3.1 Aprendizagem e Entendimento
3.1.1 Desenvolvimento cognitivo
Através de uma metodologia própria de pesquisa (entrevista clínica), Piaget
direcionou suas investigações ao estudo do desenvolvimento cognitivo. Com uma
abordagem qualitativa, Piaget (1973) fez uso de técnicas investigativas para observar o
comportamento humano, quando os sujeitos são submetidos a uma situação de ensino
experimental. Em seus estudos ele observou como a criança se desenvolve e verificou,
a partir de uma perspectiva ontogenética
4(o aumento do conhecimento da criança), que
a criança evolui de forma diferente dos adultos (SANTANA, ROAZZI & DIAS, 2006).
Isso porque o desenvolvimento humano (seus aspectos comportamentais e
cognitivos) não pode ser avaliado adequadamente sem a perspectiva evolutiva
(INHELDER & PIAGET, 1976). Ao descrever e analisar os estados ontogenéticos do
desenvolvimento de uma criança levamos em conta as mudanças comportamentais que
se diferenciam entre as fases da vida do sujeito, à medida que ele se desenvolve. Ao
identificar padrões de comportamento distintos nas crianças, de diferentes idades, foi
que Piaget (1973) considerou a existência de períodos ou estágios de desenvolvimento.
Tendo em vista esse parâmetro teórico, o desenvolvimento humano está
pautado na organização de estruturas cognitivas, que funcionam como “mediadoras
entre funções invariantes e conteúdos comportamentais” (SANTANA, ROAZZI & DIAS,
2006, p. 2). As funções invariantes são delimitadas por processos de organização e
adaptação de novos conteúdos às estruturas cognitivas do sujeito e não têm relação
com a idade, enquanto que os conteúdos comportamentais sofrem mudanças de níveis
à medida que o sujeito se desenvolve. Para Piaget (1973) esses níveis são definidos
como estágios de desenvolvimento, demarcados por idades, em que o sujeito pode
dominar ações (mentais e motoras) sobre o objeto de conhecimento.
Assim, a teoria piagetiana indica a existência de quatro estágios ou períodos,
que delimitam o processo de desenvolvimento cognitiva da criança. Esses períodos são
caracterizados por diferentes mudanças (entendimento, comportamento, visão de
mundo) no processo evolutivo do sujeito e o que difere em cada indivíduo são as
variações biológicas de cada um e o contexto de interação. Os estágios são ordenados
por: sensório-motor; pré-estrutural; operações concretas; e o operatório formal ou
hipotético dedutivo. O desenvolvimento “obedece a essa sequência invariante que
compreende um maior grau de sofisticação à medida que se avança na direção do
último estágio” (SOUZA FILHO, p. 267).
Os estágios são descritos como:
4 Processo evolutivo acerca das alterações biológicas sofridas pelo indivíduo, desde o seu nascimento até seu desenvolvimento final; ontogenia.
a) Sensório-Motor (de 0 a 2 anos): nesta fase a criança inicia o desenvolvimento
da função cognitiva ou sensório-motora. Fase representativa da conquista de
espaço e através da percepção e movimentos a criança pode conhecer os
objetos. A criança desenvolve esquemas
5sensório-motores, que lhe permitem
organizar suas ações através de estímulos externos. As ações da criança
aumentam, quando são estimuladas.
b) Pré-Operatório (de 2 a 7 anos): nesta fase a criança incorpora os esquemas
simbólicos aos esquemas sensório-motores da fase anterior. Isso permite que o
sujeito tenha uma visão ampla da realidade, porém sem riqueza de detalhes
devido à falta de esquemas conceituais. A passagem do sensório-motor para o
pré-operatório também é marcada pela manifestação da linguagem,
contribuindo para o desenvolvimento do sujeito em vários aspectos: cognitivo,
afetivo e social. O nascimento da inteligência, por sua vez, é anterior à
linguagem, que é condição necessária para o desenvolvimento do sujeito, mas
não é suficiente. Isso ocorre porque existem ações cognitivas e de
reorganização e que não têm sua origem na linguagem. O egocentrismo é uma
característica da criança pré-operatória e por isso ela não consegue
posicionar-se sobre situações que demandam maior abstração. Outra característica desta
fase é o surgimento dos “por quês”, em que tudo precisa de uma explicação e
não se consegue estabelecer relações de causalidade. Se entregarmos duas
bolas a uma criança, feitas da mesma quantidade de massa de modelar, com
formatos diferentes a criança não reconhece que a quantidade de massa é igual
em todas as formas.
c) Operações Concretas (de 7 aos 12 anos): na passagem do pré-operatório
para as operações concretas o egocentrismo é substituído pela capacidade da
5 Esquemas (ou schemas), na perspectiva piagetiana são representações mentais ou cognitivas de aspectos da
realidade. O uso deles permite que o indivíduo se adapte e organize o meio. Esquemas são dados não observáveis, existentes na estrutura cognitiva do sujeito.
criança de estabelecer relações entre diferentes aspectos, integrando-as de
modo lógico e coerente. As operações originárias de ações físicas dão lugar às
operações mentais, em que as ações interiorizadas dos sujeitos possibilitam
realizar comparações entre os objetos. Tais operações estão relacionadas a
dois princípios: reversibilidade e conservação. O primeiro está associado à
capacidade da criança de representar uma ação inversa de ações anteriores,
coordenando pontos de vistas diferentes (INHELDER & PIAGET, 1976). O
segundo princípio está associado à diferenciação de aspectos de uma ação,
uma vez que isso acontece ela é capaz de refazer a ação. Por exemplo, quando
despejamos a água contida numa jarra cilíndrica em outra jarra com formato
diferente e perguntamos à criança se as quantidades se mantém, se a resposta
é positiva, demonstra que a criança é capaz de refazer a ação.
d) Operatório Formal ou Hipotético-Dedutivo (a partir dos 12 anos): Para
Piaget (1973) a mudança do operatório concreto para o operatório formal
significa que a criança conseguiu atingir seu nível mais elevado de
desenvolvimento. A representação da realidade, agora, permite que a criança
tenha abstrações totais, as quais não são limitadas por ações imediatas ou por
antecipação. A criança pensa logicamente, levantando hipóteses e combinando
uma série de elementos que lhe permite solucionar problemas. Se pedimos a
uma criança que analise o provérbio “água mole em pedra dura, tanto bate até
que fura”, que se trata de uma metáfora e ela faz uso da lógica para analisá-lo,
sem necessitar de imagens representativas do provérbio, demonstra que ela
pode resolver diferentes problemas usando apenas o raciocínio lógico.
Cada um desses estágios demarca, de algum modo, as possibilidades de
aprendizagem dos sujeitos em cada fase de seu desenvolvimento. Na perspectiva
piagetiana a mudança entre um estágio e outro ocorre quando o sujeito atinge os níveis
mais elevados de desenvolvimento dentro de cada estágio. Segundo Piaget (1974) o
desenvolvimento antecede a mudança, de modo que o sujeito não pode passar do
primeiro para o terceiro estágio sem que a linguagem e os esquemas conceituais se
desenvolvam.
Discutiremos, a seguir, a percepção de aprendizagem do ponto de vista da
teoria neopiagetiana (FISCHER, 1980; BIGGS & COLLIS, 1982) adotada nesse
trabalho, entendida enquanto um processo dinâmico. Para acessar a aprendizagem,
analisamos as mudanças de entendimento do sujeito à medida que ele se desenvolve.
Avaliamos a mudança do traço latente (entendimento) a partir da teoria de Biggs e
Collis (1982, 1991) e utilizamos a perspectiva teórica de Fischer apenas para justificar a
estrutura hierárquica do sistema categórico, construído para analisar os dados
observáveis das respostas dos sujeitos nas tarefas.
Fischer interpreta a habilidade como traço latente e define a aprendizagem
como sendo a mudança do traço latente, habilidade, no decorrer do tempo. A diferença
é que para Piaget (1974) os estágios demarcam o desenvolvimento geral, enquanto
que para Fischer (1980) o sujeito se desenvolve à medida que ocorrem mudanças em
domínios de conhecimento especifico.
Em cada camada o conhecimento construído é intensificado à medida que o
sujeito se desenvolve. Esse desenvolvimento não é linear e promove mudanças na
forma como o sujeito interage com o objeto de conhecimento, interpreta, analisa e
explica suas ações sobre o mesmo objeto ou mudanças em termos de raciocínio lógico.
Para isso, é necessário que os conhecimentos construídos em fases anteriores sejam
mobilizados, pois “um novo conhecimento demanda repertório já construído, uma vez
que é preciso estabelecer relações com o que é familiar” (PORTO, 2015, p. 24).
O entendimento, que é o traço latente investigado neste trabalho, não é
facilmente acessado. Para interpretá-lo, utilizamos dados observáveis e demarcamos
as mudanças em termos de variação dos níveis hierárquicos de complexidade de um
momento para o outro. Pesquisas anteriores (DAWSON, 2006; AMANTES, 2009)
discutem a dificuldade existente para mensurar dados não observáveis e obter
parâmetros coerentes à análise e interpretação do processo de aprendizagem.
Pesquisas recentes (PORTO, 2014; PORTO, 2015) mostram ser possível identificar
traços latentes como entendimento, habilidades e atitudes através do cuidadoso
procedimento de elaboração de instrumentos e coleta de dados.
Para obter os níveis de entendimento, utilizamos a taxonomia desenvolvida por
Biggs e Collis (1982), denominada taxonomia SOLO (Structure of the observed learning
outcome), para classificar as respostas dos estudantes e identificar os níveis de
entendimento alcançados por eles. As teorias que se referem ao desenvolvimento
cognitivo e propõem uma estrutura hierárquica para acessar e interpretar os traços
latentes serviram de base para que pudéssemos identificar o entendimento e
estabelecer uma estrutura hierárquica para classificar as respostas dos estudantes. Ao
analisarmos a complexidade do entendimento, obtivemos indícios de como os
estudantes dos anos iniciais aprendem conceitos físicos, quando são submetidos a
atividades investigativas, em diferentes momentos.
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
(páginas 32-37)