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DESENVOLVIMENTO E RESULTADOS DA PESQUISA

No documento 6 6 (páginas 31-34)

O curso de Licenciatura em Ciências Exatas, com habilitações em Química, Física ou Matemática, é um curso novo ofertado no Centro de Estudos do Mar em Pontal do Paraná (primeira turma ingressante no 1º semestre de 2014), todavia, mesmo com poucas turmas, é notável a grande dificuldade com a qual muitos estudantes se deparam ao encarar os conteúdos dessas áreas. Este fato é corroborado pelo depoimento dos próprios alunos, que comentam sobre as dificuldades vivenciadas por eles durante sua formação na educação básica, como, por exemplo, aulas de Química ministradas por professores formados em

outras disciplinas (até mesmo por uma professora formada em Letras), ou mesmo a inexistência de professores nessa área.

O Projeto Político-Pedagógico do Curso de Licenciatura em Ciências Exatas, explícita que a formação proporcionada ao aluno (futuro professor), deve ser ampla e completa, para que venha a se tornar um profissional que tenha domínio tanto sobre os conceitos científicos inerentes à sua prática pedagógica (seja Química, Física ou Matemática) quanto do conhecimento pedagógico propriamente dito, buscando-se um profissional ético e que consiga exercer seu papel pleno, tanto como profissional quanto como cidadão atuante e modificador da realidade social da qual faz parte.

Para tanto, o Projeto Licenciar denominado “A experimentação em Química no auxílio às aulas em Colégios Estaduais da região de Pontal do Paraná”, aprovado no Edital Licenciar 2015 (EDITAL N.º 001/2015 PROGRAD/UFPR), buscou criar oportunidade de envolvimento dos alunos vinculados ao projeto na pesquisa em Educação com a Rede Estadual de Ensino do munícipio, bem como propiciar educação de qualidade por meio da relação teoria e prática desenvolvida numa perspectiva de totalidade histórica, incentivando a capacidade de pesquisa e de intervenção na realidade.

O projeto foi desenvolvido em duas etapas, uma primeira, onde foram coletados dados com quatro professores que atuam nas disciplinas de Química nos cinco colégios estaduais de Pontal do Paraná (Hélio Antônio de Souza (Praia de Leste); Maria Helena T. Luciano (Shangrilla); Paulo Freire (Praia de Leste);

Renee Carvalho de Amorim (Ipanema); Sully da Rosa Vilarinho (Pontal do Sul)), atuantes no Ensino Médio. E uma segunda etapa de proposição e aplicação de experimentos em sala ou no laboratório, quando disponível, na tentativa de fazer a relação da teoria e prática com vivência do conteúdo proposto (GIORDAN, 1999; GUIMARÃES, 2009).

No trabalho aqui apresentado, focaremos na primeira etapa do Projeto, que no momento de proposição, buscava trazer subsídios para verificar como a disciplina é ministrada na região e se fatores diversos poderiam interferir na prática docente e também na formação dos alunos. Para a coleta de dados foi elaborado um questionário com treze perguntas, que abrangiam informações sobre o lócus de trabalho dos docentes entrevistados, período de atuação e formação, estado da estrutura física e pedagógica dos colégios, bem como a possibilidade do uso de experimentos para ilustrar os conceitos químicos.

Os resultados obtidos na área de Química indicaram algumas situações que vão ao encontro de lacunas na formação dos alunos no Ensino Médio, como bem pontuado por outros pesquisadores (MARTORANO et al., 2014; ARAUJO JUNIOR et. al. 2013), muitas oriundas de situações extraclasse que interferem na prática docente desenvolvida pelos professores da disciplina de Química.

Tal fato se evidencia também por meio da coleta de dados, na qual foi observado que no ano de 2015 havia quatro professores que atuavam nas disciplinas de Química nos colégios pesquisados, sendo que apenas dois deles eram formados em Licenciatura em Química, um terceiro formado em Licenciatura em Biologia e um quarto ainda, atuando em regime de trabalho temporário contratado pelo mantenedor com formação em Licenciatura em Matemática, o que levou inclusive os alunos envolvidos no projeto a questionarem: Qual é o desenvolvimento do conteúdo realizado por um profissional formado em uma área diferente das Ciências Naturais?

Diante disso, constata-se por meio dessa análise que algumas lacunas presentes na formação dos alunos do Ensino Médio, advêm da atuação de professores que não são formados na área da disciplina ministrada, muito em decorrência do déficit de professores na educação do nosso país, sobretudo na área das Ciências Exatas (AGÊNCIA BRASIL, 2016). Esse fato dificulta

o exercício da prática pedagógica e, consequentemente, a transposição didática, já que esses professores apresentam dificuldades no domínio do conteúdo, justamente por não serem formados na área de atuação. Por transposição didática, entende-se a passagem do conhecimento científico para saber escolar:

A mediação didática não deve, por conseguinte, ser interpretada como um mal necessário ou como um defeito a ser suplantado.

A didatização não é meramente um processo de vulgarização ou adaptação de um conhecimento produzido em outras instâncias (universidades e centros de pesquisa). Cabe à escola o papel de tornar acessível um conhecimento para que possa ser transmitido.

Contudo, isso não lhe confere a característica de instância meramente reprodutora de conhecimentos. O trabalho de didatização acaba por implicar, necessariamente, uma atividade de produção original. Por conseguinte, devemos recusar a imagem passiva da escola como receptáculo de subprodutos culturais da sociedade. Ao contrário, devemos resgatar e salientar o papel da escola como socializadora / produtora de conhecimentos (LOPES, 1997, P.566).

Outro fator que pode estar relacionado com uma formação deficitária dos alunos no Ensino Médio, especificamente na disciplina de Química, é a estrutura inadequada, ou inexistente, para a realização de aulas práticas. A Química é uma ciência que traz em sua essência a parte empírica, ou seja, a parte de experimentação (realização de experimentos), que por um lado está enraizada na concepção empírico-positivista (MALDANER, 1999, p. 290), mas que pode ser também utilizada para associar a teoria à prática, contribuindo com a assimilação e apropriação do conteúdo por parte dos alunos. Adicionalmente, a experimentação é um dos pilares da Química (GIORDAN, 1999) e estudos indicam que esta é uma metodologia eficaz para ensino tanto de ciências (VALADARES, 2001, p. 38) quanto da Química em si (GUIMARÃES, 2009).

Na pesquisa realizada com os professores que atuam nas disciplinas de Química nos colégios da região, foi observado

que apenas dois colégios possuem uma estrutura adequada de laboratório, com reagentes, vidrarias e materiais auxiliares, para a realização de aulas. Os demais colégios, ou não possuem espaço, ou o espaço destinado ao laboratório é ocupado como depósito ou para alguma outra finalidade, como biblioteca em um dos casos. Além disso, os professores ainda relataram a dificuldade de se realizar aulas práticas, ou seja, as que permitem a vivência do conteúdo, devido ao excesso de alunos nas turmas, com turmas chegando até 40 alunos, tornando-se inviável realizar experimentos com segurança em um laboratório, pois este é um ambiente que exige grande atenção para que acidentes não ocorram, além disso, contando apenas com a presença do professor da disciplina, ou seja, sem auxiliares.

Ressalta-se que todos os professores entrevistados demonstraram interesse em empregar experimentos para complementar as aulas de Química, mesmo que fossem realizados em sala de aula, com a proposta de utilizarem materiais baratos e que apresentassem risco nulo de periculosidade para os estudantes. Inclusive surgiu a demanda por um curso de formação continuada em Experimentos de Química para o Ensino Médio. Convém também mencionar que os alunos, de modo geral, veem como extremamente positiva a realização de experimentos para o ensino de conceitos químicos (CARDOSO;

COLINVAUX, 2000, p. 403).

Outro fato, que convém salientar é a instabilidade política no ano de 2015, a qual gerou uma greve longa na Rede Estadual de Ensino, prejudicando o desenvolvimento normal das aulas, e, consequentemente, prejudicando também o processo de ensino e aprendizagem, pela ausência de apropriação dos conteúdos pelos alunos.

No documento 6 6 (páginas 31-34)