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Durante o período que antecedeu a Proclamação da República, e mesmo após, a realidade vivenciada pela maioria das crianças e jovens era de abandono familiar, crueldade nas escolas e nos internatos. Muitas dessas crianças e adolescentes já se encontravam inseridos no mercado de trabalho em condições insalubres e recebendo baixos salários; ademais, quando não encontravam uma colocação de trabalho para contribuir com a renda da família eram, muitas vezes, abandonados pelos pais.

Conforme descrito por Rizzini (1997), as famílias cada vez mais numerosas, com crianças malnutridas, fora da escola e com condições restritas de desenvolvimento e mesmo de sobrevivência foi agravando a situação geral e, gradualmente, contribuindo com o número de crianças abandonadas nas ruas dos centros urbanos. De modo geral, eram filhos de escravos

libertos ou mestiços considerados párias da sociedade da época. Essa situação criava as condições necessárias para o aumento da criminalidade entre crianças e jovens.

Diante desse quadro, os governantes da época chegaram à conclusão que somente o atendimento filantrópico não mais seria capaz de solucionar o problema, tamanho o volume de crianças abandonadas nas ruas. Seria esse, então, um desafio sob a égide do Estado, ao qual caberia a formulação de novas políticas públicas que buscassem alternativas de resolução. Assim, o Estado trouxe para si a responsabilidade pela educação e saúde, bem como a punição dos delinquentes e infratores (RIZZINI, 1997).

Dessa forma, conforme aponta Passetti (2002), a inserção dos indivíduos passou a ser regulada pelo Estado desde a infância, por meio de políticas sociais especiais – destinadas às crianças e adolescentes oriundos de famílias consideradas desestruturadas, de pais desempregados e na maioria migrantes – com o intuito de reduzir a criminalidade. Em vista disso, passaram a ser caracterizados como “menores” e eram tidos como aqueles não tinham nenhuma noção de vida em sociedade. As políticas passaram por sucessivas proposições de métodos de internação de crianças e jovens em orfanatos, internatos privados e, posteriormente, estatais; porém, não conseguiu as alterações necessárias nas condições de reprodução de abandono e no cometimento de infrações. Na verdade, todo esse processo contribuiu para que essas crianças fossem privadas de uma vida em sociedade.

No início do século XX, o Estado novamente tentou assumir a responsabilidade pela educação obrigatória e a integração das crianças e jovens pobres por meio do trabalho. À época, na visão dos formuladores de políticas públicas, era importante zelar pela defesa da família dita estruturada, em outras palavras, a família monogâmica. Essa nova política de atendimento pretendia não somente a reclusão dos infratores, mas a educa-los durante o período da reclusão. Pretendia-se corrigir desvios de comportamento e formar indivíduos para a vida em sociedade (Passetti, 2002). Durante esse período, as ações filantrópicas privadas cederam lugar às ações governamentais designadas como políticas sociais. Foi um período que ultrapassou a Ditadura e se estendeu até a década de 1990, quando foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente abrindo espaço para uma nova dimensão da caridade, combinando, novamente, ações privadas e governamentais.

O ECA, que regulamenta os artigos 227 e 228 da Constituição Federal Brasileira, tem sido de grande auxílio na configuração de políticas, programas e formas de punição, sobretudo, para a violência interpessoal praticada contra crianças e adolescentes. Para Simões (2008),

os princípios constitucionais que inspiraram o ECA, espelham-se no direito internacional, especialmente, entre outras, nas seguintes normas da ONU: Declaração dos Direitos da Criança (1959); Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude (1985); e Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil (1988). (SIMÕES, 2008, p. 222)

O ECA reestruturou todo o tratamento jurídico, político e social no que diz respeito à infância e juventude. Crianças e adolescentes passaram a ser considerados sujeitos de direitos, com prioridade absoluta devido à sua condição de desenvolvimento biopsicossocial. Além disso, a referida lei, sustentada na proposta de consolidação de redes de apoio, concebeu um sistema de garantia de direitos, cujo modelo estabelece uma ampla parceria entre o Poder Público e a sociedade civil para elaborar e monitorar a execução de todas as políticas públicas voltadas para o universo da infância e adolescência.

Dentro do processo de implementação do ECA foi possível perceber um direcionamento mais local para as ações de proteção à infância e adolescência. Em outras palavras, houve maior responsabilização dos entes municipais na condução dessa política. Habigzang e Koller (2012, p. 168) corroboram essa percepção afirmando que “a municipalização das políticas tende a favorecer essa maior aproximação, mas ainda depende de grandes esforços de articulação e reconstrução de relações políticas e suas práticas em cada município”.

Em seu arcabouço, o ECA instituiu os direitos fundamentais e as medidas socioeducativas e protetivas, estabeleceu as linhas de ação da política de atendimento, como as políticas e programas sociais, serviços de prevenção, entidades de atendimento, priorizando a participação e reinserção familiar (HABIGZANG; KOLLER, 2012). Outro marco importante foi a instituição dos Conselhos Tutelares e os Juizados da Infância e da Juventude, bem como seus procedimentos e a participação do Ministério Público, por meio de seus promotores e dos advogados ou defensores, nomeados por um juiz da Infância e Adolescência.

Entretanto, o que se vê, ainda hoje, é a relativa dificuldade de articulação e coesão entre aqueles que são responsáveis pela formulação das políticas. Isto ocorre em conjunto com uma restrita consolidação de programas já implementados (muitas vezes de forma desarticulada uns dos outros) e que, por vezes, acabam concorrendo entre si por recursos financeiros, humanos, poder e legitimidade. Gregori e Silva (2001), citados por Habigzang e Koller (2012), afirmam que esse fato decorre da inexistência de uma política governamental uniforme e coesa.

Nesse sentido, nas palavras de Minayo (1994), a descontinuidade e a falta de uniformização e avaliação de programas sociais acabam por se tornar exemplos de violência estrutural engendrada no próprio governo, o que em uma análise mais apurada se traduz em descaso. Dessa forma, quando esses programas, disponibilizados de forma parcial e descontínua não atingem os seus objetivos propostos, no sentido de apoiar a família, acabam sendo caracterizadas como negligentes (HABIGZANG; KOLLER, 2012).

Por consequência, torna-se imperioso que as políticas que tenham em seu escopo a diminuição das desigualdades, da discriminação e da violência a que estão sujeitas crianças e adolescentes, sejam formuladas e implementadas a partir da articulação entre os entes governamentais contando com sistemática e continuada integração intersetorial, envolvendo estratégias de segurança pública, saúde, educação e justiça, com vistas a lidar de forma mais eficiente com a realidade da violência, em qualquer uma de suas modalidades.

Na verdade, essa reflexão abre espaço para uma outra, dela derivada: o fato de que a violência não pode ser reduzida somente ao momento em que se manifesta de forma visível e devastadora, causando dores e sofrimentos palpáveis e passíveis de serem descritas. Ela se perpetua e reitera todas as vezes em que a rede protetiva, ao não se fazer presente de maneira efetiva, reexpõe a vítima a novos ciclos de violência, seja pela a proximidade de convivência com o agressor (com risco de revitimização física ou psicológica), seja pela ausência de tratamento e acompanhamento pelo abuso sofrido, seja pela distância entre a vida real e a preconizada nos parâmetros descritos como mínimos para uma vida digna para crianças e adolescentes.

De acordo com o trabalho desenvolvido por Castro e França Junior (2010) sobre as questões que envolvem o direito das crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, é possível perceber na legislação nacional dois paradigmas. Os autores asseveram que o primeiro paradigma é comum à CF, ao ECA e à normativa internacional que trata especificamente dos direitos da criança. Nesse entendimento são adotados os dispostos na teoria dos Direitos Humanos Universais, bem como aqueles que tratam dos direitos peculiares da infância e da juventude. Com base no exposto, crianças e adolescentes são considerados como sendo sujeitos em fase diferenciada de desenvolvimento e, portanto, merecedores de proteção integral. Assim sendo, toda e qualquer forma de violência perpetradas contra esses sujeitos devem ser consideradas violações dos direitos humanos e transgressão devendo ser considerado um crime. De outro lado tem-se o segundo paradigma jurídico, que se assenta sobre a teoria penal vigente no Brasil, segundo o qual crimes sexuais são considerados como crimes contra a pessoa.

Nesse enfoque a violência não é considerada uma violação dos direitos humanos individuais, mas transgressões aos costumes sexuais coletivos. Cabe ressaltar que esse paradigma tem sido alvo de muitas discussões e críticas de diversos setores da sociedade (CASTRO; FRANÇA JÚNIOR, 2010). Segundo os autores,

a situação de violência sexual experimentada por crianças e adolescentes pode ser comparada à tortura ou ao tratamento cruel, desumano e degradante [...] estaria ligado à violação do direito de estar livre de tortura e maus tratos, conforme descrito pelo artigo 7º do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966) e pelo artigo 37 da Convenção sobre os Direitos da Criança (1989). (CASTRO; FRANÇA JUNIOR, 2010, p. 4)

Diante do exposto, o Estado desempenha um papel de suma importância na efetivação dos direitos previstos na CF e em outros diplomas legais como o ECA para garantir que, de fato, crianças e adolescentes tenham seus direitos assegurados. Nesse sentido, as ações do Estado devem garantir a elaboração e implementação de políticas públicas que garantam o desenvolvimento de medidas que visem não apenas ações pontuais e assistenciais voltadas às crianças e adolescentes vitimados pela violência sexual, mas também, e de forma prioritária, ações inteligentes, articuladas e contínuas de prevenção do seu cometimento.