Nota Introdutória
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3.1 Desenho do estudo e metodologia
Como em qualquer tipo de investigação iniciamos o nosso projecto tendo por base um problema inicial. Sendo Educadora de Infância desde 1993 e trabalhando no âmbito do ensino especial, deparamo-nos frequentemente com a necessidade de elaborar materiais específicos para a estimulação dos diferentes domínios de desenvolvimento da criança com Necessidades Educativas Especiais.
Acreditando que as Tecnologias de Informação e Comunicação constituem presentemente, um instrumento poderoso de apoio à educação e, no caso específico, no apoio a populações especiais, partimos da singularidade da criança portadora de Trissomia 21, tentando aproveitar o carácter multimédia do software Imagina, Cria e Constrói com a Tartaruga para a criação de Ambientes integrados de aprendizagem que permitissem a estimulação de competências comunicativas nesta população.
Esta problemática impulsionou, desde logo, o presente estudo, que se prende, sobretudo, com a nossa experiência socioprofissional, indo de encontro à perspectiva de Lessard-Hérbert, Goyette e Boutin (1990) quando conferem uma pertinência socioprofissional à investigação.
Capítulo III Metodologia
Pretendemos, deste modo, dar um contributo em termos de investigação no domínio da Educação de Infância e do Ensino Especial, sendo igualmente em função do critério da nossa formação que se situa a selecção de uma metodologia qualitativa.
Actualmente a investigação qualitativa apresenta-se muito diversificada, enquadrando-se em inúmeras tradições teóricas e metodológicas. Erickson (1996) cit. in Walsh et al (2002:1037), numa tentativa de abranger toda esta diversidade, descreveu um conjunto de trabalhos de investigação como “alternativamente denominadas por etnográficos, lógicos, construtivistas, ou interpretativos”, passando a utilizar o termo “abordagem interpretativa” para se referir à investigação qualitativa.
Seguimos a linha investigativa destes autores quando referem que as abordagens qualitativas à investigação em Educação de Infância são encaradas como extremamente vantajosas e estimulantes, divergindo dos trabalhos quantitativos nos âmbitos da ética da investigação, noções de conhecimento e relacionamento entre o investigador e o sujeito da investigação.
Pacheco (1995:17) argumenta que a importância crescente dada à investigação qualitativa advém do facto de proporcionar aos investigadores “um conhecimento intrínseco aos próprios conhecimentos possibilitando-lhes uma melhor compreensão do real, com a subjectividade que está sempre presente, pela conjugação do rigor e da objectividade na recolha, análise e interpretação dos dados”.
O conceito de “investigação interpretativa” lembra-nos também que toda a investigação compreende a interpretação de registos de dados e a publicação dessas interpretações. Deste modo as estratégias metodológicas por nós utilizadas na presente pesquisa enquadram-se num paradigma interpretativo formulado em termos de acção.
Neste contexto, optámos por uma metodologia qualitativa enquadrada num contexto paradigmático, denominado interpretativo, incidindo sobre o modo como a aplicação de conteúdos interactivos, por nós organizados, influencia, estimula e desenvolve competências comunicativas na criança com Síndrome de Down. Coincidimos, neste ponto, com algumas nuances a uma metodologia de investigação-acção. Segundo Gauthier (1990), a investigação-acção é um método amplamente utilizado na investigação educacional, cuja filosofia está relacionada com a articulação de teorias e práticas numa perspectiva de mudança social. Trata-se de uma abordagem analítico-cientifica, permitindo a um grupo ou a um sujeito isolado tomar consciência critico-construtiva da sua própria acção. Segundo o mesmo autor, a investigação-acção é uma modalidade de pesquisa que faz do actor um pesquisador e do pesquisador um actor, que orienta a pesquisa na direcção da acção e que conduz a acção na direcção das considerações da pesquisa.
Foi com base nestas premissas que assumimos um paradigma interpretativo, na medida em que pretendemos relevar a importância das diferenças individuais que levam a que a aprendizagem de competências comunicativas expressivas e compreensivas se processe de forma diferenciada, interactiva e ajustada às características de cada um.
Outro modo de investigação que privilegiamos neste trabalho assenta no estudo de casos. Segundo Yin (1984), a essência do estudo de casos conjuga a tentativa de se esclarecer uma decisão ou um conjunto de decisões que foram tomadas, a forma como foram implementadas e quais os resultados alcançados.
O estudo de casos recorre a diversas técnicas de recolha de informação (observação, entrevista, documentação) com a finalidade de reunir um vasto número de informações, de forma o mais pormenorizada possível, com vista a abranger a totalidade da situação em estudo. Utilizámos estas diferentes técnicas de recolha de informação, que oportunamente descreveremos com mais pormenor.
Neste estudo potenciamos igualmente a observação participante, concordando com Pourtois & Desmet (1988), quando referem que esta técnica de investigação transcende o aspecto descritivo da abordagem (objectiva), já que o investigador está inserido na vida dos actores a que o estudo diz respeito, na tentativa de descobrir o sentido, a dinâmica e os processos dos actos e dos acontecimentos.
A posição que adoptámos de investigadora participante activa, permite-nos estarmos intimamente envolvidos nos acontecimentos, assumindo o papel de mediadora, com vista a orientar o processo de aprendizagem, através da planificação das actividades e da criação de Ambientes integrados de aprendizagem, estimulando competências comunicativas e ao mesmo tempo mobilizando os processos cognitivos e sócio afectivos das crianças que participam neste estudo.
De acordo com Evertson e Green (cit in Lessard-Hébert, 1994:156) a observação participante, na sua forma activa, permite registar os dados após o período de observação, ao passo que, numa forma mais passiva, os dados obtidos podem ser registados durante o próprio período de observação.
A nossa função como observadora participante facilita-nos o processo de mediação, na relação entre os sujeitos participantes e os instrumentos de trabalho propostos, encaminhando desafios, observando, orientando e acompanhando todo o processo investigativo.
Esta perspectiva construtivista na investigação, concebe do mesmo modo, um papel activo aos sujeitos participantes, que com o apoio de um agente mediador, lhes permite o estabelecimento de relações entre o seu conhecimento prévio (bagagem cultural) e a nova informação proposta, ajudando-os nas reestruturações cognitivas e na atribuição de significados aos novos conceitos apresentados.
Efectivamente, um dos objectivos da abordagem qualitativa é o de tentar melhor compreender e descrever o processo pelo qual os sujeitos constroem os significados (Bogdan & Biklen, 1994). Daí a descrição ter sido também uma das opções metodológicas que evidenciamos neste estudo.
Pretendemos com a descrição e compreensão das situações interactivas propostas poder contribuir muito modestamente para melhorar as práticas individuais e colectivas no âmbito das Necessidades Educativas Especiais, nomeadamente em crianças trissómicas.
Capítulo III Metodologia