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5.3 Resultados e discussão

6.3.2 Descrição Inicial

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Direito Serviço Social Pedagogia Ensino Médio

Valendo-se do método proposto por Delval (2002) a descrição inicial é o momento em que o entrevistado tem o primeiro contato com o entrevistador e com o tema. Nesse momento, o pesquisador procura identificar o que os entrevistados de cada um dos grupos analisados possuem de conhecimento prático e, ou, técnico, a respeito da temática proposta no estudo.

Nessa fase, os entrevistados foram informados sobre as questões, sua relevância, possíveis usos e aplicações dos resultados obtidos. Dessa forma, buscou-se conhecer e analisar a percepção e o aprofundamento técnico ou vivencial dos entrevistados, tanto sobre violência (em termos gerais), quanto sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes. Assim, foi possível verificar, também, qual a posição dos agentes em relação à sua incidência e sua relação com outras modalidades de violência que, porventura, estejam associadas.

Assim, quando questionados sobre o que entendiam por violência, as respostas foram importantes para fazer algumas análises preliminares. Foi possível observar que 50% do total dos entrevistados forneceram respostas rápidas e sem muita preocupação com o tema, o que Delval (2002) descreve em seu método como sendo o “Não se importar com”. Nesse caso, o respondente utiliza respostas curtas e simples como, por exemplo, um entrevistado do G2 , que respondeu simplesmente que a violência “é um ato não consentido” ou, outro entrevistado do G1, que afirmou que a violência “é uma manifestação agressiva, de forma intencional que resulte em algum trauma psicológico ou físico”, ou ainda outro membro do G1, que afirmou que a “violência é muito uma relação hierarquizada de um para com o outro”.

Ao adentrar especificamente nas questões sobre violência sexual, o G1, cujos profissionais lidam com a área de proteção dos direitos, assim como aqueles que tratam as vítimas dessa modalidade de violência, demonstraram um melhor entendimento sobre a temática do que os respondentes do G2. Suas respostas apresentaram um nível de abrangência maior que aquele que trata de um ato sexual sem consentimento, abordando questões de ordem psicológica, jurídica, de exercício de poder e coerção sobre as vítimas. Os entrevistados ressaltaram que normalmente são praticados por pessoas que, em princípio, deveriam zelar pela segurança e pelo bem-estar das crianças e dos adolescentes sob sua tutela. Esse já era um resultado esperado, haja visto que são os membros desse grupo que lidam mais diretamente com a vítima, com os traumas gerados pela violência e com tratamento das sequelas do ato.

Nesse tópico, ficou evidente que a maioria das respostas foram pautadas na própria reflexão dos entrevistados acerca do tema. As afirmativas foram rápidas, espontâneas e visivelmente expressavam a sua opinião sobre o assunto. Porém, foi possível observar que uma pequena parcela dos entrevistados não apresentou muito conhecimento ou interesse em

responder a questão. Algumas respostas que ilustram esta afirmativa foram dadas pelos entrevistados dos dois grupos analisados conforme transcrição dos relatos: “Ato sexual sem consentimento” (G1) e “É um ato de abuso, também não consentido que acontece na intimidade” (G2).

Quando questionados sobre o nível de conhecimento que detinham sobre os casos de violência sexual ocorridos na Comarca/Município, todos os entrevistados, de ambos os grupos, responderam positivamente, informando que tinham ciência dos casos ocorridos. Porém, em seguida, os mesmos agentes completavam as respostas dizendo que conheciam somente os casos que chegavam ao seu órgão de trabalho. Essa constatação reforça a hipótese de que há uma clara compartimentalização do processo de investigação, apuração, tratamento das vítimas e punição dos culpados, podendo-se afirmar que não há interação entre os membros dos dois grupos de entrevistados que pertencem a rede e sim, relações institucionais, cumprimento de formalidades e burocracias referentes aos processos.

Dando prosseguimento ao processo de entrevista, no que tange à origem das denúncias dos casos de violência sexual, foi possível concluir que cada entrevistado possui uma visão que está atrelada ao grupo ao qual está vinculado. Tomando-se por exemplo um caso que chega ao G1, em qualquer que seja a área, a origem da denúncia só é conhecida após a leitura da peça processual.

De modo geral, os membros do G2, que cuidam da defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes, seguem um protocolo adaptado a partir daquele que é utilizado pela Casa das Mulheres. Esse protocolo perpassa as várias modalidades de violência a que estão sujeitas as mulheres no município de Viçosa e, de acordo com sua estrutura, todo o processo deve ter origem com o exame feito no Hospital São Sebastião, que é referência nesses casos. O exame serve, dentre outras coisas, para fornecer provas para que os membros do G1 possam dar início ao inquérito policial, apresentar denúncia e julgar os possíveis culpados, quando for o caso.

No que diz respeito ao conhecimento dos entrevistados sobre a incidência de violência sexual na Comarca/Município, 60% deles deram respostas que demonstravam não ter uma informação confiável sobre o tema. Respostas simples como a apresentada por um entrevistado do G2, que afirmou: “Olha... está crescendo [...]”, ou de um outro entrevistado, porém do G1, que declarou: “[...] quando eu entrei aqui eu nunca imaginei que Viçosa teria casos de abuso [...]” servem para reforçar esta impressão.

Por fim, quando inquiridos sobre a ocorrência de outras modalidades de violência associadas à violência sexual, mesmo aqueles entrevistados que até o momento não haviam

demostrado conhecimento ou preocupação com as respostas anteriores, afirmaram que este tipo de violência, quando chega a ocorrer, crianças e adolescentes vitimadas já sofreram outras modalidades de violência antes.

Vários entrevistados do G2 recorreram a relatos de casos que, de alguma forma, chegaram ao seu conhecimento, dentro de sua esfera de atuação. Nas palavras de um entrevistado desse grupo, “[...] tem diversas outras violências que vem acontecendo antes e depois”; outro entrevistado deste mesmo grupo que afirmou que a violência sexual “[...] vem acompanhada da violência psicológica muitas vezes”. Ainda no que tange às outras modalidades de violência, um entrevistado declarou que a negligência de alguns pais contribui para que esses casos aconteçam, como pode ser observado por meio do relato:

[...] negligência de quem está com ela (criança) no dia a dia de não perceber, de não ter cuidado, um olhar mais apurado de onde a criança está passando, com quem está convivendo, com quem se está deixando com ela, de ter um olhar mais cuidadoso com quem está convivendo. (EG1, 2018)

Finalizando a primeira etapa da análise, pode-se inferir que os entrevistados dos dois grupos, de modo geral, apresentam um nível apenas razoável de aproximação com o tema. Esse resultado no G1 causou, num primeiro momento, um estranhamento, pelo fato de ser o grupo com maior tempo de atuação profissional e que atuam diretamente na parte de investigação, cumprimento dos preceitos legais e tratamento das vítimas de violência sexual. No caso do G2, no qual estão as pessoas que compõem a rede de proteção dos direitos de crianças e adolescentes, o fato de não apresentarem um conhecimento adequado sobre o tema pode influenciar negativamente a efetivação de direitos desse público. Uma das explicações possíveis para isto pode ser o fato de que alguns deles estão há pouco tempo nos cargos.