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Fabrício Dalla Vecchia Joel Luis da Silva Barbosa

INTRODUÇÃO

O objetivo desse capítulo é propor uma sistematização de conteúdos didáticos para educação musical coletiva com instrumentos de banda a partir de uma análise de métodos de ensino coletivo para banda – instrumentos de sopros e percussão. A nomenclatura Educação Musical Coletiva com Instrumentos Musicais, aqui utilizada, em vez de Ensino Coletivo de Instrumentos de Sopro e Percussão (ECISP), segue a proposta apresentada no artigo “Educação Musical com Ensino Coletivo de Instrumentos de Sopro e Percussão”. (BARBOSA, 2011b) O motivo principal é que, nos últimos 30 anos, os métodos coletivos para banda e orquestra deixaram de focar apenas o ensino de instrumentos com o fim de formar um conjunto musical e, gradativamente, se tornaram um processo de

educação musical segundo os conceitos contemporâneos desse tipo de educa-ção no contexto escolar. Nesse artigo, a proposta está expressa assim:

Considerando como o ECISP está constituído nos atuais métodos de banda e materiais didáticos afins, concluo que ele não consiste apenas no ensino de instrumentos e/ou na formação de banda, mas na realização desses obje-tivos associados a uma ampla educação musical dos estudantes; digo, uma educação musical atualizada às atuais filosofias da área. Assim sendo, pode-mos dizer que tais materiais didáticos não propõem um formato de ECISP, mas sim uma modalidade de Educação Musical Coletiva com Instrumentos de Sopro e Percussão (EMUCISP). Digo ‘com’ e não ‘através’ porque as es-tratégias didáticas da EMUCISP incluem outros meios que não apenas os instrumentos musicais, tais como meios audiovisuais e a voz humana.

(BARBOSA, 2011b, p. 239)

A metodologia de pesquisa utilizada para compreender o conteúdo dos atuais métodos de banda se deu através de pesquisa bibliográfica, questionários com professores e análise de sete métodos, incluindo seus livros 1 e 2, quando o caso. Isso totalizou 13 livros didáticos. A partir dessa compreensão, projetou-se uma sistematização direcionada ao contexto brasileiro, com o objetivo de estru-turar o percurso de aprendizagem na EMUCISP sem, contudo, limitar a diversi-dade de materiais didáticos, repertórios e propostas didáticas, entre outros. Essa sistematização se divide em níveis de complexidade de conteúdos musicais. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, essa sistematização contém entre seis e sete níveis ou estágios didáticos. A proposta desse texto considera os níveis 1 e 2 e abordará conteúdos de elementos de música e de técnica de instrumentos de sopro e percussão. Devido ao escopo desse capítulo, não será apresentada a análise dos métodos e sua devida discussão, que se encontram detalhadas na tese de Vecchia, concluída em 2012.

A análise dos livros didáticos incluiu métodos estadunidenses e brasileiros.

Os critérios de seleção dos métodos foram: 1) contemporaneidade — publica-ções recentes das principais editoras da área e 2) disponibilidade — facilidade de compra em lojas nacionais ou na internet, uma vez que os títulos, com exce-ção de três, são estadunidenses. O primeiro critério foi escolhido por considerar que os métodos mais recentes buscam refletir as atuais filosofias da educação musical. Foram selecionados métodos da década de 1980, até o ano de 2010. No

entanto, as editoras têm publicado métodos de ensino coletivo de instrumentos de sopro e percussão desde a década de 1920 e esses têm sido objeto frequen-te de estudos. Os atuais métodos trazem a experiência desses anos de publica-ção e propõem agregar resultados desses estudos. Portanto, essa análise aborda pedagogias que resultam da evolução do ensino coletivo de instrumentos de banda nos últimos 90 anos e que estão atualizadas com as recentes filosofias da educação musical. A pedagogia utilizada nos métodos mudou sensivelmente nesses anos, contudo, a organologia dos instrumentos e a instrumentação das bandas, praticamente se mantiveram. Mais recentemente, a maioria dos méto-dos de banda incorporou o piano e o baixo elétrico, pois servem tanto de base rítmica como de referencial harmônico, contudo tais instrumentos não estão contemplados na proposta. A técnica básica de se tocar instrumentos de sopro e percussão também avançou nas últimas décadas, mas seu conteúdo não sofreu alterações significativas independentemente dos diferentes contextos culturais.

Os métodos e livros selecionados, conforme os critérios anteriormente es-tabelecidos, foram os listados abaixo. Para simplificar a identificação no texto, será utilizada a sigla de cada título:

• Sound Innovations for Concert Band: A Revolutionary Method for Beginning Musicians de Sheldon et al., publicado pela editora Alfred em 2010. Sigla: S.I. Livros 1 e 2.

• Accent on Achievement: A Comprehensive Band Method that Develops Creativity and Musicianship de O’Reilly e Williams, publicado pela Alfred em 1998. Sigla: A.A. Livros 1 e 2.

• Essential Elements 2000: Comprehensive Band Method de Lautzenheiser et al., publicado pela Hal Leonard em 1999. Sigla: E.E. Livros 1 e 2.

• Belwin 21st Century Band Method de Bullock e Maiello, editado pela Belwin em 1997. Sigla: B.T. Livros 1 e 2.

• Standard of Excellence: Comprehensive Band Method de Pearson, Bruce, editado pela Neil A. Kjos Music Company, Publisher em 1993.

Sigla: S.E. Livros 1 e 2.

• Da Capo – Método Elementar para o Ensino Coletivo de Instrumentos de Banda de Joel Barbosa, editado pela Keyboard em 2004. Sigla: D.C. Livro 1

• Da Capo Criatividade – Método Elementar para o Ensino Coletivo de Instrumentos de Banda em dois volumes, de Joel Barbosa, editado pela Keyboard em 2011. Sigla: D.C.C. Livro 1.

• Livro de Exercícios Diários de Frederico Dantas, Edição Eletrônica do Selo Casa das Filarmônicas, Bahia. s/d. Sigla E.D. Livro 1.

Esses livros têm diversos aspectos em comum. Todos os estadunidenses, exce-to o S.I. e os brasileiros D.C, D.C.C. e E.D., estão divididos em três livros sequenciais que atendem aos três ou quatro primeiros níveis, a depender da sistematização utilizada em diferentes associações estadunidenses de educação musical. Cada um é planejado para atender, pelo menos, um ano letivo. Devido a isso, encon-tramos inúmeras semelhanças nos conteúdos de métodos de mesmo nível, ainda que de editoras diferentes. As diferenças estão no repertório e na ênfase dada ao desenvolvimento das diversas habilidades musicais. Por exemplo, alguns métodos priorizam mais a técnica instrumental que a criatividade, enquanto outros mais a leitura. Contudo, eles buscam seguir os national music education standards (parâ-metros nacionais para a educação musical do MENC – The National Association for Music Education). Outras características em comum são: instrumentação, materiais complementares, impressão colorida, identidade visual voltada para ju-venis, ilustrações ou desenhos e mídias complementares como CD de áudio e de mp3, DVD e programas para computador.

Quanto aos métodos nacionais, o Da Capo se divide em Da Capo (D.C.) e Da Capo Criatividade (D.C.C.). O primeiro é uma adaptação dos métodos es-tadunidenses de nível elementar da década de 1990. Contudo, usa repertório, instrumentação e sistemas de escrita musical praticados em bandas do Brasil.

O Da Capo Criatividade é uma ampliação do anterior, possuindo o mesmo conteúdo de técnica instrumental, porém com maior ênfase em atividades de improvisação, composição e tocar “de ouvido”. O método Exercícios Diários (E.D.) é uma obra original. Inclui, como indicado pelo próprio título, atividades técnicas para prática diária da banda e repertório ligado a essa tradição musical do Brasil, com composições próprias.

Dentre os métodos citados, somente os livros didáticos foram analisados.

A ferramenta utilizada para coleta e análise de dados foi desenvolvida especi-ficamente para esse trabalho. Ela compreendeu os aspectos de apresentação gráfica, estrutura organizacional, prática de performance, criatividade, suporte

tecnológico, materiais suplementares e as sequências de: elementos de ritmo, termos, símbolos, tonalidades, técnicas instrumentais, notas e repertórios.

Quanto aos instrumentos de percussão, nessa pesquisa, será usado o ter-mo “percussão melódica” para designar os instrumentos de teclado e tímpano, e

“percussão não melódica” para caixa-clara, bombo, pratos e acessórios.

A seguir, apresenta-se a proposta de conteúdos resultante da análise dos métodos e o contexto brasileiro atual.