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Outras Características Recentes do Mercado de Trabalho

No documento Tese de Marcelo Bentes Diniz seguro 2011 (páginas 49-51)

2 CARACTERÍSTICAS DA DESIGUALDADE BRASILEIRA E SUAS

2.1 Características Particulares da Desigualdade Brasileira

2.2.3 Outras Características Recentes do Mercado de Trabalho

A partir da implantação do Plano Real e de uma ostensiva política de abertura comercial que caracterizou em grande medida a política econômica do país na década de 90, várias foram às modificações ocorridas no mercado de trabalho brasileiro e que têm reflexos, pelo menos indiretos, sobre a distribuição da renda derivada dos salários no período.

Dentre os vários fatos estilizados que caracterizam a evolução recente do mercado de trabalho, Camargo (1999) aponta alguns deles reportando-se especificamente ao emprego metropolitano:

a) Redução do emprego industrial. Este fator também já tinha sido apontado por outros estudos, como Ramos e Reis (1997), que constatam uma retração da capacidade de gerar empregos pelo setor industrial, decorrente de um processo de reestruturação produtiva e organizacional das empresas, como forma de se adequarem às condições de concorrência com empresas estrangeiras;

b) Aumento do emprego nos setores de serviço (até 1996) e comércio (até 1997);

c) Movimento cíclico da taxa de desemprego aberto no início do período pós- estabilização, seguindo a evolução do emprego industrial e uma tendência de aumento do desemprego aberto quando excluídos os movimentos cíclicos;

d) Crescimento do Rendimento Médio Real dos trabalhadores, independente do setor de atividade.

e) Movimento de alta do custo médio do trabalho e diferenciado entre os setores da economia. Assim, para a indústria, cresceu até 1996 decrescendo a partir de então, e crescente para o setor serviços.

Ramos e Reis (1997), também em relação ao emprego metropolitano, chamam atenção para outros movimentos, como um aumento da produtividade na indústria e, especialmente, contrariando o que se poderia esperar a manutenção da qualidade dos postos de trabalho criados, ainda que esteja ocorrendo uma expansão do setor não-formal da economia, como ressaltado por Cacciamali (2000). De fato, observam esses autores um migração de mão-de-obra qualificada para a condição de trabalhadores por conta própria, em virtude da maior capacidade dos

trabalhadores nessa condição de manterem seus rendimentos, especialmente em momentos de estagnação ou processos lentos de crescimento econômico.

2.3 As Tentativas de Interpretação

O Estudo da desigualdade de renda no Brasil foi objeto de uma discussão bastante profícua ao longo do último século, despertando paixões e debates acadêmicos com fortes desdobramentos políticos em alguns casos. Com o objetivo de ressaltar as especificidades da desigualdade brasileira, apresenta-se a seguir o debate em torno de suas diversas interpretações.

2.3.1 O Debate Embrionário

O debate distributivista foi iniciado em meados de 1940, esquecido ao final da década de 1940 e início da década 50, quando ressurgiu de forma ainda tímida a partir de 1953, com a campanha em favor do aumento do salário mínimo, para efetivamente ser o centro da discussão durante as décadas de 1960 e 1970. Na década de 1980 e início da década de 1990 o debate foi esvaziado, em favor da discussão anti-inflacionária, para tomar ao final da década de 1990 a proporção que tem hoje no embate acadêmico e na promoção das políticas públicas nas diversas esferas de governo.

Segundo Bielschowsky (1996), o problema distributivista em 1953 foi discutivo em torno de três temas principais que serão o cerne do debate nas duas décadas seguintes: reajuste salarial, formação de poupança e desigualdades regionais.

O primeiro tema surgiu da mobilização operária de 1953 que seguiu ao reajuste do salário mínimo em 100%, com argumentos a favor e contrários à tese de que essa seria uma forma de elevar a capacidade de compra da população, elemento indispensável à industrialização.

O segundo tema foi suscitado pelo texto apresentado pelo grupo CEPAL-BNDE, em que se afirmava que no passado recente houvera uma redistribuição de renda em favor do capital relativamente ao trabalho, sem, no entanto, ter havido uma ampliação da taxa de poupança privada. Desse texto seminal se desencadeou um debate entre os defensores dessa tese, inclusive, sustentando um aporte de poupança pública, em particular Celso Furtado, e àqueles que viam na

transferência de renda para classes altas como uma forma de elevar à taxa de poupança da economia, defendida principalmente por João Paulo de Almeida Magalhães.

Por fim, a questão regional que girou em torno das diferenças entre o nordeste atrasado e as regiões sul e sudeste. O desequilíbrio existente tinha como causa, segundo a principal tese à época, a migração de capitais e de mão-obra-qualificada que se dirigiam para as regiões desenvolvidas, que gozavam além de uma maior produtividade marginal do capital, “economias externas”, complementariedade e densidade de mercado. Tal tese ganhou especial notoriedade com o Relatório Final da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos - CMBEU, de 1954 entitulado: “Avanços e Retardos da Economia Brasileira”. Nesse documento, inclusive, Roberto Campos, um dos seus mentores, apontava os seguintes fatores como responsáveis pelo desequilíbrio regional: 1) regressividade do sistema fiscal, uma vez que a predominância do imposto sobre o consumo relativamente ao imposto de renda prejudicaria principalmente as áreas atrasadas; 2) relações de troca desfavoráveis, uma vez que as regiões pobres, exportadoras de produtos primários o faziam a taxas sobrevalorizadas e importavam pouco; 3) sangria de recursos humanos.

Antes da década de 1960, quando o debate redistributivista realmente ganhou fôlego, o grande expoente que manteve o tema em evidência, foi Celso Futado. Seu foco sobre o tema foi centrado em quatro vertentes (Bielschowsky, 1996): a) a proposta de redistribuição de renda através da tributação sobre a classe rica como forma de ampliar a poupança nacional e assim os investimentos; b) a relação entre concentração de renda e crescimento econômico; c) desigualdades regionais, ligada a busca de solução à questão nordestina; d) reforma agrária.

No documento Tese de Marcelo Bentes Diniz seguro 2011 (páginas 49-51)