1.5 Crescimento ↔ Desigualdade
1.5.1 Desigualdade → Crescimento
Na literatura de crescimento, tanto do ponto de vista teórico quanto empírico, há uma grande controvérsia sobre se a relação da desigualdade é positiva ou prejudicial ao crescimento.
O impacto detrimental da desigualdade sobre o crescimento tem sua sustentação teórica na idéia tradicional de que a riqueza, tanto em nível individual, quanto agregado determina as oportunidades de investimento em capital físico e capital humano, com efeito direto sobre a taxa de crescimento da economia e mesmo sobre as flutuações econômicas, o que aumenta a volatilidade da economia. Isso é reforçado pelas restrições de crédito a que estão sujeitos os indivíduos de renda (riqueza) mais baixa e o que a teoria microeconômica moderna mostrou, criam também um problema de incentivo e de moral hazard. Além disso, a desigualdade poderia afetar o crescimento por outros dois canais. O primeiro diz respeito ao processo de decisão política, no qual o eleitor mediano poderá influenciar o governo na implantação de políticas de distribuição de renda e de fatores de produção. O segundo ocorre através de mecanismos que afetam estabilidade social, com custos sociais adicionais como a violência em decorrência da distribuição desigual dos recursos entre os residentes de uma economia, ou mesmo criam conflitos distributivos prejudiciais ao crescimento posterior (Alesina; Rodrik, 1994).
A seguir são apresentadas de forma reduzida as duas principais teorias que sustentam um efeito negativo da desigualdade sobre o crescimento.
1.5.1.1 Imperfeições no Mercado de Crédito, Moral Hazard e Incentivo.
Em artigo de 1981, Stigltz e Weiss (1981), apresentaram as bases da teoria do mercado de crédito em um contexto de seleção adversa. Nesse artigo, três hipóteses foram o foco dos modelos de restrição de crédito utilizados nas teorias de crescimento. A primeira era que os emprestadores não podiam distinguir entre os diferentes graus de risco entre os tomadores de empréstimo. A segunda era que os contratos tinham uma responsabilidade limitada para o tomador de empréstimo. E por fim, que a análise se restringia a involuntário default. Todavia, esta responsabilidade limitada, pode levar a que o emprestador fique relutante em aumentar a taxa de juros acima de um certo nível, o que cria um problema de incentivo aos emprestadores, pois isto limita o seu retorno. Alem disso, intrinsicamente se cria um problema de moral hazard, uma
vez que a responsabilidade limitada reduz o esforço daquele toma o empréstimo em evitar o default.
De fato, como acentuaram Aghion e Bolton (1997), os indivíduos de baixa renda que são obrigados a tomar emprestado para investir, não realizam o esforço necessário (ótimo), ou pelo menos o esforço que o emprestador gostaria que ele exercesse para que o empreendimento seja bem sucedido, na medida que a perda maior recai sobre o emprestador, caso o mesmo não o seja.
Nessa mesma direção, Aghion, Caroli e Garcia-Peñalosa (1999) concluem que quando os mercados são altamente imperfeitos e a tecnologia de produção exibe retornos decrescentes do capital, a desigualdade afeta negativamente o crescimento, especialmente porque tem um efeito detrimental dos agentes sobre o capital humano. Alem disso, esse efeito detrimental é acentuado quanto menos desenvolvido é o mercado de crédito e maior a separação entre “emprestadores” e investidores ensejando os problemas de moral hazard e de incentivo.
Também o próprio colateral afeta o esforço e o retorno do tomador de empréstimo, uma vez que aqueles que possuem maior riqueza para colocar como colateral obtém crédito mais barato e, portanto, maiores incentivos para trabalhar com mais afinco (Ghosh; Mookherjee; Ray, 2000).
1.5.1.2 Modelos de Economia Política
Nesses modelos, sob o pressuposto de que o regime político vigente seja democrático, parte-se da idéia de que quanto mais baixa a renda do votante mediano ou pivotal – que politicamente pode exercer uma influência nas decisões públicas através do voto – aumenta-se a pressão para que o governo exerça algum tipo de política de redistribuição. E isto, por sua vez, desestimula o investimento privado.
A diferença dos modelos sob este escopo, como assevera Ros (2000), depende do tipo de gasto governamental considerado: investimento público (Alesina e Rodrik, 1994), transferências do rico para o pobre (Person e Tabellini, 1994), e redistribuição do capital para o trabalho (Bertola, 1993).
Em quaisquer dos casos, existe algum tipo de mecanismo de transferência compensatório que acaba por aumentar as distorções nas decisões econômicas.
Os outros modelos incluídos aqui como de economia política dizem respeito àqueles que acentuam o papel da desigualdade em criar instabilidade e conflitos sócio-políticos na economia. O efeito detrimental da desigualdade nesse particular ocorre por vários canais. Primeiro, porque cria um forte incentivo para certos grupos sociais se engajarem em atividades de rent-seeking, ou predatórias. Segundo, porque motiva uma inquietação quanto à segurança dos direitos de propriedade e incerteza acerca da distribuição dos recursos, incluindo um aumento no risco de expropriação. Terceiro, porque a desigualdade de renda e riqueza pode também motivar os pobres em atividades criminosas, com custos sociais bastante significativos para a economia e sociedade. Por fim, o excesso de desigualdade poderia conduzir a algum tipo de polarização, diminuindo as possibilidades de um consenso quanto à implantação de reformas políticas ou mesmo quanto à segurança na manutenção de contratos e direitos de propriedade.
Situado entre as duas divisões acima está o artigo de Benabou (1996), que analisa como ocorre a redistribuição num processo votante com imperfeição no mercado de crédito. Assim, em um contexto de geração sobrepostas, o autor mostra que a desigualdade evolui endogenamente em resposta às restrições de crédito e política, não sendo afetada pelo nível do desenvolvimento econômico.