Pretendeu-se realizar uma caracterização morfológica e bioenergética do grupo de natação, em ambos os sexos e em diferentes níveis de maturação, em dois momentos
ao longo de uma época desportiva (MA1 e MA2), avaliando variáveis morfológicas e maturacionais, de aptidão aeróbia e de aptidão anaeróbia recorrendo a testes de laboratório. O grupo de crianças e adolescentes não praticantes de qualquer modalidade desportiva, pertencente ao grupo de controlo, foi avaliado nos mesmos períodos que o grupo de natação, com a utilização dos mesmos testes de laboratório. Ao longo do estudo, os nadadores, pertencentes ao grupo de natação, estiveram envolvidos em sessões de treino de natação pura desportiva, nos respetivos clubes, podendo em alguns casos não ser o mesmo em todos os subgrupos, daí a necessidade de controlar o volume e a intensidade do treino. Salientar que não se verificou uma intervenção no processo de treino, tendo o volume e intensidade do treino sido inteiramente da responsabilidade dos respetivos treinadores.
A Tabela 11 apresenta o desenho experimental do estudo, nomeadamente o facto de ter sido desenvolvido sobre uma metodologia quase-experimental e de grupos não equivalentes, uma vez que decorre de múltiplas observações e a amostra não é representativa da população (Trochim, 2006).
Tabela 11: Desenho experimental do estudo.
Sexo Maturação Grupo MA1 Fator Tempo MA2
Masculino Pré-púberes N O X O C O O Púberes N C O O X O O Feminino Pré-púberes N C O O X O O Púberes N C O O X O O
Nota: MA1 – momento de avaliação 1; MA2 – momento de avaliação 2; N – grupo de natação; C – grupo de controlo; O – observação; X – período de tempo entre o momento de avaliação 1 e o momento de avaliação 2 (treino no grupo de natação e não treino no grupo de controlo).
Segundo Trochim (2006), este tipo de desenho experimental apresenta algumas ameaças à validade interna do estudo, principalmente quanto à seleção da amostra. Posto isto, foi fundamental a criação de critérios de inclusão e de exclusão no estudo.
Critérios de inclusão no grupo de natação:
2 anos de experiência de treino e competição; Praticante federado de natação pura desportiva;
Nível clube, regional ou nacional. Critérios de exclusão no grupo de natação:
Não cumprir 90% do volume de treino da modalidade de natação pura desportiva;
Não realização do MA2.
Critérios de inclusão no grupo de controlo:
Não praticante de qualquer modalidade desportiva;
Não ter praticado qualquer modalidade desportiva no ano letivo (ou época desportiva) anterior.
Critérios de exclusão no grupo de controlo:
Iniciar a prática desportiva durante o período de estudo;
Iniciar atividades físicas que envolvam uma participação semanal superior a 3 horas;
A não realização do MA2.
Os estudos quase-experimentais e de grupos não equivalentes, com pelo menos dois momentos de recolha, encontram-se sujeitos à “mortalidade” da amostra, entendida como o abandono do estudo (Trochim, 2006). De forma a não causar ameaças à validade interna, os elementos da amostra que após o MA1 apresentassem algum critério de exclusão, eram retirados do estudo.
Assim, nas recolhas iniciais participaram 47 nadadores provenientes de 3 clubes de natação (2 do distrito de Santarém e 1 do distrito de Leiria), sendo 25 do sexo masculino e 22 do sexo feminino, e 43 crianças e adolescentes referentes ao grupo de controlo, sendo 24 rapazes e 19 raparigas. Um dos clubes abandonou o estudo devido a não ter disponibilizado todos os atletas nos momentos de avaliação definidos e 4 dos seus atletas (2 nadadores e 2 nadadoras) que realizaram o MA1 não efetuaram o MA2 e foram excluídos do estudo. No segundo clube, 1 nadador abandonou a natação e não realizou o MA2, e 4 nadadoras abandonaram o estudo (2 tiveram lesões ao longo da época e não cumpriram a percentagem definida relativamente ao volume de treino da modalidade de natação pura desportiva e 2 foram de férias logo após o términus da época e não realizaram o MA2). No terceiro clube, apenas 2 nadadores não compareceram para a realização do MA2. Quanto ao grupo de controlo, 4 rapazes não realizam o MA2 (1 no teste inicial verificou-se uma falha na transmissão dos dados no
teste de aptidão aeróbia, 1 iniciou a prática desportiva formal numa modalidade, e 2 não tiveram disponibilidade para a realização do MA2), e 3 raparigas não conseguiram efetuar o MA2 nas datas indicadas para a sua realização.
Após a aplicação dos critérios de exclusão, foram selecionadas 36 crianças e adolescentes praticantes da modalidade de natação pura desportiva (provenientes de 2 clubes integrados na Associação de Natação do Distrito de Santarém), dos quais 10 crianças pré-púberes do sexo masculino (NMPRE), 6 crianças pré-púberes do sexo feminino (NFPRE), 10 jovens púberes do sexo masculino (NMPUB) e 10 jovens púberes do sexo feminino (NFPUB). Quanto à experiência de treino e competição foi de 2 ± 0,32 anos no subgrupo NMPRE, 2 ± 0,41 anos no subgrupo NFPRE, 4 ± 1,25 anos no subgrupo NMPUB e 3 ± 0,48 anos no subgrupo NFPUB. O volume de treino semanal foi aproximadamente de 12500±4800 m no subgrupo NMPRE (4 ± 1 sessões de treino), 10200 m no subgrupo NFPRE (4 ± 0 sessões de treino), 24800 ± 9150 m no subgrupo NMPUB (6 ± 1 sessões de treino), e 14800 ± 3650 no subgrupo NFPUB (5 ± 1 sessões de treino). Os subgrupos NMPRE e NFPRE cumpriram cerca de 98% de treino aeróbio e cerca de 2% de potência ou capacidade anaeróbia aláctica, enquanto os subgrupos NMPUB e NFPUB realizaram cerca de 95% de treino aeróbio, 2% de potência ou capacidade láctica e 3% de potência e capacidade aláctica. O período entre os momentos de avaliação foi semelhante nos dois grupos, nomeadamente de 181 ± 11 dias no grupo de natação e de 178 ± 8 dias no grupo de controlo.
O grupo de controlo foi constituído por 36 crianças e adolescentes não praticantes de nenhuma modalidade desportiva, dos quais 10 crianças pré-púberes do sexo masculino (CMPRE), 6 crianças pré-púberes do sexo feminino (CFPRE), 10 jovens púberes do sexo masculino (CMPUB) e 10 jovens púberes do sexo feminino (CFPUB).
Todos os pais assinaram uma carta de consentimento aceitando a participação dos seus educandos no estudo, tendo entendido e concordado com os objetivos, procedimentos e testes a realizar (e.g., Winter & Cobb, 2008). Todos os participantes foram voluntários, dando o seu assentimento para a participação no estudo (e.g., Jago & Bailey, 2001), em ambos os momentos de avaliação (Flewitt, 2005).
Segundo Trochim (2006), o facto de a amostra ser não probabilística possui limitações quanto à validade externa do estudo, ou seja, à generalização dos resultados
para a população (para todas as crianças e adolescentes praticantes de natação ou não praticantes de nenhuma modalidade desportiva, para outros contextos e para outros momentos).