É uma carga que envolve memórias e emoções, experiências que muitas vezes marcam negativamente e são passadas de forma vazia, não reflexiva, sem significado. Marconi e Lakatos (2003, p. 121) expli-cam que “[...] por meio dessa técnica, procuram-se captar as reações espontâ-neas do entrevistado, em face de certos acontecimentos fundamentais de sua vida.” Monteagudo (2011, p. 62) relata que, segundo a Association Internacionale des Histories de Vie em Formation, as histórias de vida – métodos biográficos, enfoques autobiográficos, narrativas pessoais e relatos de vida – são práticas de investigação, formação e intervenção, que pretendem registrar o trabalho

individual do sujeito narrador de sua vida. Como afirma Pineau (2011), as repre-sentações mentais que estão interligadas às imagens verbais e não verbais uti-lizadas para expressar as memórias musicais, têm um significado pessoal que cria um espaço social para reflexão, para a construção e para a (re) construção nos espaços acadêmicos de graduação.

Tratando-se de investigação qualitativa, por que não aplicar o enfoque de histórias de vida numa proposta no espaço de ensino coletivo de instrumento de teclas? Utilizar como estratégia metodológica as histórias de vida numa pesqui-sa que envolva um componente curricular prático, como Teclado/Piano, pode ser um ponto de partida que visa abrir espaços para uma maior compreensão de quem é o sujeito que está envolvido no estudo, e traçar as diretrizes necessárias para otimizar a qualidade de ensino-aprendizagem no percurso de um tempo reduzido num componente curricular em curso de Licenciatura em Música.

Nessa perspectiva, o procedimento de coleta foi realizado através de apresen-tações orais individuais dos discentes, com a utilização de recursos multimídia (apresentação em PowerPoint), sobre as histórias de vida, abordando suas vivên-cias musicais (formação, primeiros contatos com a música, influênvivên-cias recebidas, qual ou quais instrumentos musicais toca, experiências musicais marcantes, além da inserção de fotos). Após a apresentação oral, o discente teria que executar em seu instrumento uma obra musical que mais lhes marcou nessa trajetória, justi-ficando o porquê da escolha. Essa ação teve como objetivo principal descrever o perfil dos alunos, além de revelar como se torna relevante a autocompreensão de quem eles são, das aprendizagens e das experiências que têm construído ao longo da vida e dos significados que atribuem aos diferentes fenômenos que mobilizam e tecem sobre suas vidas individuais e coletivas. (SOUZA, 2006)

De forma geral, dos doze alunos que participaram desse estudo, a faixa etá-ria vaetá-riava entre 19 e 55 anos de idade, como consta no quadro 1, demonstrando que a procura para estudar música em uma instituição superior tem se ampliado cada vez mais no Brasil. Vale ressaltar que, de acordo com Silva (2013), não se tem como pensar em ensino superior no Brasil sem considerar a ampliação da universidade. Isso aponta para um novo tempo em que o processo de demo-cratização do acesso ao ensino superior tem se ampliado e cada vez mais tem oportunizado o ingresso de jovens e adultos no espaço acadêmico. Sendo assim, dentre os investigados, dois já tinham tido experiência no ensino superior,

ten-do um desses já concluíten-do um curso de graduação e o outro desistiten-do ten-do curso para cursar Licenciatura em Música.

Quadro 1 – Faixa etária dos investigados

19 anos Aluno 2 21 anos Aluno 3 Aluno 5

24 anos Aluno 10

25 anos Aluno 12 26 anos Aluno 11

27 anos Aluno 6

32 anos Aluno 7 33 anos Aluno 8

36 anos Aluno 4

46 anos Aluno 9

55 anos Aluno 1 Fonte: Elaborado pela autora.

Observou-se que todos os alunos que participaram desse estudo fizeram menção que despertaram para a música na infância e/ou na adolescência; 80%

tiveram algum tipo de influência dos pais e/ou apoio da família para estudar algum instrumento, outros foram incentivados ao observarem pessoas tocando.

Mais adiante, através do questionário, será ampliado esse fato.

A análise também indicou que a escolha do instrumento musical foi por di-versos fatores: por curiosidade, pela sonoridade, pela acessibilidade financeira, facilidade de transporte, influências de outras pessoas, dentre outros. A análi-se indicou que o instrumento musical mais citado para a iniciação musical foi o violão (50%), além da percussão (10%), cavaquinho (10%), flauta doce (20%), clarineta (10%) e saxofone (10%). Aproximadamente 20% tiveram influência reli-giosa em sua formação musical, 50% iniciaram os seus estudos musicais em fan-farra e filarmônica, os demais tocando em bandas, instrumentos como violão, guitarra, contrabaixo e teclado.

Os gêneros que fizeram parte das memórias musicais desses alunos foram diversos: samba de roda, pagode, axé, MPB, músicas religiosas, rock, dentre ou-tros. Foi possível perceber também as influências da cultura popular, dos meios de comunicação, inclusive do rádio e serviços de alto falantes nas praças.

Com relação à peça que mais marcou, vale salientar que 58% dos alunos exe-cutaram-na ao violão, sendo na sua maioria as primeiras peças que aprenderam no instrumento. Como exemplos, cita-se: “Ensino em si menor”, de Francisco Tárrega, “Tico tico no fubá”, de Zequinha Abreu, “Canção da América”, de Milton Nascimento, “Noite feliz”, de Franz Gruber, “Estudo”, de Leo Browuer,

“Delicado”, de Waldir Azevedo.

Através dessa análise, percebeu-se a riqueza e diversidade de vivências tra-zidas por cada realidade, bem como a troca de experiência que vem otimizar o processo de ensino e aprendizagem em sala de aula. É bom ressaltar que a maioria dos alunos atua como músicos e professores em espaços escolares e não escolares. Depois de realizada a pesquisa, atualmente, dentre os doze alunos, nove atuam no espaço da Educação Básica no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) da Universidade.