• Nenhum resultado encontrado

TEMPEROS E AROMAS

No documento ARTE/desENVOLVIMENTO (páginas 177-179)

TRABALHO DE CAMPO ESTUDO DE CASOS

LEITURA 2 TEMPEROS E AROMAS

Vivemos entre uma poeira de acontecimentos na qual nos perdemos. É preciso encontrar os acontecimentos de facto importantes, os que façam sentido, os que nos permitam acreditar em nós mesmos. É preciso encontrar um sentido; por isso é tão fundamental a visão contemplativa da História. É procurar descobrir o sentido da condição humana em cada gesto dos homens.

MATTOSO, José, entrevista – História, Fev. 2000

Numa conferência sobre Serviços Educativos de Museus organizada pelo IPM, cruzei-me com a afirmação, dissidente com o teor da maioria das intervenções, que defendia que em Mértola, na Vila Museu, não se pretendiam milhares de visitantes, tornados turistas que tudo fotografam e nada vêem e que se apressam de um para um outro qualquer motivo pitoresco, divulgado ou assinalado como de valor cultural.

A maioria dos técnicos, atónitos, viciados pelo esforço feito para se cum- prirem os objectivos de aumento do número de visitantes e das práticas usuais para se criarem públicos e rentabilizarem as bilheteiras, custou a entender que só essa postura privilegiava a fruição das matérias expos- tas, os conteúdos museografados e expostos, verdadeira função educa- tiva e cultural dos museus.

O conhecimento directo e a participação pessoal na constituição faseada do Museu de Mértola e da política que na época imprimia ao Museu dos Transportes e Comunicações, onde era responsável pela programação e pela coordenação dos Serviços Educativos, permitiram-me entender a pertinência da controvérsia levantada, escondida pela necessidade de as equipas técnicas presentes terem de inventar modos de superação da escassez orçamental resultante da mesquinha política nacional para os Museus, para a Educação e para a Cultura.

Desde o momento inicial pro- curei o sentido da aproxima- ção e recusa face às diferentes experiências: interessava-me profundamente perceber quais as consequências no relacionamento com as artes, em que medida existiram e que sentido tomaram.

Como podem os apressados visitantes ou os grupos enormes de crian- ças/alunos, que passam correndo por artefactos que decifram mil valo- res, por objectos de fruição contemplativa, por experiências que exigem ser pensadas, retirar da passagem por um museu uma experiência ines- quecível, ensinamentos marcantes, aprendizagens reavaliadas?

Muitos dos núcleos museológicos existentes (de modo exemplar no caso do Museu de Mértola) prolongam-se para o saber da população, para o modo generoso como as suas gentes se dispõem a conversar na sombra estreita das casas com os visitantes, para os saberes que se des- cobrem e que povoam o convívio com a história, para os paladares que comportam a arte de utilização dos temperos, sedimentada ao longo dos anos para ludibriar a seca e a escassez, como também para a festa e a luta, ou também para arte de serviçais escolhidas para tornar ostensiva e opulenta a riqueza de fazendeiros, de padres e ilustres.

Por muito rico que seja o património musealizado, a relação que estabelece com o visitante não dispensa a frequência, a estada suficiente para se repa- rar no que se vê, juntando-lhe os paladares, os sons, os aromas, as vidas e as vivências que lhe sustentam o valor. Em Mértola, no Sítio Museológico de Lajedos, em Cabo Verde, ou no Museu do Douro, onde o conceito de museu como território domina, os projectos não se compadecem com leitu- ras estatísticas de sucesso, que não lhes conferem valor de contaminação.

LEITURA 3 . ENRAIZADOS

A contingência requer a amizade como alternativa ao asilo de loucos.

BAUMAN, Zygmunt (1991): p. 255

Conversando num dos quase desabitados montes do Baixo Alentejo, um avô de um miúdo correndo com o vento, exprimia seu desagrado pelos senhores de Lisboa que não reconheciam o valor dos segredos do pas- sado que a sua Mértola continha, nem o trabalho que se estava fazendo. O sentimento profundo que ele expressava revelava-o como sendo parte de um território que se defende como se num abrigo se encontrasse a partilha fraterna das ideias e dos programas que oferecem a revelação dos segredos que a terra escondera.

Narradas, as dificuldades sofridas num quotidiano de isolamento denun- ciam o seu esbatimento no enraizamento na comunidade e, também, o rompimento da solidão que a amizade possibilita.

Aprendi a aprender mais com os outros do que ensinar alguma coisa que eu achasse útil de acordo com as minhas próprias idiossincrasias. Continuo a viver das memó- rias do que por lá fizemos (…)

LAMARES, Regina. Identidades/Porto

Nas descidas para o Alentejo, quando as fazemos, transportamos o nosso desenraizamento: nosso bilhete de identidade não nos confere mais do que nosso individualismo afastado da nossa própria tradição e o nosso medo de solidão escondido no despique social. E somos presen- teados, aí como em outras paragens suspensas no tempo ou de resistên- cia, com a aproximação a grupos que alimentam refúgios, onde se misturam diferenças e companhias.

Em Mértola a tradição não alimenta o presente, caminho de recapitula- ção que se sabe resultar em desagregação comunitária, prefere-se a ges- tão do desespero que a resistência comporta quando se prefere desenhar ruelas desconhecidas, orgânicas ao pulsar das tensões sociais, sentindo a divergência constante e procurando a direcção.

Em Lajedos, nas encostas flageladas da ilha de Santo Antão e Cabo Verde, em Conceição das Crioulas, no Sertão brasileiro de Pernambuco, em Matalana em Moçambique, saboreia-se o mesmo, e, por momentos, sentimos a existência desse conforto da pertença numa deslocação onde se expõe a solidão de cada um.

No documento ARTE/desENVOLVIMENTO (páginas 177-179)