O desligamento definitivo do Instituto Hahnemanniano do Brasil viria a acontecer no mesmo ano, encerrando-se o que chamamos de fase homeopática na
66 É assim que a população se refere ao Guia, pelo nome de seu autor.
produção de Nilo Cairo. Ele não abandonará as suas concepções em relação à medicina e em especial a homeopatia, mas tanto em suas ações como nas publicações, a homeopatia perderá prioridade.
O desgaste provocado pelo episódio do fracasso da criação da Sociedade Homeopática Brasileira fez com que as relações de Nilo Cairo com o Instituto rapidamente se deteriorassem e, na reunião do dia 09 de novembro de 1911, seria lida uma carta de Nilo Cairo demitindo-se da condição de sócio correspondente.
pedindo demissão de sócio do mesmo, e na qual diz o Sr. Dr. Nilo já ter em outra carta, anteriormente dirigida ao Sr. Dr. Theodoro Gomes, feito tal pedido. O Sr. presidente declara que, realmente, recebera uma carta do Sr. Dr. Nilo contendo a referida solicitação e submete o caso à apreciação da casa.
Pede a palavra o Sr. Dr. Dias da Cruz e diz que lamenta sinceramente a resolução tomada pelo seu ilustre confrade; acha que o Instituto não se poderá ver privado do concurso eficaz de tão ilustre consócio, cujos serviços ao Instituto e à causa da homeopatia são inestimáveis (ANNAES, n.12, 1911, p.91-92).
Colocado em votação, o pedido é rejeitado por unanimidade.
Nove dias após essa reunião Joaquim Murtinho estaria morto e os acontecimentos já relatados de que Nilo Cairo teria aproveitado as homenagens feitas por sua revista ao presidente do Instituto para reafirmar suas restrições a ele, provocaram reações de seus colegas, principalmente de Juvenal Murtinho:
Pede a palavra o Sr. farmacêutico Juvenal Murtinho e diz que vai ler perante o Instituto um trecho de um artigo da Revista Homeopática Brasileira em que o Sr. Dr. Nilo Cairo, a propósito da não aceitação da sua demissão de sócio desta casa, faz considerações a respeito do falecido Dr. Joaquim Murtinho excessivamente acrimoniosas e injustas. Lê o trecho referido e diz que o Dr. Nilo sempre foi tratado pelo Dr. Murtinho com especial agrado e distinção não dispensados a outros colegas, e que, dadas as condições de moléstia em que se achava o Dr. Murtinho e os fatos que já se tinham passado, comprometendo-o perante os seus amigos, não era possível que ele acedesse ao que queria o Dr. Nilo e pela forma por que o queria, e daí a atitude pouco cavalheiresca e descabida do Dr. Nilo, atacando um morto que não lhe poderá portanto dar a resposta devida (ANNAES, n.5, 1912, p.252).
Nessa mesma reunião, ocorrida no dia 18 de abril de 1912, vários outros sócios do Instituto se manifestam em censura a Nilo Cairo. Theodoro Gomes afirmou que não poderia aceitar "os conceitos por demais injustos do Dr. Nilo Cairo a respeito
da personalidade do seu saudoso ex-presidente". Manifestaram-se ainda Dias da Cruz e Alcides Nogueira em desacordo a Nilo Cairo.
Nos meses que se seguem haverá discordâncias entre Nilo Cairo e Dias da Cruz Filho em relação à reforma dos estatutos do Instituto Hahnemanniano do Brasil, culminando com um novo pedido de desligamento por parte Nilo Cairo:
Curitiba (Paraná), 21 de julho de 1912
Ilmo Sr. Presidente do Instituto Hahnemanniano do Brasil
Tendo resolvido, por motivos particulares, que só a mim dizem respeito, deixar de fazer parte desse Instituto, renuncio, nesta data, depondo-o nas vossas mãos, o meu lugar de sócio correspondente, o que vos peço mandeis consignar em ata.
Aproveito a oportunidade para apresentar-vos os protestos da minha elevada consideração e profundo respeito e pedir-vos transmitir aos demais membros do Instituto os meus agradecimentos e profunda gratidão pelo distinto apreço com que sempre fui tratado no seio da corporação.
Cro e am.o mto. obr.o Dr. Nilo Cairo
(ANNAES, n.9, 1912, p.377).
Dessa feita, o pedido foi aceito de forma unânime.
Termina aí a fase da homeopatia de Nilo Cairo. Embora não vá abandoná-la, ele se envolverá de forma apaixonada à questão do ensino.
Depois de trabalhar pela homeopatia acreditando sempre na difusão das ideias nos meios populares e profissionais, julgava que o Instituto Hahnemanniano do Brasil deveria albergar uma escola de homeopatia. Frustrado na tentativa de convencer seus colegas do Rio, não abandonou seu sonho e iria empreender aqui a criação de uma universidade. Antes, quando frustrou-se com a tentativa de Saturnino Meirelles em impedir as discussões no Instituto sobre o uso de medicamentos complexos, abandonou a redação dos Anais, mudou para Curitiba e criou aqui sua própria revista. Agora, ataca Joaquim Murtinho, que não o apoiara e vai criar a "sua própria escola".
Antes de se passar ao próximo período da vida de Nilo Cairo, há que se fazer um registro da sua vida pessoal e trazer algumas informações sobre a carreira militar.
Ao lado de termos encontrado nesse período um homem combativo e operante na defesa da homeopatia, encontramos também indícios de que a sua vida pessoal tenha sido repleta de problemas.
Tendo chegado viúvo a Curitiba, não estava de todo só. Tinha as responsabilidades em relação ao filho, fruto de seu primeiro casamento, o qual, como já afirmamos, tinha sérios problemas de saúde.
Sebastião Paraná (1922, p.272) anotou em seu livro Galeria Paranaense que Nilo "em 191067 casou-se em segundas núpcias com D. Leonor Lopes da Silva, filha do honrado e laborioso paranaense Coronel Jesuino Lopes". A família de Leonor Lopes será fundamental para que Nilo Cairo não sofra resistências em sua vida profissional em Curitiba. A estratégia matrimonial vem completar o que já havia feito com o exercício da homeopatia. Segundo Carneiro (1963, p.545), Leonor era neta de Candido Martins Lopes, fundador do Dezenove de Dezembro, primeiro jornal do Paraná.68
Esse casamento lhe daria parentesco com Flavio Ferreira da Luz69, pois este havia se casado com a irmã de Leonor, Sarah. Portanto, Flavio Luz era concunhado de Nilo Cairo e será seu companheiro na iniciativa de criação da Universidade no Paraná, como veremos adiante.
Leonor tendo contraído tuberculose provocou a mudança do casal para a cidade de Palmeira, para se beneficiar dos ares do campo em seu tratamento. Nilo Cairo teria permanecido naquela cidade cerca de um ano "estudando e clinicando", voltando a Curitiba assim que a esposa apresentou sinais de melhora. Do casamento de Nilo Cairo e Leonor Lopes nasce uma filha, Sarah Lopes da Silva (CARNEIRO, 1963, p.545; 1984, p.15-16).
Nilo Cairo não conviverá com essa filha nos primeiros anos de sua vida, pois o casamento de Nilo e Leonor enfrentando sérios problemas resultará em separação.
67 Carneiro confirma esta data em sua obra Nilo Cairo: biografia (CARNEIRO, 1984, p.15), mas havia afirmado em obra anterior, a Galeria de Ontem, que Nilo Cairo casara-se com D. Leonor em 1906 (CARNEIRO, 1963, p.545).
68 O Dezenove de Dezembro circulou pela primeira vez no dia 1.o de abril de 1853, cujo proprietário, o tipógrafo Candido Martins Lopes assentara-se na recém criada província do Paraná, vindo do Rio de Janeiro. Esse jornal dava publicidade aos atos do novo governo, de Zacarias de Góes e Vasconcellos (MARTINS, 1999, p.59-60).
69 Flávio Ferreira da Luz em 1909 tornou-se bacharel pela Faculdade de Direito do Rio de Janeiro.
Foi um dos precursores do espiritismo no Paraná (OLIVEIRA, 2012, p.60).
Novamente temos a repetição dos fatos ocorridos no final da estada de Nilo Cairo no Rio de Janeiro, onde o homeopata produzia bastante no trabalho, mas ao mesmo tempo vivia dramas familiares como a morte da primeira esposa e a doença do filho. Agora precisa enfrentar os problemas de saúde da mulher, o fim do casamento e a separação da filha ainda pequena enquanto se desliga do Instituto.
Em relação à sua carreira militar, nota-se que, embora, inicialmente, a justificativa apresentada por Nilo Cairo para a solicitação de afastamento temporário da redação dos Anais tenha se referido às suas obrigações militares, nem o próprio Nilo atribuiu relevância aos seus feitos na carreira militar, pois não ficaram registros a esse respeito. Nilo tinha acesso à imprensa e fez publicar as suas opiniões estabelecendo as polêmicas que julgou relevantes e ocorre que em nenhum momento encontramos referências a temas ou assuntos ligados à sua vida militar.
Há diversos relatos de um de seus biógrafos sobre o seu desinteresse pela vida militar, ou pelo menos pelo seu desapreço pelo uso do uniforme militar (CARNEIRO, 1963; 1984).
É possível que a vida militar, como opção na maturidade, realmente não fizesse parte dos seus planos, sendo que a vida militar e sua formação na Academia Militar da Praia Vermelha tenham sido importantes para cunhar nele a mentalidade positivista, o engenheiro disciplinado, mas, sobretudo, foi a vida no exército que lhe permitiu sair de Paranaguá e formar-se médico no Rio de Janeiro. Considerando sua origem social – filho de telegrafista e professora primária – não teria conseguido formar-se médico sem a passagem pela vida militar. Assim, cursar a Academia Militar foi fundamental em suas estratégias de ascensão social, numa sociedade elitista.
Quando chegou a Curitiba em fevereiro de 1906, Nilo Cairo era 2.o tenente e em 1908 foi promovido a 1.o tenente, na arma de engenharia. Essa promoção passou a valer a partir do dia 27 de agosto de 1908 e está publicada no Diário Oficial de 10 de outubro de 1908. A sua promoção a capitão, na arma de engenharia, ocorreu a 07 de dezembro de 1910, e foi publicada no Diário Oficial de 30 de dezembro de 1910. A promoção a capitão foi efetivada mais tarde, pois no Diário Oficial de 08 de fevereiro de 1911 ainda se fala da promoção de Nilo Cairo como "proposta" da
"Comissão de Promoções", sendo que a classificação como capitão no dia 11 de fevereiro de 1911 está publicada no Diário Oficial de 16 de fevereiro daquele ano (DIARIO OFFICIAL, 08.02.1911, p.10; 16.02.1911, p.5).
Nilo Cairo, no posto de capitão, teria solicitado a reforma do Exército, no mesmo ano de 1911, segundo Carneiro (1963, p.545; 1984, p.15). Ao fazê-lo teria sido reformado no posto de major. Carneiro afirma que o motivo que levou Nilo Cairo da Silva a pedir a reforma foi a sua surdez, resultado da própria prática militar.
Não encontramos nenhuma consistência na afirmação de Carneiro de que Nilo Cairo tenha chegado a major, pois referências posteriores encontradas em Diário Oficial tratam Nilo Cairo como "capitão reformado", sendo a última que localizamos datada de 194170 (DIARIO OFICIAL, 01.07.1941, p.51).
Ainda, naquele ano de 1912, em que seu pedido de afastamento definitivo do Instituto Hahnemanniano do Brasil foi aceito por unanimidade, em reunião acontecida no dia 12 de dezembro, os Anais registrariam os próximos passos de Nilo Cairo, não sem uma ponta de ressentimento:
O Paraná vai ter uma Universidade, na organização da qual esta empenhada a atividade do nosso colega Dr. Nilo Cairo. Será possível que só nós fiquemos na inação?! Não é possível, precisamos trabalhar! (ANNAES, n.5, fev., 1913).
Esse tom de desabafo ocorre em uma discussão em que o presidente do Instituto traz o problema de falta de recursos financeiros para a instalação de uma faculdade de homeopatia, a Faculdade Hahnemanniana, e propõe utilizar recursos do Instituto.
Sete dias depois Nilo Cairo participaria da criação da Universidade do Paraná.