• Nenhum resultado encontrado

1. JOVEM PRÍNCIPE, FUTURO REI: AFONSO X, O SÁBIO

1.5 O DESEJO PELO SACRO IMPÉRIO E O “FECHO DEL IMPERIO”

Ao mesmo tempo em que lidava com esses graves conflitos no reino, Afonso X projetava duas grandes ambições políticas: 1) controlar o comércio no Mar Mediterrâneo; tarefa que seria possível após uma conquista de territórios no Norte da África; 2) efetivar a unidade política da Península Ibérica, tendo em vista que no início de seu governo Afonso X pretendia a coroa de Imperador do Sacro Império Romano Germânico. O jovem rei alimentava essa esperança política desde 1256, quando recebeu uma embaixada da república de Pisa, guiada por Bandino Lancia, oferecendo a ele uma chance à coroa do Sacro Império Romano Germânico.

Sabemos que, nesse sentido, Afonso X era duplamente favorecido pela linhagem

materna (via política germânica ou via bizantina), tendo reais chances82. O historiador Ayala Martínez explica da seguinte forma, com dúvidas, as condições que envolveram esse convite ao monarca castelhano:

La verdad es que resulta difícil precisar con exactitud las causas profundas que permiten explicar tan original ofrecimiento. Las versiones hasta elaboradas no resultan totalmente satisfactorias, aunque expliquen, sin duda alguna, parcialmente la realidad. Dichas versiones parten de tres supuestos no del todo probados: el caráter absolutamente inesperado de la iniciativa pisana, la clara relación entre dicha iniciativa y los planes de cruzada africana del Rey Sabio, y, en cualquier caso, el carácter espontáneo del ofrecimiento por parte de Pisa83.

Nesse projeto imperial, uma aproximação real de Afonso X em relação ao Papa Alexandre IV tornava-se essencial. Ademais, Afonso X precisava se aproximar do Papado por outros dois motivos, de acordo com Ayala Martínez: ele buscava neutralizar as pretensões francesas, via Navarra, no território e na política castelhanas; e desejava o aceite espiritual para a continuidade de sua política

82 “Alfonso X era plenamente consciente de la tradición imperial hispánica elaborada en el reino de León durante los siglos XI e XII. Basada en la suposición de que la herencia visigoda había sido traspasada a los reyes leoneses, esta tradición afirmaba que éstos tenían la responsabilidad de restaurar el reino visigodo extendiendo su dominio sobre todos los pueblos de la Península Ibérica, tanto cristianos como musulmanes. Evidentemente esta teoría nunca alcanzó su plena realización, si bien Alfonso VI (1065-1109) la expresó de forma explícita al titularse Imperator Hispaniae, lo mismo que su nieto Alfonso VII (1126-1157), que fue coronado emperador de España en León en 1135. La división posterior del reino entre sus dos hijos, Fernando II de León (1157-1188) y Sancho III de Castilla (1157-1158), impidió que ninguno de ellos reclamase el título imperial. Sin embargo, Fernando II se tituló rex Hispaniaeo rex Hispaniarum, tal vez imitando conscientemente el título de rex Romanorum empleado por los reyes alemanes antes de ser coronados emperadores del Sacro Romano Imperio. Y así como este título daba a entender las aspiraciones territoriales de Fernando II, la frase explicativa nondum imperator indicaba bien a las claras la intención de asumir el título imperial. Su hijo Alfonso IX (1188-1230) no utilizó estos títulos, pero su intento de apoderarse del reino de Castilla a la muerte de Enrique I (1217) da a entender que era plenamente consciente de que la adopción del título imperial carecía de sentido si previamente no se lograba la unificación de ambos reinos. La possibilidad de reafirmar la tradición imperial leonesa aumentó cuando Fernando III, por entonces rey de Castilla, sucedió a Alfonso IX como rey de León en diciembre de 1230. Sus contemporáneos hablan de él en unos términos que dan a entender que era superior a los otros reyes. La descripción que de Fernando III hace el cronista don Lucas, obispo de Tuy, como cavallero y vicario de Cristo...reconosciendose por peccador y no digno vicario de todo el reyno de los españoles, sugiere la reclamación de una hegemonía ilimitada sobre toda la Península. Usando una terminología más propria de la antigua Roma y del imperio carolingio que del reino de León, Rodrigo Jiménez de Rada, arzobispo de Toledo, dedicó su historia al serenissimo invicto et semper augusto dominio suo, Fernando, Dei gratia regi”.

O’CALLAGHAN, Joseph F. El Rey Sabio: el reinado de Alfonso X de Castilla. Traducción Manuel González Jiménez. Universidad de Sevilla: Secretariado de Publicaciones, 1999, p.189-190.

83 AYALA MARTINEZ, Carlos de. Directrices fundamentales de la política peninsular de Alfonso X. (Relaciones castellano-aragonesa de 1252 a 1263). Madrid: Antiqua et Mediaevalia, 1986, p.170.

diplomática em relação aos reinos estrangeiros, principalmente os islâmicos84. Alexandre IV, no entanto, também tinha os seus interesses em relação ao monarca castelhano; na época, o Papa se deparava com um grave problema: o rei Manfredo, da Sícilia, estava concentrando cada vez mais poder, estendendo a sua influência para o sul da Península Itálica; e piorando a situação, o exército pontifício tinha acabado de ser derrotado em 1255, pelo gibelino Staufen. Ao seu lado, o Papa apenas tinha os bons olhos da França e o guelfismo de Henrique III, da Inglaterra.

Diante desse panorama, a ideia do Papa Alexandre IV era apoiar um gibelino que fosse contra Manfredo; e nesse caso, o escolhido foi Afonso X. Nesse sentido, a política pontifícia buscou uma aproximação em relação à república de Pisa, aliada gibelina de Frederico II, e inimiga da Gênova de Manfredo85.

Pisa, por sua vez, tinha interesses políticos e econômicos nesta questão, pois Gênova era sua concorrente no comércio marítimo. Em 1256, Pisa, contando com o apoio de Marselha, reconheceu Afonso X como candidato para a coroa do Sacro Império86. No entanto, mesmo que o Papa Alexandre IV tenha colaborado com a indicação de Afonso X como representante para o posto de Imperador, tudo não passava de um esquema político, visando apenas derrotar as intenções de Manfredo da Sicília. Enquanto isso, na Península Ibérica, o rei de Aragão, Jaime I, apoiava a causa de Manfredo, complicando a geopolítica local.

Os candidatos ao posto de Imperador do Sacro Império Romano Germânico foram, portanto, Afonso X, rei de Castela, e Ricardo de Cornualles, irmão do monarca inglês Henrique III. Na primeira votação, em 1257, ganhou o candidato

84 AYALA MARTINEZ, Carlos de. Directrices fundamentales de la política peninsular de Alfonso X. (Relaciones castellano-aragonesa de 1252 a 1263). Madrid: Antiqua et Mediaevalia, 1986, p.171.

85 “En efecto, el fallecimiento del más decidido enemigo cristiano del Pontificado (Frederico II), en diciembre de 1250, supone mucho más que una simple, aunque importante, efemérides histórica.

La desaparición de Frederico creará una nueva dialéctica en las relaciones Imperio-Papado y supondrá la desaparición, en breve espacio de tiempo, del poder efectivo alemán sobre la Península italiana con la consiguiente anulación de los proyectos mediterráneos que los emperadores habían sostenido desde finales del siglo XII, pero, sobre todo, la muerte de Frederico II, seguida muy de cerca por la de su hijo Conrado IV, inaugura lo que tradicionalmente se conoce como el Gran Interregno del Imperio. Este importante período de poco más de veinte años de duración proporciona, entre otras muchas cosas, una excepcional coyuntura para que los distintos poderes de la época jueguen, en el marco de la Europa occidental, en torno a una de las más complejas especulaciones políticas de la Edad Media: la posesión de la no por teórica menos cobdiciada corona imperial”. AYALA MARTINEZ, Carlos de. Directrices fundamentales de la política peninsular de Alfonso X. (Relaciones castellano-aragonesa de 1252 a 1263). Madrid:

Antiqua et Mediaevalia, 1986, p.26-27.

86 O’CALLAGHAN, Joseph F. El Rey Sabio: el reinado de Alfonso X de Castilla. Traducción Manuel González Jiménez. Universidad de Sevilla: Secretariado de Publicaciones, 1999, p.244.

inglês; porém, na segunda votação, realizada em Frankfurt, quem ganhou foi o rei Afonso X. Diante disso, o Papado, Pisa e Marselha decidem se afastar do rei castelhano, devido ao verdadeiro receio de que este, efetivamente, ocupasse a posição imperial87. Nesse entremeio, os gibelinos do norte da Itália, contrários à política expansionista de Manfredo, se colocaram no apoio ao rei Afonso X. Apesar de tudo isso, Ricardo foi coroado Imperador em Aquisgrán, sem ao menos o consentimento formal do Papado; Afonso X, contando com o apoio familiar do rei da França, Luís IX, reclamou intensamente de toda essa situação. Assim em agosto de 1257 chegou à cidade de Burgos uma embaixada alemã com o arcebispo de Constanza requerendo Afonso X como indicado ao trono imperial. Esse “Interregno Imperial” se arrastaria por muitos anos, com Afonso X defendendo a sua eleição em Frankfurt. Em 1259, Afonso X convocou Cortes em Toledo para que os nobres trouxessem subsídios para sua corrida ao Império, para o que viria a ser chamado de “Fecho del Imperio”. Vários nobres castelhanos ficaram indignados com esse pedido; enquanto isso, Alexandre IV desencorajava a ida de Afonso X para Roma.

Em 1261, o sucessor do Papa Alexandre IV, o Papa Urbano IV, queria se informar da situação dos dois candidatos ao posto imperial, mas faleceu (1264) antes de iniciar as negociações. Já em 1265, o Papa Clemente IV (1265-1268) se demonstrava contra as intenções de Afonso X, pois era um inimigo dos aliados dos Staufen. Em 1266, Carlos de Anjou se tornou rei da Sicília e Manfredo morreu na batalha de Benevento. O filho de Manfredo, Conradino, se pôs na corrida imperial, mas acabou sendo morto a mando de Carlos de Anjou, em 1268. Nesse sentido, Afonso X tentava desestruturar a política de Carlos de Anjou na Península Itálica colocando forças no apoio aos gibelinos do norte. Resultado disso? Os gibelinos da Lombardia, com a liderança do nobre marquês Guilhermo de Monferrato, reconheceram Afonso X como Imperador do Sacro Império, em 1270. Em 1272, com Afonso X envolvido na rebelião nobiliárquica de seu reino, ocorreria uma importante novidade, de grande alívio e ânimo ao rei: a morte do seu rival Ricardo de Cornualles. Porém, as expectativas foram novamente frustradas, diante da forte oposição do novo pontífice, Gregório X (1271-1276), este que prontamente reconheu Rodolfo de Habsburgo como novo Imperador. Em 1274, Afonso X comunica sua ida

87 O afastamento do Papa Alexandre IV de Afonso X se deveu muito ao contato que o Rei castelhano fez com o genro de Frederico II, Ezzelino da Romano, pessoa muito mal vista pela corte pontifícia. VALDEÓN BARUQUE, Julio. Alfonso X El Sabio. La forja de la España Moderna.

Madrid: Ediciones Temas de Hoy, 2011, p.74.

ao Império para tomar posse de sua função, frente a Gregório X; no entanto, no ano de 1275, no encontro que os dois tiveram, Afonso X acaba sendo rechaçado pelo Papa, e tem suas esperanças esgotadas. Apesar de tudo, ao contrário do que afirma a historiografia tradicional, não podemos considerar a iniciativa de Afonso X em direção ao Império um fracasso total; de fato, ainda que não tenha alcançado a função desejada, seu envolvimento político com as forças externas trouxe grande prestígio à sua pessoa, fortalecendo a sua imagem como governante universal:

defendendo o gládio temporal.