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4. RESPONSABILIDADE SOCIAL

4.1. CONCEITO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL

4.1.2. Desenvolvimento Humano

A questão do desenvolvimento é o tema que embasa e dá suporte para as ações de responsabilidade social corporativa. As organizações que tendem a trabalhar nesta lógica impõem um discurso para que haja de fato uma melhoria das condições de vida do ser humano dentro de sua respectiva área de alcance.

Amartya Sen (2000)45, por exemplo, defende a ideia da liberdade das pessoas para o alcance do desenvolvimento. Para tanto, expõe cinco tipos de liberdades instrumentais: (1) liberdades políticas, (2) facilidades econômicas, (3) oportunidades sociais, (4) garantias de transparência e, (5) segurança protetora.

Para o nosso estudo, destacaremos duas destas liberdades que possuem identidade com as possibilidades de atuação das organizações do ambiente corporativo e estão diretamente conectadas com alguns princípios estabelecidos pela teoria da RS.

As oportunidades sociais são as disposições que a sociedade estabelece nas áreas de educação, saúde etc., as quais influenciam a liberdade substantiva de o indivíduo viver melhor. Por garantias de transparência entende-se a necessidade de veracidade que as pessoas podem esperar umas das outras como forma de inibir a corrupção, a irresponsabilidade financeira e as transações ilícitas (Sen, 2000). Esta última possui relação direta com os princípios éticos.

45 SEN, Amartya. (2000). Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das

A atuação das organizações com embasamento em um desses princípios é capaz de proporcionar desenvolvimento, que se encontra alinhada à realização plena dos direitos humanos, à promoção da liberdade e à oferta eqüitativa de oportunidades visando o desenvolvimento de potenciais (Silveira, 2007)46.

As organizações estão inseridas, portanto, em um ambiente social, ou seja, se relacionam com diferentes tipos de público: consumidores, investidores, fornecedores, entidades públicas, entidades políticas, terceiro setor etc que refletem sobremaneira na sua forma de atuar e as conseqüências geradas pela sua atuação junto à sociedade.

É assim que surgem as organizações não-governamentais (ONG), cujo papel essencial é promover ações que beneficiem grupos específicos de pessoas em diferentes setores de atividade. As ONG’s, muitas delas suportadas por empresas e com apoio direto de grupos representantes da sociedade civil, atuam em distintas frentes de trabalho, como forma de alcançar o desenvolvimento humano. Neste conceito, Silveira (2007) destaca que o desenvolvimento humano e a cidadania acabam por estabelecer uma íntima relação.

Conforme comentado outrora, algumas destas responsabilidades em função do desenvolvimento e, consequentemente, da melhoria de índices sociais e económicos em suas respectivas áreas de atuação, que em tese seriam papel do Estado, acaba por ser assumido pela sociedade civil organizada.

46 SILVEIRA, Juliano. (2007). Desenvolvimento humano, responsabilidade social e

educação no capitalismo: investigando o programa “educação pelo esporte” do Instituto

Importa destacar a atenção que Sen (2000) chama para as consequências da falta de oportunidades oferecidas às pessoas:

A privação de capacidades individuais pode estar fortemente relacionada a um baixo nível de renda, relação que se dá em via de mão dupla: (1) o baixo nível de renda pode ser uma razão fundamental de analfabetismo e más condições de saúde, além de fome e subnutrição; (2) inversamente, melhor educação e saúde ajudam a auferir rendas mais elevadas. Os fatores apresentados são limitantes ao alcance da liberdade e, conforme observado pelo mesmo autor anteriormente, inibem o desenvolvimento humano.

Por isso, em 2000, a ONU, ao analisar os maiores problemas mundiais, estabeleceu oito “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, conhecido no Brasil como PNUD, em que os 191 Estados-Membros se comprometeram a: erradicar a extrema pobreza e a fome; atingir o ensino básico universal; promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental; estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento47.

Neste sentido, destaca-se a educação como um item fundamental para o alcance do desenvolvimento. A mesma deve se organizar em torno de quatro aprendizagens fundamentais de modo a possibilitar que cada indivíduo atinja o “conjunto das suas missões”. Os pilares do conhecimento estão configurados nas seguintes competências, que se complementam mutuamente durante o processo de aprendizagem: (a) aprender a conhecer – adquirir os instrumentos da compreensão e ampliação do senso crítico sobre as questões mundanas; (b) aprender a fazer – agir sobre o meio envolvente a partir do

47 PROGRAMA das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Objetivos de Desenvolvimento

conhecimento adquirido; (c) aprender a viver juntos – participar e cooperar com os outros em todas as atividades humanas, a respeitar-se as individualidades de cada um e; (d) aprender a ser – desenvolver um senso crítico próprio que permita uma ação em consonância com os seus princípios, a integrar todas as outras formas de aprendizagem (Delors et al, 1998)48.

Os quatro pilares da educação para o século XXI são a base de inúmeros projetos sociais. Exemplo disto é o Instituto Ayrton Senna, que o utiliza como base metodológica para sua atuação junto às crianças e adolescentes participantes do programa “Educação pelo Esporte” (Silveira, 2007).

Trata-se da relação entre a educação e o desporto que contribuem sobremaneira para as condições de desenvolvimento humano das pessoas que participam deste tipo de projeto. Basta notar que a criminalidade, de acordo com Long et al (2002)49, está diretamente associada com os baixos níveis de performance educacional.

Conforme Hellison e Walsh (2002, p. 293)50 comentam, ao tratar do “Programa de Desenvolvimento Pessoal e Responsabilidade Social”51 proposto

por Hellison na década de 197052 a partir de níveis hierárquicos para se alcançar o desenvolvimento social, que a responsabilidade pela questão educacional dos praticantes passa também pela conduta e pelos valores

48 DELORS, Jacques et al. (1998). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a

UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo: Cortez Editora.

49 LONG, Jonathan et al. (2002) Count me in: the dimensions of social inclusion through culture

and sport. Leeds Metropolitan University. Leeds UK.

50 HELLISON, Don; WALSH, David. (2002). Responsibility-based youth programs evaluation:

investigating the investigations. National Association for Physical Education in Higher Education, Quest, 2002, n. 54, p. 292-307.

51 The Personal-Social Responsibility Model.

52 Hellison, D. (1973). Humanistic physical education. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall.

desenhados por meio das propostas do programa de atividade física ao qual o jovem está inserido, uma vez que o mesmo traz consigo, de seu cotidiano e histórico de vida, problemas sociais que não se dissociam da sua personalidade ao ter contato com o desporto. Esse programa pode ser resumido pelas suas convicções, metas e estratégias, conforme segue:

Convicções:

Ensinar competências e valores da vida integrados com o

programa de atividade física, ao invés de os tratar separadamente.

As lições aprendidas no ambiente de treinamento devem ser

reforçadas de modo que elas possam ser transferidas para as demais atitudes realizadas na vida do praticante.

As principais instruções devem ser baseadas em uma

mudança gradual de responsabilidade, partindo do líder do programa para a assunção dos demais participantes do programa.

Para que qualquer uma destas atribuições atreladas aos

participantes se tornem um sucesso, o líder do programa deve reconhecer e respeitar a individualidade, os pontos fortes, as opiniões, e a capacidade para a tomada de decisão de cada um.

Metas:

1. Respeito aos direitos e sentimentos dos outros:

Auto-controle sobre o temperamento e o vocabulário utilizado; Considerar o direito de todos de ser incluído;

Participação pacífica e democrática na resolução de conflitos.

2. Esforço e trabalho em equipa:

Auto-motivação a fim de explorar o seu próprio esforço, a

tentativa de realizar novas tarefas, e a persistência sobre as tarefas;

Cooperação e treinabilidade (quando trabalha com outros

líderes).

3. Auto-direcionamento:

Trabalho independente;

Definição de metas progressivas bem delineadas para se

resistir à eventual pressão de colegas. 4. Cooperação e liderança:

Possuir sensibilidade e capacidade de resposta para atender

os outros em termos de interesses e necessidades;

Contribuição para o bem-estar das pessoas e do grupo.

5. Fora da área de treinamento:

Aplicar estas ideias fora do programa de atividade física; Ser um modelo de conduta.

Estratégias:

Lições formais: sensibilização por meio de palestras, aulas,

reuniões de grupo e reflexões pontuais;

Categorias estratégicas de instrução: estratégias de

sensibilização, instrução direta, estratégias, estratégias de tomada de decisão individual, grupos de tomada de decisão estratégica. (Hellison e Walsh, 2002).

Portanto, no contexto dos clubes de futebol, a oferta e estímulo a uma educação regular adequada e de qualidade somada a um modelo padrão de tratamento é essencial para que cada indivíduo possa se orientar e se posicionar perante a sociedade, a prevenir a formação de adultos alienados à realidade mundana. Segundo Cunha (2007), “a dimensão humana do desporto não pode ser abandonada à dependência do livre arbítrio dos interesses comerciais do negócio”.

A importância da educação está baseada simbolicamente pela escola, que tende naturalmente a reproduzir a sociedade. Mas a mesma também pode, dadas circunstâncias mais favoráveis, com destaque para a atuação dos professores, promover a cidadania crítica dos alunos (Demo, 2002)53.

O papel dos clubes no processo de formação está diretamente interligado com as responsabilidades da escola. A preocupação se refere ao entendimento do mundo e propõe uma educação voltada para evitar a alienação, a formar cidadãos mais críticos e responsáveis por suas escolhas.