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3 O URBANO E O ANONIMATO

4.4 DESEJO E PRAZER

Se a sexualidade é uma construção social regulada por normas heterossexuais, em que medida o desejo e o prazer sexual são capazes de romper a norma e produzir novas sociabilidades?

O desejo tem origem e sustentação na falta daquilo que é o objeto desejante e, conforme Raymundo de Lima e Marta Fregonezzi (2006), jamais é satisfeito, pois, se satisfeito, deixa de existir na esfera do desejo. Por consequência, causa sofrimento e impulsiona a busca da realização ou satisfação parcial no cotidiano ou na própria subjetividade através de sonhos, artes, projetos utópicos, etc. Ao analisar os trabalhos de Freud e Lacan sobre o desejo humano, Oscar Masotta (1987) argumenta que ele põe em movimento o aparelho psíquico e orienta a percepção do agradável e desagradável. Nasce da zona erógena do corpo e, sem se reduzir a ele, pode se satisfazer apenas parcialmente, ocasionando outro desejo: a repetição.

Para Ronald Bogue (1996), o desejo é entendido como uma força primária, uma atividade inconsciente inerente a expressão linguística ou interpretação, uma produção do próprio “ser”. Contudo, o desejo homossexual se mantém à margem dos processos de sociabilidade, alimentando preconceitos e estereótipos até os dias atuais em virtude da institucionalização machista da sociedade ocidental, como argumenta Connell (2000), que os pesquisados expõem como uma espécie de “desejo proibido”, mas plenamente excitante, prazeroso e satisfatório quando assumido num momento íntimo e secreto.

Quando Foucault (1994b) estudou o modo como os indivíduos se reconhecem como sujeitos sexuais, discutiu as bases do desejo e do sujeito desejante na esfera da sexualidade. Quando os dógmas do cristianismo ganham força na vida cotidiana, o desejo se distancia das pessoas por ser considerado “ruim”, ligando o sexo ao pecado da carne. Na “História da sexualidade”, o autor interpreta a formação do homem desejante, onde afirma que a sexualidade – e o desejo sexual – ligam o sujeito a sua verdade, àquilo que ele é intimamente. Assim, o

desejo revela/expressa a verdade de si mesmo. Foucault remete ao fato de que desejo, prazer e moral social estão intimamente relacionados, onde faz alusão a Platão, que no “Livro das Leis” se referia ao apetite dos prazeres sexuais em duas relações: “conforme a natureza”, ligando o homem e a mulher para a procriação e “contranatura”, relacionando desejos pelo mesmo sexo, em que Platão vai demonstrar que as práticas “contranatura” “não são explicadas como o resultado de uma natureza anormal ou de uma forma particular de desejo; são apenas a consequência da desmesura” (ibidem, p. 54).

A realização do desejo gera prazer. Ao analisar a erótica de Aristófanes, primeiro filósofo grego a valorizar o amor entre homens e mulheres e relacioná-lo a geração da raça humana, Santoro (2007) identifica o prazer como um fim da atividade amorosa, que não atrai os amantes, e sim, permite que se separem. “O prazer é um fim como extremo, que consuma e encerra o movimento do desejo, é o fim escatológico do desejo” (ibidem, p.99). O autor aponta, ainda, que Sócrates em sua filosofia da alma já diferenciava o desejo dos prazeres – que é inato e levam à atitude desmedida, assumindo formas como o gozo sexual ou a paixão – do desejo do que é melhor, correspondente a uma opinião adquirida.

O prazer é um gozo passageiro, o ápice da atividade desejada e, por isso, mantida na esfera do próprio desejo. A humanidade é ensinada a buscar nos preceitos da moral aquilo que é “bom” e fugir do que é “mau”, isto é, aprende-se desde criança a gozar e a sofrer com o que se deve, para agir conforme as normas e adequando os sujeitos conforme seus valores e leis, na configuração estética da sociedade organizada e não a partir de desejos individuais, que acabam reprimidos, silenciados ou mantidos à margem da vida social pública, fato que ainda reflete a homossexualidade de muitos indivíduos que não encontram em seus grupos sociais as referências necessárias para se manterem “ajustados”.

Foucault (1994b) conta que a homossexualidade grega era ligada à côrte, à reflexão moral e ao ascetismo filosófico, onde a prática sexual, mas que por prazer, consistia numa elaboração cultural que justificava-se à saúde e à proximidade mestre-

aprendiz. Ressalta as ideias de Aristóteles, que considerava os prazeres particulares ligados à falta de algo, que pode ter origem no comprometimento do indivíduo com a sociedade [multidão] em detrimento de si mesmo e que revelam, além do desejo natural – aquele do qual o corpo tem necessidade, como comida e bebida – as faltas do homem na busca de uma satisfação quantitativa, que levaria ao excesso desmedido. Conclui que a primeira relação que se estabeleceu entre o comportamento sexual e sua apreciação moral “não foi traçada a partir da natureza do ato, com as suas variantes possíveis, mas a partir da atividade e das suas gradações quantitativas” (ibidem, p. 55

).

Mas, no meu campo, encontrei homens que buscam prazer entre si e se autoidentificam heterossexuais. Uma das minhas indagações se referia justamente a isso: como se estabelece o jogo entre desejo e prazer entre dois homens heterossexuais?

De acordo com meus interlocutores, o prazer entre dois homens heterossexuais pode se estabelecer de variadas formas, seja pelo toque e masturbação de ambos, seja pelo sexo oral ou, ainda, a penetração anal. Em sentido amplo, e segundo meus interlocutores virtuais e entrevistados, a penetração anal é a principal fonte de prazer buscada entre eles, inclusive, sendo fator de seleção de parceiros. Neste caminho, encontrei um expressivo número de homens que se identificavam como “versáteis”, mas preferencialmente “passivos”, desejando serem penetrados pelo outro homem, mas possibilitando também ao parceiro sexual o mesmo prazer passivo, caso tenha interesse.

O prazer anal é abordado por diversos autores como uma arena política, de disputa e poder: penetrar e ser penetrado tem conotações com dominação e submissão na cultura heterossexista, como apontam Fry (1982) e Almeida (2000), mas também é uma técnica sexual aprendida como todas as outras, conforme Connell (2000).

Como exemplo de estudo sobre a passividade masculina, Perlongher (2005a) analisou nos anos de 1980 a prostituição de homens em São Paulo, influenciado pelo trabalho de Fry (1982) sobre os modelos da sexualidade no Brasil. Para tanto, apropriou-se de espaços caracterizados por relações de sexo, como os guetos gays paulistanos, que formam redes de

circulação de pessoas territorializadas esporadicamente em espaços que lhes propiciam configurações sociais e morais diferentes de sua territorialidade habitual, denominados “territórios marginais”. Trata das relações de poder na esfera homossexual envolvendo o desejo libidinoso do cliente e o interesse socioeconômico do michê – homem que se prostitui –, caracterizando a prostituição masculina predominante em São Paulo por rapazes jovens, em sua maioria de pele mais escura, de classe baixa e de desempenho sexual ativo a homens mais velhos, de classes altas, brancos e sexualmente passivos.

Na prática, o prazer passivo pelo intercurso anal corresponde ao prazer que está fora dos limites cotidianos do homem heterossexual, fim último do desejo nas incursões homoeróticas aqui relacionadas. Nesse contexto, o poder expresso pela penetração e dominação do ativo se inverte: numa relação em que dois homens estão habituados a penetrar uma mulher, ser penetrado exerce uma função diferencial à condição heterossexual, um prazer que se refere ao próprio corpo do penetrado, que não mais concentra o desejo e o prazer da relação em seu próprio pênis. É um prazer que, para os pesquisados, pode ser liminarmente experienciado durante as viagens a trabalho, sem causar nenhuma desordem social, moral ou familiar às suas vidas cotidianas.