Quando se fala de formação continuada, permeando esse processo, encontra-se a dimensão de desenvolvimento profissional. Segundo Dias da Silva (1998), a definição de desenvolvimento profissional docente alicerça-se na proposta de um continum (Pérez Gómez, 1992) de formação, em que a inicial é senão o começo de uma trajetória do trabalho docente que será construído no decorrer de uma carreira profissional permeada por conhecimentos, habilidades, capacidades e posturas peculiares de cada sujeito.
Imerso num contexto de rápidas mudanças e provocador de tensões, o professor é chamado a assumir uma atitude de responsabilidade em relação à sua formação. Nessa direção, considera-se que a dimensão do desenvolvimento profissional envolve a dimensão do crescimento, progresso, ampliação das possibilidades de atuação dos professores. Dessa forma, faz-se necessário que se articulem duas dimensões fundamentais e intrínsecas na prática docente: a qualificação do professor e as condições concretas de trabalho. Autores como Nóvoa (1999), Marcelo Garcia (1999), Imbernóm (2004) dedicam-se a interpretar a prática docente e propor mudanças à formação dos professores, apontando para a inseparabilidade entre a formação e o conjunto das questões que historicamente tem afetado o seu fazer educativo: salário, jornada de trabalho, carreira, condições de trabalho, gestão, currículo.
Nessa direção, Gonçalves (1995) destaca que o "desenvolvimento profissional, mais do que outros aspectos do desenvolvimento do indivíduo, é condicionado pelos fatores de contexto, podendo acontecimentos de natureza sociopolítica e cultural vir alterá-lo ou, mesmo, a determiná-lo" (p.148). Essa é a demanda mais atual, não se deixar prender pela "camisa de força" das políticas externas ao campo de trabalho.
69 O conceito de desenvolvimento profissional costuma ser utilizado como sinônimo ao conceito de formação continuada. Aceitar a equivalência é restringi-los, principalmente no que diz respeito à formação continuada dos professores. O mesmo é bem mais amplo. Segundo Imbernón (2004), à formação docente deve acrescentar a questão da profissionalização: remuneração, ambiente de trabalho, estabilidade e promoção profissional, estrutura organizativa, gestão, contexto cultural.
Ponte (1998) afirma que a formação do professor é intrínseca ao seu desenvolvimento profissional e sua miragem deve focar em favorecê-lo. Segundo o autor, a formação está relacionada com o ato de frequentar cursos seguindo o modelo escolar. Não obstante, o desenvolvimento profissional processa-se por meio de inúmeras formas que incluem atividades como organização de projetos, trocas de experiências, leituras e reflexões. Portanto, conforme Ponte (1998), a formação se volta para aquilo que o professor necessita no desenvolvimento profissional.
Para Nóvoa (2004), há três processos que se articulam de maneira inseparável: desenvolvimento pessoal, desenvolvimento profissional e desenvolvimento organizacional. O primeiro diz respeito à subjetividade da vida do professor, focalizando dentre outras coisas os investimentos realizados por cada indivíduo ao longo de sua carreira com o intuito de qualificá- la. O segundo, por sua vez, refere-se à profissionalidade docente, isto é, aquilo que é específico na ação docente, "conjunto de comportamentos, conhecimentos, destrezas, atitudes e valores que constituem as especificidades de ser professor" (p.65). O desenvolvimento organizacional pauta-se na atividade docente e nas condições de trabalho. Apesar de o professor ser considerado o principal agente para efetivar as mudanças educacionais, na maioria das vezes esbarra nas burocracias e nas relações de poder que o impede de ter suas propostas vistas, ouvidas e aceitas. Outros agentes da escola acabam por escolher e direcionar as prerrogativas das políticas.
Sobretudo, para Marcelo Garcia (2009), o desenvolvimento profissional é visto como um processo numa dupla dimensão individual e coletivo, sendo que o lócus de formação é o próprio ambiente de trabalho, a escola. É ela que contribui para a ampliação das competências profissionais, por meio de experiências de índoles diferentes, tanto formais quanto informais em seu cotidiano. Além disso, o autor defende que o desenvolvimento profissional representa uma ação sistematizada construída na medida em que os professores adquirem experiências, consciência de seu papel e responsabilidades profissionais. Por isso, o autor busca analisar o
70 papel que a identidade dos docentes assume diante do desenvolvimento profissional e dos processos de mudanças e melhoria da educação.
A reflexão é referendada como necessária, ao passo que é através da identidade, assumida para si e para os outros, que as pessoas os veem. Os professores não estão imunes às influências da escola, às reformas e ao contexto sociopolítico, que, por conseguinte, constituem o compromisso pessoal, a disponibilidade para aprender a ensinar, as crenças, os valores, o conhecimento sobre as matérias que ensinam e como ensinam, as experiências passadas, assim como a própria vulnerabilidade profissional.
Paralelamente, Alet (2001) aborda o tema a partir do enfoque das pedagogias da aprendizagem, do profissionalismo, dos saberes, das competências e dos conhecimentos dos professores. Definindo o profissional professor como sendo uma "pessoa autônoma, dotada de competências específicas e especializadas que repousam sobre uma base de conhecimentos racionais reconhecidos e oriundos da prática profissional" (p.25). O autor continua argumentando que, quando o conhecimento é construído a partir de uma prática contextualizada, os mesmos passam a ser autônomos e professados, isto é, explicitados oralmente de maneira racional, e o professor é capaz de relatá-los.
Cumpre-se dizer que quando escolhemos uma profissão, de certa maneira, fazemos a opção também de um modo de vida. Somos integrantes de uma categoria profissional, que dependendo do grau de identidade que possui, alcançam-se benefícios relevantes para o desenvolvimento profissional. Em consonância, compreende-se que a profissionalização é um processo formativo, o qual começa na formação inicial e permeia todo o decorrer da formação continuada, levando-nos, geralmente a uma metamorfose, que por sua vez dialoga com as mudanças da realidade e com as transformações de seus pares no espaço profissional. A profissionalização docente inclui diferentes aspectos que envolvem uma profissão com diversos tipos de atividades que são realizadas pelos profissionais.
Enfim, o desenvolvimento profissional implica duas dimensões intrínsecas, uma situada na formação profissional e outra na relação direta com as condições concretas em que o professor exerce a sua atividade. Nesse sentido, é imprescindível que o desenvolvimento profissional venha acompanhado das melhorias das condições de trabalho, na medida em que estas podem potencializá-lo ou restringi-lo. Por isso, é necessário ter em mente que o desenvolvimento profissional dos professores deve ser visto como um processo nutrido não só pelo que a formação inicial e continuada oferecem, mas também pelos instantes de interação que ocorrem entre os pares e pelas reflexões pessoais, bem como pelas relações que podem
71 ser estabelecidas entre a teoria e a prática, pelas aprendizagens realizadas em contextos formais e informais.