2.1 CAPACIDADES DINÂMICAS
2.1.2 Desenvolvimento das Capacidades Dinâmicas
A literatura sobre capacidades dinâmicas teve suas raízes na VBR e na teoria do
crescimento da firma baseada em recursos de Penrose (1959). Porém, a abordagem das
capacidades dinâmicas também engloba a noção de incerteza de Knight, a destruição criativa
de Schumpeter, a teoria dos custos de transação de Williamson e Coase, o “espírito animal” de
Keynes, e a teoria econômica evolucionaria de Nelson e Winter, de uma forma que poderia
potencialmente explicar não apenas por que as firmas existem, mas também seu potencial para
crescimento e lucros sustentáveis em ambientes altamente competitivos e marcados pela
incerteza (ERIKSSON, 2014; TEECE, 2017b). Esta nova abordagem nasceu a partir de uma
série de estudos realizados por acadêmicos que apontavam que algumas organizações possuíam
maiores habilidades em criar, desenvolver e renovar suas capacidades. Observou-se desta forma
que os recursos, de uma forma ampla, não são estáticos (PISANO, 2017).
Esta nova visão interna das organizações colocou ênfase nas capacidades como sendo
uma categoria superior, e começou a tomar forma nos últimos vinte anos. Ela foi proposta
inicialmente no working paper de Teece e Pisano (1994), e posteriormente foi publicada como
artigo por Teece, Pisano e Shuen (1997). A partir de então, se desencadeou uma grande
quantidade de debates e discussões sobre o tema. De acordo os autores Teece e Pisano (1994),
olhar para as capacidades das empresas endereçava um gap na literatura, pois um paradigma
expandido era necessário para explicar a vantagem competitiva, pois segundo os autores,
enquanto a VBR informava sobre a acumulação de recursos tecnológicos valiosos, as empresas
com alto desempenho no mercado estavam demonstrando respostas rápidas e flexíveis de
inovação, juntamente com a coordenação e reconfiguração de competências e recursos.
No conceito de capacidades dinâmicas, de acordo com Teece e Pisano (1994, p. 538):
(...) O termo "dinâmico" referia-se ao caráter de constante evolução do ambiente; certas respostas estratégicas são necessárias quando o tempo de mercado e o timing são críticos, o ritmo da inovação está acelerando e a natureza da concorrência futura e dos mercados é difícil de determinar. O termo "capacidades" enfatiza o papel fundamental do gerenciamento estratégico na adaptação, integração e reconfiguração adequadas de habilidades organizacionais internas e externas, recursos e competências funcionais para a mudança do ambiente.
O conceito de capacidades dinâmicas formulado por esses autores deu ênfase especial
a duas questões que vinham sendo deixadas de lado na VBR e nas demais teorias e abordagens
da Administração Estratégica, que é o papel fundamental das capacidades no desenvolvimento
das atividades organizacionais e na reconfiguração dos recursos e o caráter dinâmico de
constante evolução e transformação do ambiente competitivo. Posteriormente, Teece, Pisano e
Shuen (1997) continuaram a desenvolver a abordagem das capacidades dinâmicas com a
publicação em periódico do artigo intitulado “Dynamic Capabilities and Strategic
Management”. Esta pesquisa tinha por objetivo analisar as fontes de criação e captura de
riqueza e vantagem competitiva por parte das empresas em ambientes turbulentos e de
incerteza, bem como integrar outros conhecimentos teóricos já existentes.
Ou nas palavras de Teece, Pisano e Shuen (1997, p. 509):
(...) Nossa abordagem é especialmente relevante em um mundo Schumpeteriano baseado na competição pela inovação, rivalidade entre preço/performance, aumentos nos retornos, e a “destruição criativa” das competências existentes. A abordagem visa explicar o sucesso e fracasso em nível de firma. Nós estamos interessados tanto em construir uma melhor teoria do desempenho da firma, bem como em informar a prática gerencial.
A abordagem das capacidades dinâmicas foi desenvolvida para explicar a
sobrevivência e o crescimento de longo prazo ao detalhar como as firmas criam, estendem,
integram, modificam e implementam seus recursos enquanto, simultaneamente, gerenciam as
incertezas e ameaças competitivas, e fazem as transformações necessárias (TEECE, 2010). As
capacidades dinâmicas também abordam uma questão implicitamente histórica: por que
algumas empresas são melhores do que outras na adaptação e reconfiguração de recursos e
capacidades para lidar com (e até criar) mudanças inovadoras em seus ambientes competitivos.
Ela possui um foco particular em explicar por que algumas empresas, em vez de outras, são
capazes de adaptar ou reconfigurar recursos e capacidades operacionais para responder (e
mesmo provocar) mudanças perturbadoras e inovadoras (WADHWANI; JONES, 2016).
As capacidades dinâmicas endereçam essas questões ao explicar como os processos
estratégicos e organizacionais, como o desenvolvimento de produtos, as alianças, e a tomada
de decisões estratégicas sobre os caminhos que a firma vai investir, criam valor para as
empresas em mercados dinâmicos e incertos, manipulando recursos em novas estratégias de
criação de valor (EISENHARDT; MARTIN, 2000). Deste modo, a literatura sobre as
capacidades dinâmicas foi concebida para abordar fundamentalmente o problema de como as
empresas desenvolvem as habilidades e competências que lhes permitem competir e obter
vantagem competitiva em relação a seus concorrentes (ZAHRA; SAPIENZA; DAVIDSON,
2006). Neste sentido, este conceito pode explicar o processo pelo qual as empresas criam,
definem, descobrem e exploram oportunidades empreendedoras em ambientes externos
complexos e voláteis (JIAO et al., 2013), sendo, portanto, elementos importantes na criação,
desenvolvimento e evolução dos empreendimentos (NEWBERT, 2005).
A nova área de pesquisas, era requerida não apenas para entender a competitividade
em ambientes de rápida mudança, mas também para dar respostas aos praticantes em busca de
soluções para seus problemas empresariais existentes e emergentes. Entretanto, apesar do
desenvolvimento teórico relatado acima acerca das capacidades dinâmicas, foi observado que
a literatura sobre este conceito é multifacetada e fragmentada. Desde que o termo foi
inicialmente proposto, diversos pesquisadores o têm investigado sob diferentes ângulos. Como
resultado, várias definições sobre o que são as capacidades dinâmicas têm sido propostas, e ao
passo que a maioria destas ainda apresentem elementos comuns, o conceito é de difícil
entendimento e mensuração, pois se observam diversas definições diferentes e até mesmo
conflitantes. As principais definições de capacidades dinâmicas podem ser encontradas
descritas no quadro 01:
Quadro 01: Definições de Capacidades Dinâmicas.
Autor (es) Definição
Teece, Pisano e Shuen (1997, p.
516)
As capacidades dinâmicas são as habilidades da firma para integrar, construir, e reconfigurar as competências internas e externas para responder rapidamente aos ambientes em constante mudanças.
Eisenhardt e Martin (2000, p.
1107)
São os processos da empresa que utilizam recursos - especificamente os processos para integrar, reconfigurar, conquistar e liberar recursos - para combinar e até mesmo criar mudanças no mercado. As capacidades dinâmicas, portanto, são as rotinas organizacionais e estratégicas pelas quais as empresas conseguem novas configurações de recursos à medida que os mercados emergem, colidem, dividem, evoluem e morrem. Mills et al.(2002,
p. 13) As capacidades dinâmicas podem ser definidas como a capacidade da organização em adaptar suas competências ao longo do tempo. Zollo e Winter
(2002, p. 340)
As capacidades dinâmicas são um padrão estável e aprendido de atividade coletiva por meio da qual à organização sistematicamente gera e modifica suas rotinas operacionais em busca de melhorias em sua eficácia.
Winter (2003, p. 991)
Define as capacidades dinâmicas como um conjunto de rotinas organizacionais que permitem a empresa realizar um conjunto de tarefas repetidamente e de forma consistente.
Helfat e Peteraf (2003, p. 997)
Capacidades dinâmicas envolvem adaptação e mudança porque elas constroem, integram ou reconfiguram outros recursos e capacidades.
Zahra, Sapienza e Davidsson (2006,
p. 918)
As capacidades dinâmicas são habilidades para reconfigurar recursos e rotinas organizacionais no modo visionario e considerado apropriado pelos seus principais decisores (as).
Teece (2007, p. 1319)
As capacidades dinâmicas permitem que as empresas criem, implementem e protejam os ativos intangíveis que suportam um desempenho superior de negócios de longo prazo (...) que sustentam capacidades de detecção, captação e reconfiguração de nível corporativo que são difíceis de desenvolver e implementar.
Barreto (2010, p. 271)
É o potencial da empresa para resolver sistematicamente problemas, formados por sua propensão para detectar oportunidades e ameaças, tomar decisões oportunas e orientadas para o mercado e mudar sua base de recursos.
Makkonen et al (2013, p. 2)
As capacidades dinâmicas são as habilidades da firma de propositalmente criar, estender e modificar a atual base de recursos.
Wilhelm et al.
(2015, p. 328) As capacidades dinâmicas podem ser definidas como uma meta-rotina projetada para melhorar rotinas operacionais da empresa. Teece (2014, p.
328)
As capacidades dinâmicas envolvem atividades de nível superior que podem permitir que uma empresa dirija suas atividades comuns para empreendimentos de alto retorno. Teece, Peteraf e
Leih (2016, p. 18)
È a capacidade da empresa de inovar, se adaptar às mudanças e criar mudanças favoráveis aos clientes e desfavoráveis aos concorrentes.
Teece (2017a, p. 13) e Teece (2017b, p. 699)
As capacidades dinâmicas são sobre fazer as coisas certas, aproximadamente ao tempo certo, com base no desenvolvimento de novos produtos (e processos), processos únicos de orquestração gerencial, uma cultura organizacional orientada para a mudança e uma avaliação presciente do ambiente de negócios e das oportunidades tecnológicas.
Fonte: Elaborado pelo autor.