7.2 Ganho do Entendimento
7.2.2 Mudança do entendimento e Fatores de influência
Esta análise se propõe a responder duas questões: O conhecimento inicial
influencia no ganho do entendimento do sujeito? Quais os possíveis fatores
ou preditores, que explicam a mudança no ganho do entendimento? Para
responder essas questões, aplicamos diferentes Testes de Estatística Clássica
(Regressão Linear e Regressão Múltipla) e o teste ANOVA, sobre as medidas de
desempenho dos estudantes.
Gráfico 5: Ganho do entendimento dos estudantes do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental, considerando os valores médios dos instrumentos de coleta. Fonte de dados da pesquisa.
Na primeira análise o ganho é a variável dependente e o conhecimento
inicial do sujeito a variável independente. Os resultados são representados em uma
escala intervalar de medidas, expressa em logits. A partir dessa escala, podemos
fazer comparações entre os logits e verificar o desempenho dos sujeitos em cada
uma das tarefas realizadas. Além disso, obtemos o desempenho geral em relação
aos fatores de influência da aprendizagem.
Aplicamos o Teste de Normalidade Kolmogorov-Smirnov (TN K-S) (ver
Tabela 4), que é um teste não paramétrico, para verificar se a distribuição de um
conjunto de dados adere à Distribuição Normal. A simulação foi feita no software
SPSS, sobre as medidas de desempenho dos 95 estudantes investigados. Nesse
teste, admitimos como hipótese nula (H
0) que os dados da variável estudada se
originam de uma distribuição normal. Sendo assim, se o nível de significância (p) for
menor do que 0,05 rejeitamos a hipótese nula.
Variáveis Valor do teste K-S Desvio Padrão Nível de significância (p)
Pré-teste 1,221 0,72626 0,101
Ganho P-Q 0,406 1,12887 0,997
Ganho Q-P’ 0,924 1,31279 0,360
Ganho P-P’ 1,046 0,95457 0,224
Tabela 4: Resultados do Teste simples Kolmogorov-Smirnov (K-S). Fonte de dados da pesquisa.
Os dados obtidos no teste K-S, demonstram que o nível de significância (p),
de todas as variáveis analisadas, é superior a 0,05. Então aceitamos a hipótese nula
de que existe uma normalidade da amostra analisada. A partir desse teste,
aplicamos testes paramétricos sobre as medidas de desempenho dos estudantes,
estimadas pela modelagem Rasch, para responder as questões de pesquisa
propostas no desenho metodológico.
Aplicamos o teste de Regressão Linear (RL) para verificar se o
O teste foi feito no software SPSS (utilizando o modelo Stepwise
15) e verificamos a
dependência entre as duas variáveis testadas (ganho P-P’ e pré-teste).
Aplicamos o teste ANOVA para verificar a diferença entre as médias dos
grupos e o teste de LEVENE para verificar a homogeneidade das variâncias. Para
identificar os fatores que influenciam no ganho do entendimento, aplicamos o teste
de Regressão Múltipla (RM). A seguir, descrevemos cada um dos testes
realizados.
a) Regressão Linear
Verificamos se há dependência entre o ganho no entendimento e o
conhecimento inicial, aplicando um teste de Regressão Linear à amostra de 95
estudantes. A Regressão Linear é expressa por uma função linear, que nos fornece
os parâmetros de ajuste (R ajustado, o erro, valor de Durbin Watson). Estes
parâmetros nos permitem avaliar o quanto o ganho no entendimento depende do
conhecimento inicial dos estudantes.
Aplicamos o teste sobre as medidas de desempenho dos estudantes,
obtidas a partir da modelagem Rasch. Esse teste nos fornece as estatísticas de
ajuste das variáveis dependente (ganho P-P’) e independente (conhecimento inicial).
Os valores obtidos no teste são explicitados na Tabela 5 e no Gráfico 6.
Resumo do Modelo
bModelo R R² R²
ajustado
Estatística da
Estimativa de erro Durbin-Watson
1 0,552
a0,305 0,298 0,80003 2,313
a.Preditores: (Constante), Pré-teste. b.Variável Dependente: Ganho P-P’
Tabela 5: Parâmetros obtidos na Regressão Linear. Fonte de dados da pesquisa.
15O método serve para checar a importância das variáveis, incluindo-as ou excluindo-as do modelo
com base em uma regra de decisão, e sua importância é definida pelo nível de significância da variável para o modelo.
A Regressão Linear é expressa pela equação:
Y= AX + B
onde:
Y: é o ganho do entendimento;
X: são as medidas do pré-teste;
A: coeficiente de relação entre as medidas X e Y;
B: constante; são os dados residuais que o programa não consegue estimar.
O valor de Y representa a diferença entre as medidas do pré-teste e do
pós-teste. Em nosso estudo a equação é descrita como
Y = -0,726X + 0,413,
sendo R² = 30,5%. O coeficiente de inclinação (A) delimita as posições dos itens em
relação à escala de logits, cujo valor é igual a -0,726. Quando esse coeficiente é
menor do que 1, demonstra que o conhecimento inicial e o ganho possuem uma
correlação negativa. Os resultados demonstram que há dependência inversa entre
as variáveis. Assim, quanto mais o sujeito sabe sobre determinado conteúdo, menos
ele aprende. Esse resultado corrobora alguns apontamentos da literatura
Gráfico 6: Gráfico de Regressão Linear, representando o Ganho x Pré-teste. Fonte de dados da pesquisa.
(AMANTES, 2009), e aponta para o fato de que a evolução de um entendimento se
dá em maior escala quando há um menor conhecimento inicial sobre o que está
sendo estudado, ainda que esse entendimento não seja o mais formalizado possível.
b) Teste ANOVA
Aplicamos, inicialmente, o teste ANOVA para verificar se há diferença de
médias entre os grupos dos estudantes das diferentes séries investigadas. Os
grupos testados foram: gênero, escola e série. Com a ANOVA temos como hipótese
nula de que as médias são iguais. Isso acontece quando o nível de significância (p)
do teste está entre 0,000 < p < 0,05. Para cada grupo testado os resultados se
encontram abaixo (ver Tabela 6 e Gráfico 7).
Grupos analisados VALOR F NÍVEL DE SIGNIFICÂNCIA (p)
SÉRIE 1,913 0,154
GÊNERO 1,689 0,197
ESCOLA 4,575 0,035
Tabela 6: Diferença entre as médias dos grupos analisados. Fonte de dados da pesquisa.
Observando os dados da Tabela 6, verificamos que os grupos “série”
(F=1,913, df=94, p=0,154) e “gênero” (F=1,689, df=94, p=0,197) o nível de
significância foi maior do que 0,05 e que para “escola” (F=4,575, df=94, p=0,035)
este mesmo nível foi menor do que 0,05. Neste sentido, aceitamos a hipótese nula
para os dois primeiros grupos, de que médias são iguais e rejeitamos para o grupo
“escola”, em que as médias são diferentes. Para sistematizar os dados, fizemos uma
análise comparativa das médias (ver Gráfico 7) dos sujeitos por série, gênero e
No grupo série, os estudantes do 3º ano possuem uma média superior à
média do 4º e 5º ano. Isso pode indicar que a intervenção tem maior influência sobre
os estudantes do 3º ano, independente da escola. Entretanto não verificamos
estatisticamente essa diferença. Analisando o gênero, verificamos que os meninos
têm média superior às meninas e ao comparar as escolas, verificamos que a rede
Estadual possui média superior a rede Particular. Essas diferenças, apesar de
aparecerem nos gráficos, não foram estatisticamente relevantes, o que nos leva a
considerá-las somente como indicativos, que podem ser investigados em outras
pesquisas.
c) Teste de Regressão Múltipla
A Regressão Múltipla é um teste estatístico usado para estimar valores de
uma ou mais variáveis de resposta (dependente) através de um conjunto de
variáveis explicativas (independentes) sobre amostras consideradas pequenas. Esse
teste pode ser utilizado para avaliar os efeitos das variáveis independentes, para
prever as variáveis de resposta. Ou seja, avaliar qual das variáveis independentes
consegue explicar a variância dos diferentes preditores analisados.
Em nosso estudo, identificamos a série, o gênero e a escola enquanto
preditores de aprendizagem. Como o número de preditores elencados foi pequeno,
aplicamos o teste de Regressão Múltipla, que é mais sensível porque avalia todos os
preditores de uma única vez. Aplicamos o método Stepwise, na regressão múltipla,
para verificar a inclusão de todos os preditores no modelo explicativo do ganho do
entendimento dos estudantes.
Esse teste foi aplicado porque, pelo teste ANOVA, não foi identificado
estatisticamente nenhum fator, mas ao avaliarmos os gráficos tivemos indicativos de
que alguns efeitos podem ser isolados. Dessa forma, A Regressão Múltipla, pelo
método stepwise, pode isolar melhor os efeitos e verificar, de uma maneira mais
apurada, se realmente não há um fator que possa estar associado ao ganho no
entendimento.
Utilizamos o software SPSS para aplicar o teste de Regressão Múltipla às
medidas de desempenho dos estudantes, obtidas pela modelagem Rasch. Os
resultados do teste nos fornecem os parâmetros de ajuste (R² ajustado e seu erro
padrão estimado, o valor de F, o nível de significância de cada modelo e a
estatística Durbin-Watson
16) para cada um dos preditores testados e aponta qual
deles tem maior influência sobre a variável dependente, que em nosso estudo é o
ganho.
Desse modo, para cada variável que é incluída no modelo podemos avaliar o
nível de significância e o R² dos dados, responsáveis pelas mudanças das variáveis.
Além disso, o teste também fornece um resumo dos modelos explicativos da
variância, apontando apenas aqueles que fornecem bons parâmetros de
comparação. Tais parâmetros determinam qual o modelo que melhor se adequa ao
estudo, explicando a maior parte da variância.
A análise a partir do teste de Regressão Múltipla (ver Tabela 7), nos
forneceu um único modelo explicativo. Dos preditores de aprendizagem testados,
apenas a escola teve significância estatística. Para esse teste, aceitamos a hipótese
nula, na qual o valor de p é menor do que 0,05.
Pela tabela, verificamos que para R² = 0,037, apenas 3,7% da variância é
explicada pelo modelo. A estatística Durbin–Watson (W) corrobora com o valor
estabelecido pela literatura, admitindo valores compreendidos entre 1,5 e 2,5. Em
nosso estudo W = 2,065, indicando que existe uma dependência (auto correlação)
muito grande entre as variáveis do modelo. Assim, aceitamos a hipótese nula de que
as variáveis são independentes.
Este resultado é explicado por apenas 3,7% da variância, sendo um valor
muito baixo. Isso significa que não há uma grande dependência do ganho do
16 A estatística Durbin-Watson é um teste usado para verificar a existência de auto correlação entre as variáveis
testadas ou correlação serial, em função dos dados residuais. O valor do teste estatístico Durbin-Watson deve estar entre 1,5 e 2,5, de modo que para uma estimativa entre estes valores devemos rejeitar a hipótese nula de que os valores são auto correlatados, assumindo que os dados são independentes (AMANTES, 2009).
Modelos R² ajustado Erro F Change Sig. F Durbin-Watson
Modelo 1 0,037 0,93692 4,575 0,035 2,065
Tabela 7: Modelo fornecido pelo teste de Regressão Múltipla para o ganho do entendimento em relação aos preditores. Fonte de dados da pesquisa.