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Desenvolvimento e Regulação da Imagem Corporal

Capítulo V Espaço Social no Corpo/Corpo no Espaço Social

4. Imagem Corporal Vivida/Sentida

4.1. Desenvolvimento e Regulação da Imagem Corporal

O período da adolescência na vida do indivíduo é marcado por uma série de mudanças físicas, que significam a aproximação da idade adulta, e a forma como é vivido é naturalmente condicionado pelo contexto em que se insere o indivíduo, pela educação recebida e pelos traços da personalidade de cada um. No caso em estudo, e considerando a média de idades actual das mulheres-mães entrevistadas (34 anos), a adolescência foi vivida entre os anos 80 e 90 do século XX, ou seja num contexto social que já se distingue do actual. Os sinais da globalização são característicos desse período temporal, e de facto os adolescentes já tinham a oportunidade de viver determinadas experiências que, por exemplo os seus pais não tinham vivido, o que é fruto da evolução das sociedades modernas (Giddens, 1995a). As mulheres-mães entrevistadas não espelham a sua adolescência naquela vivida actualmente (caracterizada por um forte consumismo e uma necessidade mais precoce de afirmação entre pares), e no que concerne à regulação da sua imagem, ainda foram influenciadas por uma educação32 que não dava tanta abertura a temas relacionados com o corpo.

Os primeiros sinais da adolescência (e foram indicados a partir do guião de entrevista alguns exemplos, como a primeira menstruação, as formas, pêlos, etc.) para estas mulheres-mães tiveram significados semelhantes, no que diz respeito à vontade de se emanciparem no seu grupo de amigas, com o aparecimento da primeira menstruação, encarado como o primeiro sinal de ser mulher. No entanto, a forma como decorreu cada situação foi diferente, sendo que algumas encararam tudo com “naturalidade”, outras não apreciaram esse período, porque não se sentiam bonitas, outras porque após o surgimento da menstruação, mudaram de opinião não associando sequer a uma futura maternidade, considerando então um incómodo, algo que podia mesmo atrapalhar as suas actividades ainda ligadas à infância.

Foi um bocadinho caótico, (risos) foi… eu recordo-me que eu não, não me sentia muito bem na altura, na altura da adolescência, eu usava óculos, e tinha, tenho o cabelo encaracolado, mas tinha

32 O discurso da mulher-mãe de 42 anos destaca-se das restantes, não pela idade, mas sim pelo contexto

rural em que foi educada, caracterizado por actividades comunitárias, famílias alargadas e comunhão de valores e tradições que não são comuns às outras sete mulheres-mães, de origem urbana ou suburbana.

assim um cabelo muito selvagem muito rebelde, não pronto… e eu não gostava muito, eu recordo-me que não gostava muito da… do meu aspecto na altura (…) não me sentia bem, não me sentia bonita (…)a menstruação veio-me um bocadinho tarde (…) tinha treze anos, mas eu recordo-me que na turma, todas as miúdas já, só havia eu e outra que não tínhamos a menstruação, pronto, e então na altura aquilo afectava-me (…) um bocadinho ansiosa que viesse (…) Depois quando surgiu, não achei muita piada (risos) pensei afinal é isto, mas é uma grande seca… (Entrevistada 1 – Analista Programadora)

Eu achava que aquilo era importante, porque todos aqueles sintomas, todas aquelas coisas na altura para mim significava como se eu fosse uma mulher naquela altura (…) que passava a ser mulher, achava aquilo muito importante na altura (…) na altura foi encarado com naturalidade, eu já tinha falado na altura com a minha mãe em relação às mudanças que iam haver, eu fui das últimas das minhas amigas a começar a sentir essas mudanças, portanto já era uma conversa também de amigas, quando surgiram em mim, quando eu comecei a perceber as minhas mudanças, foi de uma forma natural. (Entrevistada 3 – Auxiliar de Serviços Gerais)

Ai, eu era muito maria-rapaz, portanto isso (risos), a menstruação era um incómodo, não é, era uma chateação, por isso era preferível não ter, não associava aquilo com uma possível maternidade, com nada, aquilo era uma porcaria que mais valia as meninas não terem porque nesses dias era muito chato, não podíamos saltar às árvores, fazer coisas que fazíamos no dia-a-dia, no cavalo, lá no burro do meu avô, não sei quê, pronto não dava tanto jeito… (Entrevistada 8 – Técnica Superior de Finanças)

A referência por parte das entrevistadas sobre as suas mães, no período em análise, a adolescência, é novamente de realçar: quase todas indicam que apenas houve alguma partilha no que concerne à primeira menstruação, salientando que havia pouco à vontade em falar com as suas mães sobre as mudanças ocorridas. Algumas mulheres- mães afirmam que nem conversavam sobre os assuntos privados, porque nunca sentiram abertura por parte da família, neste caso por parte da mãe, para abordar o assunto, considerando que essa partilha era “impensável”, “uma vergonha”. No que toca às amigas, demonstram que havia mais à vontade, e que era com elas que de facto partilhavam e não sentiam barreiras. Apenas uma das oito mulheres-mães deu destaque à figura da sua avó paterna, como referência da sua infância e adolescência, considerando que foi através dela que recebeu uma abertura maior e também uma educação no sentido de se afirmar como mulher.

Relativamente aos cuidados com o corpo, apenas referem a prática de desporto/ exercício físico como o único cuidado que tinham, reflectindo deste modo que em comparação com as actuais adolescentes existe uma grande diferença, uma vez que não existia preocupação com a aparência física, como hoje acontece. Já em relação ao sentimento de satisfação com o seu corpo, as opiniões dividem-se: por um lado, algumas mulheres-mães nunca sentiram insatisfação, nem complexos (considerando

uma delas que agora sim, sente-se insatisfeita com o seu corpo); por outro lado, observa-se que houve alguma insatisfação relacionada com a forma como lidaram com as mudanças do corpo, porque não gostavam das suas formas ou do peso que tinham.

Quase todas são da opinião que com o crescimento, todos os elementos que podiam ser incomodativos em relação à sua imagem, desapareceram, e outros foram surgindo com a idade e também com a maternidade, como já referido anteriormente. O corpo como um projecto individual tornou-se presente na vida destas mulheres à medida que avançaram na idade, desenvolvendo pouco a pouco determinados aspectos que consideram importantes na construção desse projecto que tem sido trabalhado e realizado como uma parte integrante das suas auto-identidades (Shilling, 2003).