1. JOVEM PRÍNCIPE, FUTURO REI: AFONSO X, O SÁBIO
1.6 SOBRE A QUESTÃO DOS GLÁDIOS TEMPORAL E ESPIRITUAL
Como verificamos no tópico anterior, são diversas as relações entre o poder temporal e o espiritual no século XIII, as quais afetaram Afonso X em seu projeto político em relação ao Sacro Império Romano Germânico. De fato, o embate entre os gládios temporal e espiritural se encontra presente em Las Siete Partidas; e Afonso X, consideramos, age exatamente no sentido de sempre fortalecer o poder dos Imperadores e dos reis. No entanto, adiantamos aqui, de modo algum ocorre qualquer afastamento ou animosidade em relação ao religioso, pelo contrário: na estrutura da obra, a parte que trata do poder espiritual está na Primeira Partida;
portanto, recebe destaque e dignidade dentro do trabalho legislativo, como referencial cultural e arcabouço teórico, legitimador, ao poder conferido ao Imperador e ao rei: estes que seriam os verdadeiros representantes de Deus na Terra, na responsabilidade de governarem a sociedade em direção ao bem.
Desde esse momento podemos, portanto, compreender o sentido de estrutura e organização ao poder temporal por parte da obra legislativa de Afonso X. E isso reforça, conforme Cybele Crossetti de Almeida, o chamado “poder da tradição” dos reis medievais88. Afonso X teria buscado, através de sua obra, esta prerrogativa em relação ao seu poder; e justamente por essa obstinada opção, não conseguiu equilibrar as suas relações com o forte poder do Papado no século XIII, resultando em seu fracasso pela posição imperial no Sacro Império, como vimos no tópico
88 ALMEIDA, Cybele Crossetti de. Legislar para o bem comum: direito e centralização política em Afonso X. Revista Biblos. Rio Grande do Sul. n. 21, p. 12, 2007. ALMEIDA, Cybele Crossetti de.
Considerações sobre o uso político do conceito de justiça na obra legislativa de Afonso X. Anos 90. Rio Grande do Sul: UFRGS, v.16, p.13, 2002.
anterior. Las Siete Partidas, devemos então considerar em vistas da análise que realizaremos no presente estudo, representam um instrumento de esforço ao fortalecimento do poder laico, inserindo-se dentro de uma longa discussão entre o temporal e espiritual a respeito do controle da sociedade cristã.
A teoria dos dois gládios (na qual o poder espiritual da Igreja tutelava o poder temporal dos reis e Imperadores) teve seu início com o Papa Gelásio I, em 494; este afirmava a supremacia do poder espiritual sobre o temporal89. No século XIII, momento em que começamos a perceber forte oposição por parte do poder temporal em relação ao poder espiritual, ocorreu o desenvolvimento das ideias aristotélicas no Ocidente, e Tomás de Aquino (1225-1274) foi um de seus principais expoentes.
Leitor ávido das obras de Averróis (1126-1198)90, Aquino apresentou para a cena filosófica e política a questão do homem citadino como centro do desenvolvimento da política; pensamento que acabou favorecendo aos reis91. Esses aproveitaram
89 Essa ideia foi utilizada e defendida com entusiasmo pelo Papa Gregório VII tempos depois, visando o seu fortalecimento, especialmente em decorrência da chamada “Querela das Investiduras”: circunstância na qual o Imperador do Sacro Império Romano Germânico desejou a ele próprio a responsabilidade de investir os bispos em seus cargos, e não mais a Igreja. O evento se iniciou em 1075 com o embate entre o Papa Gregório VII (que defendia a teoria dos gládios, com a sua obra Dictatus Papae), e não aceitava de forma alguma a autonomia das investiduras levadas a cabo pelo Imperador Henrique IV. Um ano depois, com o acirramento da disputa, Gregório VII acabou excomungando Henrique IV. Depois de perder grande apoio político, Henrique IV teve que em 1077 ir ao norte da Península Itálica (cidade de Canossa) e pedir perdão ao Papa por sua ação. Apenas em 1122 a Igreja conseguiu submeter o Sacro Império Romano Germânico, no que ficou conhecida como Concordata de Worms. No entanto, no século XIII, os reis desejavam fortalecer as suas monarquias nacionais, como foi o caso na França de Felipe, o Belo (1268-1314), que buscava o fortalecimento do poder laico em detrimento da ação do Papa Bonifácio VIII; Felipe desejava cobrar do clero impostos e não se submeter mais à Igreja. Felipe foi excomungado pelo Papa; mas diferentemente de Henrique IV do Sacro Império, Felipe não se rendeu, e a monarquia ganhou forças. Com a morte de Bonifácio VIII, Felipe foi o responsável por indicar o novo Papa, Clemente V, dando início ao chamado cativeiro de Avignon, quando o rei francês transferiu a sede do Papado de Roma para a referida cidade francesa. Sobre o assunto, indicamos: SOUZA, José Antônio de Camargo Rodrigues de. O reino de Deus e o reino dos Homens: as relações entre os poderes espiritual e temporal na Baixa Idade Média (da Reforma Gregoriana a João Quidort). José Antônio de C. R. de Souza e João Morals Barbosa (org.). Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997. Cf: SOUZA, José Antônio de Camargo Rodrigues de. El Cisma de Occidente: los antecedentes y sus consecuencias inmediatas. In: SOUZA, José Antônio de C. R. de.; AZNAR, Bernardo Bayona. (eds.). Doctrinas y relaciones de poder en el Cisma de Occidente y en la época conciliar (1379-1449). Zaragoza: Prensas de la Universidad de Zaragoza, 2013.
90 ELÍA, Ricardo H.S. Averroes. In: La Civilización del Islam. Irã: Fundación Cultural Oriente, 2005, p. 170-172; BAZZANA, A.; BERIOU, N.; GUICHARD, P. Averroès et l’averroisme (XII-XV siècle).
Lyon: Pulyon, 2005, p.15.
91 AQUINO, Tomás de. Disputed questions on the virtues. Cambridge, UK; New York: Cambridge University Press, 2005, p.200. AQUINO, Tomás de. Suma de Teología. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1990, p.351. Conforme Fátima Regina Fernandes, “A partir de 1260, um dominicano dos Países Baixos, Guilherme de Moebeck promove a primeira tradução conhecida da obra “Política” de Aristóteles para o latim. Já em 1270 tem-se conhecimento das lições sobre esta obra levadas a cabo por Siger de Brabante no curso de Artes da Universidade de Paris. Tomás de
desse momento de valorização das ideias aristotélicas, já cristianizadas, para justamente lutarem ainda mais pelo poder monárquico, mesmo eles conscientes de viverem sob o universo da Cristandade Latina. O aristotelismo tomista, (pensado posteriormente ao aristotelismo averroísta) e ambos concomitantemente ao neoplatonismo, seguiram as ideias de Santo Agostinho, defendendo a não transformação do rei em um tirano, pois soberana é a lei de Deus, e o rei tem autonomia em seu reino dos homens. Esse, ademais, tornou-se um dos temas resultantes do chamado “Renascimento do Direito Romano” para fortalecer o poder temporal. Conforme a medievalista Fátima Regina Fernandes:
Assim, podemos concluir que o tradicional embate Papado / Império, nos fins do século XIII e princípios do século XIV tenderia a ser temporariamente superado pelo eclodir da força latente dos reis, fortalecidos pelos teóricos que construiriam um modelo régio forte nos seus espelhos de príncipes. Teóricos que haviam dividido seus esforços na elaboração simultânea de textos que esclarecessem a origem, natureza e atribuições do poder régio e pontifício, com acento na supremacia dos spiritualia construindo, no entanto, sua base de unidade assente na tutela do Papado92.
Aquino, dominicano desde 1244, tendo antes se formado na Universidade de Nápoles fôra enviado por sua Ordem a Paris para estudar com Alberto Magno e aí, Tomás de Aquino, amigo pessoal de Moebeck, tornar-se-ía o grande intérprete de Aristóteles à luz da Teologia cristã. O frei dominicano escreve extensa obra mais de caráter teológico, interessam-nos, no entanto, dois tratados: De Regno, produzido entre 1267-72, um amplo comentário escolástico da obra de Aristóteles no qual destaca a supremacia da autoridade papal . O outro intitulado de Regiminem Principum, produzido entre 1265-7, é uma obra dentro do estilo espelho de príncipes, dedicado ao herdeiro do reino de Chipre, na qual Tomás de Aquino afirma-se em direção a um naturalismo político, no qual cada comunidade elegeria a forma de governo temporal que considerasse melhor dentre as formas de governo existentes com um acento na monarquia como a melhor opção. O homem é entendido em sua natureza social e o rei é aquele que governa uma sociedade humana perseguindo o bem comum. Trata-se, naturalmente de uma leitura da filosofia social de Aristóteles e sua aplicação às condições de vida na época medieval. Observamos que um mesmo autor defende, em duas obras quase simultâneas, o equilíbrio dos dois gládios de Gelásio com uma entonação na supremacia papal. A Corte dos reis medievais seria o receptáculo de boa parte destas cabeças pensantes advindas das Universidades que com seus argumentos teóricos construiriam as bases da supremacia dos reis. Luís IX de França forma à sua volta o que a historiografia costuma chamar de grupo de São Luís, cujos pressupostos encontrariam ampla receptividade na Península Ibérica de Afonso X e seus sucessores. Uma das principais referências deste grupo seria Egídio Romano, mendicante, teólogo pela Universidade de Paris, freqüenta os cursos de Tomás de Aquino e entre 1258-60 entra na ordem recém criada dos eremitas agostinianos. Já em 1277-9 escreve um tratado homônimo ao de Tomás de Aquino, De Regimine Principum, um espelho de príncipes dedicado à formação do delfim Felipe, futuro Felipe, o Belo.
As ideias defendidas neste tratado reforçam a racionalidade aristotélico-tomista e afirmam a máxima rex quase semideus; uma obra que teve ampla transmissão dentre as Cortes régias e imperial”. FERNANDES, Fátima Regina. O conceito de Império no pensamento político tardo-medieval. DORÉ, Andréa Carla; LIMA, Luís Filipe Silvério; SILVA, Luiz Geraldo (organizadores).
Facetas do império na história:conceitos e métodos. São Paulo: Aderaldo & Rothschild;
Brasília, DF: Capes, 2008, p.187-189.
92 FERNANDES, Fátima Regina. O conceito de Império no pensamento político tardo-medieval.
DORÉ, Andréa Carla; LIMA, Luís Filipe Silvério; SILVA, Luiz Geraldo (organizadores). Facetas do império na história:conceitos e métodos. São Paulo: Aderaldo & Rothschild; Brasília, DF:
Conforme verificamos nas diversas teorias relacionadas aos gládios, o século XIII, e isso pensando no contexto de Afonso X, se demonstra uma época de fortalecimento do poder temporal em relação ao espiritual. O temporal não mais desejava, portanto, continuar se submetendo à autoridade irrestrita do Papa; queria se tornar, ele próprio, fonte de poder e autoridade na sociedade cristã.