3 O URBANO E O ANONIMATO
4.3 ENTRE “IGUAIS” E “DIFERENTES”
A identidade social de gênero é um ponto central encontrado no campo de pesquisa, que condicionou o recorte e os resultados, principalmente por ser ela um dos rigorosos critérios de seleção para ser reconhecido pelos outros membros da “comunidade”. A identidade de gênero heterossexual é adotada e vivida pelos sujeitos pesquisados como “natural” e moral de sua condição de homem. Em consonância, as práticas homoeróticas são experienciadas na ausência de identidade social, isto é, na clandestinidade e no anonimato.
Durante as entrevistas e mesmo no ciberespaço, era notória a demarcação da distinção entre heterossexuais e homossexuais, claramente diferenciados pela identidade pública: homossexual é aquele que assume publicamente seu desejo pelo mesmo sexo e convive socialmente com essa condição, diferentemente da perspectiva de Peter Fry (1982) que identifica socialmente a categorização da “bicha” como o homem homossexual que assume a condição de passivo. Embora se tenha na passividade sexual o poder representativo do gozo diferenciado, os sujeitos mantém-se “homens” justamente pela ausência da identificação pública. Inevitavelmente, fomenta-se a diferenciação entre homens que igualmente sentem prazer na passividade sexual, mas que se separam na formação das masculinidades hegemônica e as “outras”, como um divisor de águas em que persistem processos regulatórios arcaicos e insconscientes, mas agora produtores de outros sujeitos: o “homem heterossexual” que tem desejos sexuais homoeróticos; e o “homem homossexual” que assim é por assumir publicamente seus desejos homoeróticos e afetivos.
De acordo com Fry (1982), as identidades sexuais são socialmente construídas sobre quatro elementos, a saber: o sexo fisiológico; os papéis de gênero, determinado pelo sexo fisiológico; o comportamento sexual, que se refere ao ato sexual na dualidade ativo/passivo; e a "orientação sexual" que contempla hetero, homo e bissexualidade. Apresenta, ainda, dois sistemas de classificação e representação da sexualidade masculina no Brasil: o hierárquico e o simétrico. O hierárqico divide os homens em “homem/macho” e “bicha”, comum entre as camadas socias mais baixas e nas regiões Norte-Nordeste do país. O "homem" penetra e domina; o "bicha" é passivo, dominado e inferiorizado por ter sua imagem associada à mulher. Logo, o "homem" pode manter relações sexuais com "bichas" sem perder seu status de "homem”, que é ativo, tal qual os sistemas "tradicionais" de organização social do Brasil atuam na vida cotidiana, onde o papel dominante cabe ao "homem". Já o sistema simétrico se refere a uma forma de igualdade. Surge nas camadas médias urbanas em grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. O personagem-símbolo desse sistema é o
"entendido", análogo ao gay norte-americano, mantendo relações homoeróticas com outros "entendidos", sem disputas entre “ativo dominador” e “passivo dominado”.
O trabalho pioneiro de Fry colaborou grandemente para o meu entendimento a respeito das relações entre homossexuais e sociedade, apresentado classificações de sociabilidade que também pude encontrar em campo: seja pelo “homem” que é “ativo” e penetra o “bicha”, seja pela busca de sexo e afeto entre “entendidos”. Contudo, meu campo se apresentava ainda mais complexo e fora dessas categorias por três fatores essenciais: não se reconhecem nos limites da homossexualidade, embora pratiquem o ato homossexual; repudiam a aproximação com o “bicha”, não se sentindo mais “homens” somente por serem ativos; são de camadas médias e muitos pertencentes a grandes centros urbanos. Poderiam, talvez, identificar-se como “entendidos” clandestinos, por serem semelhantes no anonimato. Mas a categoria de “entendidos” se refere a uma identidade semelhante e o anonimato à uma ausência de identidade. Nesse sentido, passei a reconhecê-los a partir dos códigos que utilizam e se auto-reconhecem, priorizando características do comportamento e evitando categorizações.
Em sentido amplo, a conotação de comportamento divergente é reafirmada no homoerotismo experienciado apenas na clandestinidade esporádica, a partir de um processo que reafirma e sustenta a heteronormatividade por mecanismos de controle e poder da masculinidade hegemônica. Desse modo, a divergência se encontra no campo do comportamento público, que não os afeta por manterem o “desvio” em âmbito privado, íntimo e secreto.
Ao estudar a autorrepressão do desejo homossexual pelo ocultamento da sexualidade como forma de esconderijo das cobranças públicas, Eve Sedgwick (2007) introduziu o conceito de “armário” como o lugar no qual se escondem as transgressões sexuais de homens e mulheres para um bom convívio heteronormativo, fora do risco de estigmas. Outro autor que trata da esfera da opressão da identidade homossexual é Miguel Vale de Almeida (2009), que entende o “armário” como a expressão que designa o ocultamento e o silenciamento da
identidade gay ou lésbica, o casulo onde o indivíduo com desejos homossexuais se esconde para viver a heteronormatividade publicamente, alimentando-se de outros prazeres apenas no anonimato.
O preconceito, que se refere ao juízo preconcebido de alguma coisa, é o principal motivador das “distâncias sociais”, formas elementares de conservadorismo, que estimulam e mantém a formação de guetos como refúgio e fortaleza, uma acomodação pessoal e afetiva. Conforme Park (1979), no processo de adequação social que molda as pessoas para um convívio harmonioso, grande parte das pessoas acaba por ser reprimida, limitando paixões, desejos e “apetites indisciplinados”.
O “armário” é, então, a construção cuidadosa de uma barreira entre a vida privada e a pública, onde é possível manter uma segurança emocional na vivência heterossexual com cautelosas aberturas para a satisfação do desejo homossexual, onde as rupturas permanecem seguras e invisíveis, de fácil manipulação e pouco comprometimento social. Os sujeitos tentam invisibilizar suas sexualidades e desejos para experienciá-las na clandestinidade, o que reforça e mantém a ideia de imoralidade e subversão. Dentre suas principais características, a negação da sexualidade por parte do aprisionado implica na afirmação pública da heteronormatividade, que pode se dar pelo matrimônio, filhos, relacionamentos esporádicos e, mais ainda, a homofobia. Repudiar o igual é fazer-se diferente, é negar socialmente a divergência para se manter na invisibilidade, mesmo que, inconscientemente, esteja dando mais visibilidade aquilo que gostaria de evitar.
Gregory Lehne (1994) entende a homofobia como o medo irracional da homossexualidade, seguida da intolerância, que pode partir tanto de homens quanto de mulheres, embora seja mais recorrente no universo masculino, associada ao receio do rótulo homossexual, com a negação da homossexualidade entre semelhantes, considerada não-natural, a fim de evitar estigmas. Define-se como uma manifestação arbitrária de opressão e discriminação de práticas sexuais ou de expressões de gênero distintas dos padrões hegemônicos da figura do masculino e do feminino. Welzer-Lang (2001) considera que por se tratar da
discriminação a pessoas que transpassam as relações e atributos de gênero, a homofobia engessa suas fronteiras e cristaliza suas convencionais diferenças.
Lenhe afirma que as bases das atitudes sociais homofóbicas estão geralmente relacionadas às crenças religiosas, às teorias científicas sobre a homossexualidade como uma doença patológica ou desvio e ao senso comum, fruto dos discursos sociais onde a homossexualidade é entendida como prejudicial para a sociedade.A homofobia também é usada para impor estereótipos sobre o papel sexual das mulheres com a passividade e submissão; e os homens que não participam deste processo de demarcação de papéis são estigmatizados como homossexuais.
O homofóbico tem medo que outros homens o desmascarem e revelem aos outros e a si mesmo um mundo que não pode ser alcançado pelas padronizações sociais, como aponta Michael Kimmel (1994) em seu estudo sobre a homofobia na sociedade estadunidense na década de 1980. Durante suas análises, identificou que o medo se refere à vergonha do público, das vulnerabilidades do masculino hegemônico que pode levar à humilhação. Esse mesmo medo leva o homem a externalizar ao máximo sua masculinidade, assegurando perante os outros sua posição social em contraposição a imagem feminina do gay, cuja homossexualidade é vista como “deficiência” no desenvolvimento de gênero do indivíduo.
Comparada a qualquer comportamento coletivo, a homofobia é socialmente aprendida e transmitida de geração em geração. Manter a invisibilidade sexual e alimentar a fobia consiste numa proteção individual: a “segurança” de estar/permanecer no “armário”. O papel social masculino é predominantemente mantido pela heterossexualidade, onde a homofobia efetiva-se como uma ameaça utilizada para impor a conformidade e manter o controle social. O “armário” representa, assim, a cristalização do preconceito entre iguais para se tornarem “diferentes”.