TRABALHO DE CAMPO ESTUDO DE CASOS
LEITURA 4 DESENHAR COM O SOL
O cinema é o desejo de comunicar com pessoas que não vemos. É só isso, o cinema, um meio de comunicação. Um bocado de película, ou de filme magnético, ou uma onda hertziana, é um pedaço de ser humano, sob uma certa forma.
GODARD, Jean-Luc (1975). Número deux, um filme diferente, in Arte e Revolução, Abril em Maio (2005), p. 84
Um dos eventos que o IDENTIDADESpromoveu, deslocou para a escaldante povoação de Amareleja um grupo de estudantes e professores da FBAUP e da Escola Nacional de Artes Visuais (Moçambique).
Como em todas as localidades do Alentejo, como poderia ser na Andaluzia, um grupo de homens, depois da sesta, acomodam-se numa fila de cadeiras ao longo da sombra, conversando ao longo do tempo. O desenho da fila vai descrevendo, em volta da pequena praça, um círculo, marcando o desloca- mento do sol na procura da desejada sombra. Este movimento funciona como um autêntico relógio de sol, não pela sombra que provoca, mas pelo registo na praça do ângulo de sombra que o sol descreve.
O crescente diálogo com as pessoas, ampliado nas quentes noites em que na parede de uma das casas da praça projectamos cinema, foi per-
(…) durante este ano para lá das amizades e convívios cria- dos também é de realçar o exercício de trabalhar em grupo com personalidades e culturas diferentes num objectivo comum, objectivo esse que, pessoalmente, era o percurso em si.
mitindo reconhecer o valor endógeno da sombra no seu quotidiano. Foi a partir dessa verificação que produzimos um objecto suspenso no meio da praça que nela projectava o desenho dos seus recortes, acompa- nhando o movimento do sol e dos círculos que o grupo ia descrevendo com as suas cadeiras. Não tardou que as conversas na praça se desvias- sem para a sombra e se pudesse assistir a jogos de identificação sobre quem passava, apenas pela observação do desenho que a sua sombra produzia na rua.
Para nós, para além da riqueza incorporada pelo relacionamento estreito com a população, nunca mais esqueceremos esta possibilidade de dese- nhar com o sol, sublinhada pelo modo como alguns velhos ao longo da tarde passaram a estar atentos à requintada linguagem da silhueta.
LEITURA 5. A DOR
Hoje encontramos no mercado numerosos produtos dos quais foram extirpadas as suas propriedades malignas: café sem cafeína, natas sem matéria gorda, cerveja sem álcool… E a lista continua: porque não uma cena de sexo virtual, uma sexualidade sem sexo, uma guerra sem guerra, (…)
ZIZEK, Slavoj (2002): p. 26
Uma jovem estudante da escola de Maputo, deslocada para o interior do Alentejo num escaldante mês de Julho, queixava-se da intensidade do sol do meio-dia; de olhos semicerrados explicava a desconhecida dor de cabeça. A pronta aspirina lá está a tranquilizar a situação, tentando pro- var a afirmação ouvida: — Não há razão nenhuma, hoje, para ter dor, um comprimido resolve o problema.
Para além da razoabilidade da afirmação, ela dimensiona-se na socie- dade anestesiada em que vivemos. As agruras próprias da vida, as guer- ras e os demasiados infortúnios existentes, que em demasia nos são disponibilizados num espectáculo em directo ou em deferido, não nos provocam qualquer dor e dispensamos a aspirina disponível.
Vivemos na solidão do espectador, mesmo se numa sala repleta, sem fazer o luto colectivo pelas perdas, limitamo-nos a partilhar o simulacro da dor, em silêncio ordeiro.
Nos assuntos escolhidos para serem trabalhados em conjunto, a dor nunca aparece, por ausência ou pelo reconhecimento do silêncio impre-
Hoje torna-se muitas vezes, mais importante para mim saber livrar-me de referências e conceitos do que utilizá- -los... a cada novo espaço para onde vou, tenho necessi- dade de renascer e reaprender com as pessoas desse espaço entendendo as suas perspec- tivas. Tentando fazer meus os problemas e adversidades que as diversas comunidades enfrentam utilizando as dife- renças que me restam para contribuir de forma positiva.
ASSIS, Tiago. Assistente da FBAUP, Porto/Identidades
ciso que a congrega. Não encontramos forma de a nomear, de a tornar linguagem, dispensada que está a poesia das nossas narrativas: a inca- pacidade de causar dor com as nossas intervenções artísticas adequadas à política globalizada que anuncia incessantemente a defesa democrática do ‘bem-estar para todos’.
Na resistente poesia a dor perdura, mas emigrou das artes plásticas, onde a violência, a crueza e a sua efabulação constantes se apresentam distantes de um esforço estético de convocação da dor. Dispensemos as aspirinas.
LEITURA 6. PRESENÇAS
Nossas sociedades são compostas não de um, mas de mui- tos povos. Suas origens não são únicas, mas diversas.
HALL. Stuart (2003): p. 30
Visitei recentemente a Arte Lisboa onde me encontrei com artistas moçambicanos que aí apresentavam o seu trabalho. Como em outras exposições internacionais, considerando o programa de mostras, bienais e eventos que pelo mundo fora promovem a arte contemporânea e ilus- tram o discurso pós-colonial com a apresentação de artistas trazidos da periferia, ou de artistas instalados no centro que patenteiam, num hibri- dismo oportuno, um estatuto especial de assimilados, as geografias pre- sentes afirmam a globalização proclamada.
Sabe-me bem acompanhar o que se vai fazendo por este nosso mundo fora e reparar em como se multiplicam e diversificam os modos de pro- dução artística e as existentes resistências explícitas aos ditames do mer- cado da arte e ao fechamento inócuo da arte para o seu próprio campo. Em Paris, na visita ao Museu du Quai Branly, depois de bichas interminá- veis, no meio de milhares de visitantes que se acotovelavam perante o esplendor das chefs-d’oeuvre da África, da Ásia, da Oceania e das Américas, exoticamente apresentadas num conceito de design de equi- pamento para museus absolutamente contemporâneo, não consegui sentir a verdade dos objectos, deslocados de seus contextos, desprovi- dos das suas capacidades de mediarem a relação com os antepassados, com os deuses e com os homens. Senti-me europo-afastado, ainda mais longe do anunciado mundo multicultural, insatisfeito pela fruição esté- tica e deslocado para uma espécie de autismo perante a produção de cultura que deu forma e razão de ser aos objectos museografados. Na pacata vila da Amareleja no Alentejo, a presença de um grupo de estudantes de arte de Moçambique apenas relembrava o pesadelo, hoje
(…) é de ressaltar, a nível pes- soal, o facto de a minha parti- cipação no projecto ter servido para aprender, de forma muito enriquecedora, novas maneiras de encarar as linguagens artísticas actuais e sobretudo de marcar uma ati- tude muito mais aberta ao mundo e a outras culturas, no sentido de estabelecer pontos em comum para dar continui- dade a outros futuros projec- tos e realçar também as particularidades de cada um, de forma recíproca, potencia- lizando a diversidade de expressão.
LEAL, Sara, Fevereiro de 1998, Identidades/Porto
levado ao esquecimento por muitos adultos perante a África colonizada. Uma memória que laços existentes poderiam ter tecido não povoa o quotidiano.
Independentemente da presença reconhecida de uma forte diáspora afri- cana na Europa, mal se identifica um positivo movimento vagaroso e subtil que descentra os modelos ocidentais, que lhes acrescenta um pouco de cada vez, que os desvirtua subtilmente e que permitirá, se admirados, equilibrar os efeitos dominantes de homogeneização cultural que usam a diferença apenas para a aniquilar ou domar.
Entendo o multiculturalismo não como uma doutrina política estabele- cida, mas como uma variedade dinâmica de práticas sociais e de ideias, que integre as contribuições divergentes e aceite com normalidade a diversidade cultural como constituinte do nosso tempo.
LEITURA 7. NA SOLIDÃO
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não
acabarem). esta certeza tive-a hoje ao entrar numa repartição pública. Um senhor míope atendia devagar ao balcão; eu perguntei: “Que fez algum poeta por este senhor?” E a pergunta afligiu-me tanto por dentro e por fora da cabeça que tive que voltar a ler toda a poesia desde o princípio do mundo. Uma pergunta na cabeça.
—Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar?—
PINA, Manuel António (1966). A Poesia Vai, in Poesia Reunida, Assírio& Alvim, Lisboa, 2001, p. 38.
Sinto-me sempre bem nos momentos de solidão. Aprecio a amplitude da linha do horizonte no Alentejo de silêncio contemplativo e poderia mesmo ser pastor se lhe soubesse a arte. E, reconheço, remeto-me a um estado subliminar de isolamento mental muitas vezes perante multi- dões, grupos ruidosos ou reuniões desinteressantes. Dou-me bem com a leitura isolada e a reflexão tranquila, embora todos me identifiquem
como de projectos colectivos, de franqueza partilhada, de frenesim acti- vista e de afectos soltos.
Ao longo da minha vida, em mais de meio século de procura de equilí- brio entre a força combustível da utopia e a aceitação do realizado, esta- beleci a solidão como o tempo de tranquilidade e espaço de
contemplação de acesso ao inteligível, ampliador de forças e fomento de criatividade. A solidão, não como um refúgio intimista de gestão de segredos pessoais, mas como mediação entre o ser, que se quer pleno, para o mergulho no social, onde se realiza.
Nada contraria a procura de ambientes colectivos, de implicações com o comunitário, onde se estabelecem melhores condições para a confronta- ção do eu com universos abertos de ideias, de práticas e de sonhos, cer- tamente mil vezes mais ricos.
Esta sétima leitura do último caso de estudos fecha um capítulo onde o IDENTIDADESfoi visitado, sendo realçada, sempre, a preferência por dinâ- micas de grupo, participativas em toda a cadeia de projecto/acção/refle- xão, e, ainda, se revelaram os esforços de envolvimento das populações nos eventos promovidos.
O apelo constante e o pulsar próprio do IDENTIDADESpara um envolvimento não assinado e nunca individual, mesmo quando de intervenções artísticas se tratava, tendem a contrariar as tendências prevalecentes que situam o artista isolado na sua personalidade autoral, fruto dos tempos que são dominados pelo valor da assinatura e da biografia pessoal, no mercado e nos espaços de legitimação da arte. Não para contrapor a defesa do colec- tivismo ou para criar um qualquer grupo artístico doutrinário, mas apenas para gerar a interrogação pessoal e partilhada, e propiciar a todos, jovens estudantes de arte, artistas e os demais envolvidos nos eventos provoca- dos, uma experiência grávida de acontecimentos, que possibilite a cada um melhor se entender com o seu mundo e com o mundo da arte.
Apenas na plano da solidão, neste momento de reflexão e no rigor que a escrita exige, posso sentir e saborear a extraordinária experiência colec- tiva em que participo.
LEITURA EXTRA . EM BARRANCOS
Barrancos vai acordando pouco a pouco e apercebe-se dum movimento pouco usual. O Largo Central, ali onde estão con- centrados os serviços, vai pouco a pouco transformando-se
Enfim, o projecto Identidades é uma porta aberta para a minha formação, e tenho a certeza que não se fechará nunca, pois não há cadeado que resistiria à força da von- tade dos homens que juntou, junta e que juntará ao longo do tempo.
MANJATE, Rogério. Escritor, actor e encenador de teatro,
num espaço onde se depositam os esqueletos de uma estru- tura chamada “Encontro com Barrancos”.
Às 17 horas o velho tamborileiro, o nosso José Ramón, sai pelas ruas da vila, anunciando um “Encontro/Exposição” que se realizará a partir das 18 horas até às 23, no Largo principal.
Diário do Alentejo, 30 de Setembro de 1988, p.15
A memória não ajuda o esforço para evocar um dos eventos mais profí- cuos em que me envolvi, ainda na juventude da minha carreira docente, então professor da disciplina de História de Arte, na Escola de Soares dos Reis, no Porto.
Relembro à distancia o tom cantado do dialecto barranquenho, arte de simulação de bom contrabandista, que soava no ar e dificultava o enten- dimento das conversas fáceis trocadas nas ruas e nas associações. Reconstituíndo o evento: com quatro de alunos do 12. ano desci a cami- nho de Barrancos no meu 4L amarelo. O restante grupo tomou a camio- neta para Moura e de lá os fomos buscar de carro, aproveitando para abastecer de gasolina, naquela cidade onde havia o mais próximo posto nas cercanias. Instalados na Herdade da Coitadinha, desprivatizada pela Reforma Agrária, todos os dias nos dividíamos em dois grupos, alterna- damente, um descendo para o Castelo de Noudar, para se juntar à cam- panha arqueológica movida pelo Campo Arqueológico de Mértola, outro subindo para Barrancos, para se espalhar metodicamente pelas ruas, realizando um levantamento sistemático do ‘património cultural’, atra- vés do registo em desenho e da fotografia. Uma semana se passou neste trabalho diário, iniciado bem cedo, onde a quentura não escalda a cabeça, e prolongado até à tardinha, com o regresso ainda de dia, para o banho diário no rio.
Nestes dias de entrega intensa às tarefas programadas, o contacto com a população foi revelando a sua afabilidade: nos bom-dia sorridentes, no copo de água fresca oferecida, no ¿quer um banquinho?, na oferta da soleira da porta aberta para melhor saborear a sombra, na companhia simples e desinteressada, no contar de vidas, na admiração pelo levantar tão cedo de gente tão nova, no convite para beber, …
Sensibilizados pelo acolhimento, simplicidade e bom trato, os alunos nas conversas do fim-de-dia, hora de organização do produto do traba- lho, conversavam sobre seu encanto pela paisagem urbana povoada que partilhavam, pela riqueza patrimonial existente, pelo gosto da poeira do Castelo, e contavam pormenores, como sobre as conversas infindáveis do barbeiro e sobre uma ou outra frase memorizada. De entre todas elas
Tudo o que eu pudesse acres- centar seria apenas um pro- longamento do meu próprio processo de (re)aprendiza- gem da viagem como poesia. E resume-se numa frase: estou a reaprender a lentidão.
a que mais marcou o grupo, foi o cumprimento repetido algumas vezes e por mais de uma pessoa, que somava aos “bom-dia”, interjeições que significavam todas elas o mesmo – “ainda tão cedo e já a trabalhar?”. Nunca ouvíramos classificar um grupo de alunos espalhados pelas ruas, sentados nos passeios a desenhar como trabalhadores. Ficámos felizes pela compreensão plena do que estávamos a fazer e sentíamo-nos agra- decidos pelo reconhecimento que comportava em si um agradecimento da população pelo nosso trabalho.
No penúltimo dia, uma corrida de carro até Mértola permitiu revelar e ampliar as centenas de fotografias tiradas, numa directa memorável. No final de nossa estada, promovemos com o apoio do Município um “Encontro com Barrancos” na Praça Principal: estendemos cordas entre o posto dos correios e a igreja matriz, lá dependurámos, com molas de roupa, os nossos desenhos e fotografias; os artefactos arqueológicos encontrados no Castelo de Noudar expunham-se na Praça; uma oficina de serigrafia permitia a todos participarem na edição aberta de uma ima- gem que representava uma vista geral da linda vista paisagística do casa- rio branco edificado em cascata sobre um monte.
Feita a divulgação nos moldes da tradição local, o presidente da Câmara comentava que na exposição, entre as 18 e as 23 horas, apenas a senhora Cândida, paralítica e acamada, não comparecera. Foi com entusiasmo que vimos toda (literalmente) a população, vestida de domingo, percor- rer a praça e identificar os desenhos, a sua janela, um pormenor, um rosto, identificar os autores dos trabalhos, alguns pelos nomes já conhe- cidos,…
Para os alunos, não preciso dizer o que cada um pode ter recolhido da experiência por que passou; para mim, para além das marcas pessoais deixadas no meu crescimento, considero ter realizado da forma mais perfeita de sempre, a minha função de professor e de artista, na sua ple- nitude.
Hoje, alguns desenhos e fotografias escolhidas do nosso trabalho de levantamento fazem parte da monografia de Barrancos editada. O traba- lho arqueológico no Castelo de Noudar ainda tem continuidade. Em Barrancos, onde voltei por mais de uma vez, a população sente com mágoa a degradação do seu património e lamenta de como a vida não está fácil, … mas ainda se lembra de nós, em particular da exposição memorável realizada na sua Praça Principal, que foi uma autêntica festa.